Gabriel García Marquez

A musa de Gabriel García Marquez que nunca disse mais nada ao escritor

No outono de 1990, Gabriel García Marquez, com 63 anos na época, estava por Paris. Desde 1976 que estava a trabalhar numa série de contos com cenário na Europa.

Gabriel Garcia Marquez faleceu este ano.

Cover/Getty Images

Autor
  • Fábio Monteiro

Para Gabriel García Marquez, o grande tema da literatura — e da vida — era o amor. “O amor é o tema mais importante na história da humanidade. Alguns dizem que é a morte. Eu não acho isso, porque tudo está ligado através do amor”, disse um dia.

No outono de 1990, Gabriel García Marquez, com 63 anos na época, estava por Paris, após um longo período de ausência do continente. Desde 1976 que estava a trabalhar numa série de contos com cenário na Europa, sobre episódios que aconteciam a pessoas latino-americanos – publicado em Portugal com o título de “Doze contos peregrinos.” As mulheres sempre foram ocuparam muito espaço na prosa de Gabo. O conto “Bela adormecida e o avião” é uma história sobre um encontro em Paris entre o autor e uma mulher latino-americana num aeroporto — mulher essa que é elevada a musa conforme o dia avança. Até agora, não se sabia qual era a identidade desta mulher.

Já no final da sua viagem, em outubro de 1990, estava à espera no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, para voar até Nova Iorque, quando ficou atordoado por uma mulher brasileira de 26 anos que se sentou ao seu lado. Silvana de Faria, na época, era atriz. “Sou a rainha dos embaraços e um deles foi com ele”, disse à revista Newsweek. A cidadã brasileira estava a viver com o cineasta francês Gilles Béhat, com quem tinha um filho com sete meses. O marido apercebeu-se que Silvana estava infeliz e ofereceu uma viagem aos pais da mulher para a virem visitar a França.

“Apaixonados por Paris?”

Era uma manhã fria de outubro e Silvana já tinha perdido o peso extra ganho durante a recente gravidez. O avião onde vinham os pais estava atrasado por causa do mau tempo. Depois, reparou que o aeroporto estava cheio de pessoas a dormir no chão, até que, por sorte, avistou uma cadeira livre. Foi nesse momento que ela apercebeu-se do homem que estava sentado ao seu lado, nos seus 60 anos, com boa aparência, de bigode e cabelo escovado. Era Gabo.

“Ele disse, ‘Bonjour’. Ele tinha um sorriso fantástico. Eu sou obcecada por dentes. É a primeira coisa para onde olho. Os dele eram brancos e perfeitos. Eu podia cheirar o seu hálito limpo, porque as nossas cadeiras estavam muito próximas”, contou Silvana, à revista Newsweek. Rapidamente a conversa avançou.

“Ele ficou muito tocado por conhecer em Paris uma genuína latino-americana nascida na Amazónia. Eu expliquei: ‘Quando se nasce na selva, conseguimos sobreviver em qualquer lugar. Viver numa cidade moderna é só um tipo diferente de selva.” Mas o ponto principal da conversa chegou quando Marquez perguntou: “Porque é que estás a morar em Paris? Eu respondi: Nós, latino- americanos, só podemos morar em França quando nos apaixonamos.”

“Apaixonamos por França?” “’Não, pelo amor à primeira vista. Eu acredito que esse é o único tipo de amor.’ Ele escreveu isto naquela história [A bela adormecida e o avião]. Ele usou as minhas palavras”, contou à revista norte-americana. Quando o avião dos pais de Silvana aterrou, Gabo agarrou-a pelo braço e deu-lhe um papel: “Para ti, sou Gabo. Aqui está a minha morada, número de telefone e fax.” Depois deste episódio, Silvana diz ter esquecido Gabriel Garcia Marquez. “Não li mais nenhum dos seus livros. Nunca tive vontade de ligar-lhe ou escrever.”

Mas quando Gabo morreu, no dia 17 de abril de 2014, Silvana descobriu o livro “Doze Contos Peregrinos”, onde o encontro que teve há mais de 30 anos foi usado como inspiração para um conto. “Senti o seu tom de voz. Tive a sensação que ele estava a olhar para mim, fixamente. Durante alguns minutos, senti que ele me estava a mandar uma mensagem”, confessou Silvana.

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