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Onde as pedras se tornam leves

Tiago Figueiredo viajou até à Escócia, onde conheceu Martine e Allan, que trabalham há 20 anos na recuperação e conservação dos caminhos pedonais dos parques nacionais escoceses.

© Tiago Figueiredo

A inclinação da montanha não atrasa Martine e Allan. Nem a mochila com picareta, pá, enxada e pé de cabra que cada um leva parece pesar-lhes nos ombros. A cada passada a distância nos separa aumenta alguns centímetros. As botas não hesitam pelo estreito trilho de gravilha ladeado de tufos de giesta que evitam pisar. Acho que só param por me ouvirem respirar ofegantemente quando estamos prestes a chegar ao topo. Lamento a minha má forma física e peço-lhes desculpa por os fazer esperar. Allan desdramatiza.

– Eu também estou cansado. Estou a ficar velho…

– Não estás nada, andas é a comer demasiado chocolate.

Martine agarra no casaco de Alan pelo colarinho e abana-o enquanto fala. São adolescentes na forma como interagem e se provocam.

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– É o meu vício…

– Mas tira-te energia. Dá-te força a curto prazo, mas deixa-te mais cansado depois.

Allan tem 61 anos, Martine é 10 mais nova. Trabalham na recuperação e conservação dos caminhos pedonais dos parques nacionais da Escócia há 20 anos. Um trabalho duro, que implica arrastar pedras, carregar baldes de gravilha, percorrer por vezes três horas de montanha para chegar ao local de obra, sejam quais forem as condições meteorológicas. Martine simplifica quando lhe pergunto que qualificações são necessárias para este tipo de trabalho.

– Não precisámos de um curso superior específico. São necessárias essencialmente duas características: resistência física e capacidade de compromisso. Não é fácil ter um trabalho no cimo de uma montanha e ter de a subir todos os dias durante três horas debaixo de chuva, com vento. Há muita gente que ao fim de uma semana desiste e volta para um emprego de escritório.

Hoje é mais fácil. A roupa feita em Gore-Tex, um tecido mais respirável, à prova de água, é mais confortável e os ordenados subiram, desde que o governo escocês passou a integrar parceiros privados na conservação dos parques nacionais.

– Tenho muitos amigos que ainda me perguntam porque o faço, se não preferia ter outro emprego, mas não imaginam o prazer que me dá estar ali no meio da montanha, muitas vezes sozinha, com a água entrar pelas mangas, pelo pescoço, os dedos a doer. É realmente duro, mas oh, não imaginam como gosto do que faço! Eu adoro climas extremos!

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Antes, Martine trabalhou na Suíça como guardadora de gado. Entregavam-lhe várias manadas de vacas e ia pelos montes a partir de maio, para as voltar a entregar em outubro, crescidas e saudáveis.

– Havia lá um português, o Manuel, muito competente, mas zangado com a vida. Acho que era por estar longe da família. A língua também era uma dificuldade que o isolava ainda mais. Os portugueses eram muito explorados e enganados por causa da barreia linguística. Eu não me deixava pagar mal, sabia argumentar com os donos das várias manadas. Era um trabalho duro e de grande responsabilidade, tinha de ser pago na mesma proporção. Mas o Manuel falava mal francês.

Allan e Martine trocaram olhares pela primeira vez há 24 anos.

– Eu estava em Orkney (uma das ilhas a norte da Escócia) a divertir-me muito há algum tempo. A Martine estava lá de férias. Então Deus achou que eu me estava a divertir demasiado e pôs a Martine no meu caminho.

Allan para de falar para ver a minha reação. Martine sorri, como quem ouve a história pela milésima vez. “Na verdade, Deus salvou-me”, diz agora quase em silêncio, deixando as palavras ressoar e misturar-se com o murmúrio dos regatos de água que descem o vale. “Depois o Allan veio comigo para a Suíça e guardámos gado durante um ano”, continua Martine. “Só não ficámos depois em França porque este senhor se recusou a aprender a falar Francês”. Achas que os ingleses têm uma dificuldade especial de aprendizagem com línguas estrangeiras, pergunto a Martine. Allan dá uma gargalhada. Martine responde que o melhor é perguntar diretamente a Allan.

– Se visitasses a família da Martine, e as ouvisses as cinco irmãs falar também não irias querer aprender francês.

Martine devolve a gargalhada. “Não é fácil, concordo”. E como vieram depois para a Escócia? “Há 22 anos abrimos o mapa, fechámos os olhos e escolhemos à sorte com um dedo. Saiu Fort William. Vivemos lá desde então. Antes disso ainda tentámos Inglaterra, mas tivemos uma má experiência em Stoke, perto de onde vive a família do Allan. Trabalhei numa fábrica de tartes de carne de porco. Uma linha de montagem enorme, com imensas mulheres a fazer turnos de oito horas com movimentos repetitivos. Tinha de mudar de braço para evitar alguma lesão. E toda aquela carne… Já tinha ouvido falar na conservação dos parques nacionais e ter um trabalho ao ar livre era o que queria. Despedi-me ao fim de duas semanas. Havia lá uma miúda nova, tinha começado há pouco tempo. Ainda lhe disse para onde ia, para ver se a tirava daquele lugar, mas ela respondeu que os pais também trabalhavam na fábrica, tinha ali os amigos. Acabou por ficar. Ainda lá deve estar. Uma vida inteira a fazer o mesmo movimento”.

Enquanto Martine esteve na fábrica de tartes, Allan trabalhou à noite como carregador num enorme celeiro de onde partiam camiões para todo o país.

– Era um mau emprego, no inverno, com imenso frio no celeiro. E como era um trabalho de agência, o salário era muito baixo. Mesmo assim, havia imensa gente à procura de emprego. Alguns homens sabotavam as coisas para alguém ter um acidente, partir uma perna e poderem no dia seguinte pôr lá um amigo. O ambiente não era nada bom. Então viemos para Fort William.

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Estamos sentados no meio do vale, a poucos metros das pequenas reparações que têm de finalizar hoje. Partem amanhã para Fort William, depois de 6 meses de trabalho em Cairngorm. Martine serve-me uma chávena de sopa de tomate quente. Partilham comigo a comida que trouxeram. Pedi-lhes na véspera para os acompanhar neste dia de trabalho, cinco minutos depois de os conhecer. Queria saber mais sobre o que faziam, queria passear no parque com quem melhor o conhece. Allan emprestou-me umas botas de caminhada. Tive de as encher com três pares de meias para que ficassem justas aos meus pés. A sopa é deliciosa e o calor sabe bem no meio da temperatura dos chuviscos. Há também chá verde, sandes de queijo e fruta.

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O trabalho consiste em refazer alguns desvios de cursos de água. É necessário colocar conjuntos de meia dúzia de pedregulhos na intersecção do caminho pedestre com as inúmeras linhas de água que descem da colina. “Existem várias opiniões sobre a importância deste tipo de trabalho”, diz-me Allan. “Há quem defenda que nem sequer deviam existir caminhos pedestres a atravessar o parque, para não incentivar o uso e consequente erosão. Há os académicos que discutem o tamanho das pedras que devemos colocar, uns dizem que devem ter 30 centímetros, outros indignam-se por não serem lajes de um metro. Mas seja como for, os hábitos da população estão a mudar. Existe uma faixa etária mais velha que começa a tornar-se mais ativa e a procurar atividades de ar-livre.” Martine continua por Allan: “Não havendo caminhos criar-se-ia outro problema. As pessoas passariam a andar por cima da vegetação. Em pouco tempo haveria não um mas cinco, seis ou sete caminhos”.

A intervenção nos Parques Nacionais é mais extensa que os caminhos. Em Cairngorms, sem predadores naturais que ajudassem a manter o equilíbrio do ecossistema, a população de veados cresceu de forma exagerada. Como consequência, aliada a outros fenómenos naturais, deram-se alterações drásticas na flora envolvente. Foram assim retirados todos os cervos de algumas das áreas do parque, na tentativa de voltar a ter árvores e arbustos. “Já não será no nosso tempo de vida”, diz Martine, “mas talvez daqui a cem ou duzentos anos volte a haver aqui árvores como já houve. Pelo menos agora voltámos a ter esta vegetação rasteira que há 10 anos não existia”.

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O trabalho de equipa de Allan e Martine é feito de muitos anos de experiência. Antecipam-se, combinam esforços, dividem tarefas sem precisar já de trocar muitas palavras sobre o assunto. “O Allan tem mais força que eu. Eu tenho muita resistência, mas não consigo arrastar grandes pedregulhos”, diz Martine, enquanto vai ao ribeiro encher um balde com gravilha para ocupar os espaços entre as pedras maiores.

Allan observa uma pedra grande que trouxe de uns dez metros abaixo, arrastada pelas cheias provocadas por uma tempestade em agosto. “Choveu mais num dia do que nos meses anteriores todos juntos. O rio transbordou, derrubou pontes, levou árvores, muitos destes caminhos ficaram destruídos”. Com uma pá, retira alguma terra para adaptar o terreno ao novo ocupante. “Esta tem uma forma engraçada. Não é evidente como a vou enterrar”. Debruça-se e faz rolar a pedra até encaixar no espaço que faltava. “É preciso ter cuidado com os dedos. Quando nos aleijamos o trabalho torna-se muito desconfortável”.

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Aproveito o tema da segurança no trabalho para perguntar pela segurança laboral. Não encontrei imediatamente as palavras certas, Allan continuou a responder sobre os cuidados a ter no manuseio das pedras até que exclamou “Ah… Estás a perguntar se temos subsídio de férias, reforma, alguma segurança se deixarmos de ter trabalho? Não, não temos. Somos contratados por empreitada. É aberto um concurso e temos de apresentar uma proposta”. Allan faz uma pausa, muda o tom de voz. O ar bem disposto com que quase sempre fala torna-se agora mais apreensivo. “Não estamos a ir no caminho certo quando a palavra ‘competitividade’ se torna num lema e num objetivo a alcançar. As pessoas têm de se unir, ser solidárias, não lutar umas com as outras por um pedaço de comida. Mas somos sete biliões neste planeta, não é?” E depois desta obra vão para onde? “Vamos regressar a Fort William e estar algum tempo com a nossa filha. Mas não, não temos nenhum contrato a seguir. Ainda não”, diz sem sorrir.

Martine chega com um balde de gravilha. Ajoelha-se e mergulha as mãos entre as pedras colocadas por Allan. Procura pedras mais pequenas para preencher os espaços, enche o que falta com gravilha e, no fim, cobre com terra e relva, retirada doutro lugar. “Temos de deixar tudo preparado para a natureza fazer o seu papel. Se eu deixar esta terra aqui, daqui a umas semanas a erva cresce e agarra melhor as pedras umas às outras. Nem se vai notar que passámos por aqui”.

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“Trabalhamos bem os dois”, diz-me Allan, “mas nem sempre trabalhamos juntos. Temos uma filha de 14 anos e um de nós tem de estar com ela. Agora está de num campo de férias e conseguimos vir os dois para aqui”. Martine diz que nem sempre é fácil, “há dias em que um de nós está mais irritadiço e só existe uma pessoa por perto para descarregar. Nessas alturas temos de perceber que o melhor é darmos espaço um ao outro.” Allan concorda, com um dedo faz uma festa na barriga de Martine. “É preciso ser muito inteligente para conseguir manter uma relação tantos anos. As coisas vão mudando com o tempo”.
Martine pousa a pá. “Estou cansada. Quero ir embora”. Allan anui. Temos ainda uma hora e meia de caminhada pela serra até ao jipe, antes de regressar à pousada para restabelecer a temperatura e energia.

À noite, Martine consulta os emails. Vem ter comigo com um sorriso aberto. “Acabei de receber uma proposta de trabalho. Estávamos sem nada ainda agendado. Há uns anos o Allan ficava muito ansioso com esta incerteza, mas agora lida de outra forma. Acho que quando estamos a fazer as coisas certas, tudo acaba por se resolver pelo melhor. Ainda por cima é um trabalho perto de Fort William, vai permitir-nos estar mais tempo com a nossa filha. Pronto, claro que agora temos de enviar uma proposta competitiva, com um bom orçamento, mas vai tudo correr bem!”

Separamo-nos, o cansaço da caminhada – e nem peguei numa pedra sequer — obriga-me a ir dormir mais cedo. Combinamos tomar o pequeno-almoço os três no dia seguinte, às 7h.

Acordo às 8h, sobressaltado, com a sensação de me ter deixado ficar a dormir. Desço ainda estremunhado as escadas até à cozinha. “Ah! Bom dia! Estava a escrever-te um bilhete”, diz-me Allan. “É um croqui para conseguires ir dar a nossa casa, se te apetecer lá passar”, completa Martine. Abraçamo-nos como se abraçam os amigos. E à hora que escrevo este texto, trocámos emails, SMS, combinámos reencontros. Isto num planeta com sete biliões de pessoas.

última

 

Tiago Figueiredo publica também #doladoesquerdodaestrada em tiagofigueiredo.com e instagram.com/tiagofigueiredo

A viagem de dois meses que faz no Reino Unido e Irlanda é apoiada por

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