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Atentados de Paris

Os momentos de terror na redação do Charlie Hebdo

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Atiradores chegaram a entrar no edifício errado, antes de perceberem que era no número 10 da Rua Nicolas-Appert que morava o Charlie Hebdo. Mas sabiam exatamente quando a "cúpula" estaria reunida.

Onde é o Charlie Hebdo?“, perguntaram os dois homens encapuzados que, segundos depois de terem aproveitado a chegada do carteiro, entraram no número 6 da Rua Nicolas-Appert. “Onde é o Charlie Hedbo?”, insistiram, disparando uma bala que furou a porta de vidro de um escritório. Alguém que ali trabalhava levantou-se da cadeira e, no corredor, deparou-se com os dois homens armados com metralhadoras Kalashnikov AK 47. Uma breve troca de olhares chegou para que os atiradores que na quarta-feira mataram 12 pessoas em Paris percebessem que estavam no edifício errado. A redação do Charlie Hebdo era dois prédios abaixo, no número 10, e foi para aí que a dupla rapidamente se dirigiu, mesmo a tempo de encontrar a “cúpula” do semanário satírico reunida para o encontro semanal das manhãs de quarta-feira.

O jornal francês Le Monde faz, esta quinta-feira, o relato mais pormenorizado até agora escrito dos minutos que se seguiram, a partir da descrição feita por sobreviventes e por fontes policiais. Minutos de terror que, segundo os paramédicos, criaram um “cenário de guerra“.

Havia, como sempre, croissants e crouquettes na mesa oval à volta da qual se reuniam o diretor e os vários redatores e ilustradores do Charlie Hebdo. O Le Monde conta que a reunião semanal começara havia menos de uma hora e além de Charb, o diretor, estavam ali os ilustradores Cabu, Wolinski, Tignous, Honoré e Riss, além dos editores Laurent Léger, Fabrice Nicolino e Philippe Lançon. À mesa estavam ainda o economista Bernard Maris e as colunistas Sigolène Vinson e Elsa Cayat, uma psicanalista que colaborava com o jornal. Enquanto a equipa analisava o jornal publicado nessa quarta-feira e lançava as primeiras ideias para a edição seguinte, a dupla de atiradores encontrava, finalmente, a porta correta para o edifício onde morava o Charlie Hebdo desde que as instalações anteriores foram incendiadas.

Foi nesse momento que os atiradores viram chegar ao edifício Corinne Rey, ou Coco, que tinha acabado de ir buscar a filha, criança, da creche e a trazia consigo. Coco foi o bilhete de entrada da dupla de extremistas, que terão ameaçado disparar sobre a criança para obrigar Coco a introduzir o código secreto para abrir a porta blindada que protegia a redação do Charlie Hebdo, habituada a ameaças quotidianas e com razões para levar muitas dessas ameaças a sério. “Eles disseram que queriam subir aos escritórios, portanto introduzi o código secreto”, contou Coco à imprensa, após o atentado. Subiram. Coco diz ter tentado levá-los para o terceiro andar, e não para o segundo, onde fica a redação. Não conseguiu, e enquanto a designer e a sua filha se escondiam por baixo de uma secretária, à entrada, os homens, “de francês perfeito e que diziam ser terroristas da Al Qaeda” dirigiram-se apressadamente para a sala de reuniões.

“Charb?”, gritou um dos atacantes, antes de atirar sobre o diretor do Charlie Hebdo. Um homem que dizia “não ter filhos nem mulher, nem carro nem crédito” e que preferia “morrer de pé do que viver de joelhos”. Os tiros eram de arma automática, vários de cada vez. Um por um, os homens, que traziam a lição estudada, gritaram os nomes de quem sabiam que estaria presente. De quem tiraram a vida, enquanto gritavam: “Vão pagar por terem insultado o Profeta“.

Seis pessoas morreram nesses escassos minutos, conta o Le Monde, a juntar ao diretor, Stéphane Charbonnier (Charb). Morreram também um segurança do jornal e Mustapha Ourrad, um copy argelino que tinha obtido nacionalidade francesa um mês antes. E ainda Michel Renaud, um homem ligado à política parisiense que fora convidado para participar na edição desta semana. Viriam também a morrer dois polícias, um dos quais muçulmano, com quem a dupla se confrontou minutos depois, na rua. Além dos 12 mortos, onze pessoas foram feridas, quatro das quais com gravidade. Philippe Lançon foi alvejado na cara, Riss no ombro, Nicolino na perna. Ferido gravemente ficou também Simon Fieschi, o webmaster do jornal. Ao Le Monde, um dos paramédicos que foram ao local após o incidente diz que encontrou uma “carnificina indescritível”.

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