destaque

Trivela é palavra que existe no dicionário. E descreve o que lhe compete: “Pontapé dado na bola com a parte exterior do pé, para criar um efeito de rotação à bola.” Está certo, certíssimo. Descobrir quem teve a ideia de introduzir o termo no manual que governa sobre a língua portuguesa é difícil, mas a causa até será fácil. Porque houve um rapaz, de Lisboa, que com uma bola à frente se lembrou de entortar o pé direito. Apontá-lo para dentro, ignorar o que a anatomia do corpo manda e chutar na bola com a parte que está virada para fora.

Porque a Ricardo Quaresma fazia-lhe “confusão chutar com a parte de dentro do pé”, quando era miúdo. Lembrou-se da outra parte e começou a treinar, treinar e treinar. Até conseguir cruzar, fintar e rematar com a trivela. Como o fez com o Paços de Ferreira à frente, na primeira parte, quando uma bola foi ter com ele à direita do ataque e, de pronto, o português a ajeitou, inclinou o corpo como só ele faz e disparou uma trivelada que deu um golaço. Um golo à Quaresma no meio do terceiro 5-0 que o FC Porto conseguiu nesta liga.

E num campeonato onde, entre os dois da frente, parece haver uma relação especial — se um perde contra alguém, o outro goleia-o. Um atrasa-se, o outro adianta-se. Quando um fez pouco para ser melhor, o outro faz depois demasiado para provar ser superior. Parece ser esta a regra que, nas últimas duas semanas, manteve nos seis pontos a relação entre quem lidera tudo, e quem lidera todos os outros, os que perseguem. Na jornada anterior os dragões entraram num avião, aterraram na Madeira e de lá saíram derrotados pelo Marítimo que, uma semana antes, fora atropelado (4-0) pelos encarnados.

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Agora o filme repetiu-se, mas ao contrário: o FC Porto abriu as portas de casa, recebeu o Paços de Ferreira e despediu-se com uma chapada de mão aberta (5-0) do adversário que, na jornada passada, batera o Benfica para dar mais emoção ao campeonato. Ambos ganharam, ambos cumpriram a obrigação, ambos marcaram com fartura. Além de Quaresma, que marcou um golo e um golão, na Luz houve um penálti que deu a Jonas o 14.º golo da temporada. Na liga só leva cinco, metade dos que um capitão, careca e barbudo, já somou.

André André voltou a marcar. Leva uma dezena de golos no campeonato e já só está atrás dos 15 de Jackson Martínez, um avançado. Mas no médio tem alguém que, como Quaresma, se parece ter especializado numa coisa: nos penáltis. Este foi o sétimo que o capitão minhoto marcou nesta liga.

desilusão

O Vitória de Guimarães empatou (1-1, contra o Penafiel), já não vence há duas jornadas e está a deixar um Sporting fugir e outro a aproximar-se. A equipa de Rui Vitória ainda está no quarta lugar, descansado entre os que vão tendo um bilhete para irem jogar pela Europa fora, na próxima época. Mas parece estar a abrandar na corrida que, durante várias jornadas, até colou os vimaranenses à luta pela liderança do campeonato que, como disse Rui Vitória, “também é feito destes jogos em que não se ganha e é preciso ir à procura de somar um ponto».

Disso e de grandes jogos. Dos clássicos e dos dérbis. Na próxima jornada haverá mais um, em Alvalade, quando o Sporting receber (no domingo, a partir das 20h) o Benfica. Preferências à parte, nestas partidas querem-se os melhores. E do lado encarnados não estará o melhor guarda-redes que, há uns anos, até era dos melhores da Europa. Júlio César teve muito pouco que fazer na vitória diante do Boavista, mas às tantas agarrou-se à coxa e teve de ser substituído. Para ele, não haverá dérbi.

frase

“Olhar para cima? Quem disse isso? Ah. Bem, nós ainda podemos olhar para a Liga. Outros, por muito que queiram, não podem olhar a Europa.” Eis as palavras que Julen Lopetegui escolheu para ser rápido a dar resposta à pergunta feita por um jornalista, após a vitória contra o Paços de Ferreira. O treinador, mesmo sem o dizendo, talvez se referisse ao Benfica, já eliminado das competições europeias.

A língua não costuma prender o espanhol. Está em Portugal há seis meses e, uma e outra vez, o espanhol parece dizer sempre o pensa, sem rodeios, nem simpatias forçadas por uma qualquer diplomacia desportiva — e até se prepara antes para o fazer desta maneira. Um exemplo? Manuel José, a meio da semana, dissera que Paulo Fonseca, atual técnico do Paços que, na época passada, foi despedido dos dragões ao fim de sete meses, teve “tremoço” no clube. E que Lopetegui, agora, está a ter “camarão”. O espanhol não gostou.

E terá pesquisado e rebobinado números até 1996/1997, quando Manuel José era treinador do Benfica. Pois a resposta que deu a isto assim o denunciou: “Com um tremoço, ou meio tremoço, pagamos o camarão e ainda ficamos com champanhe. Em 1995 o Benfica ficou a 25 pontos atrás e tinha caviar.” Apenas se enganou no ano.

resultados

Sporting de Braga 1-0 Moreirense
Benfica 3-0 Boavista
Nacional da Madeira 2-1 Belenenses
Penafiel 1-1 Vitória de Guimarães
Rio Ave 2-1 Estoril Praia
Académica 1-1 Marítimo
Gil Vicente 1-1 Vitória de Setúbal
Arouca 1-3 Sporting
FC Porto 5-0 Paços de Ferreira

O braço esquerdo de Tobias Figueiredo ainda assustou quando deu motivo para haver penálti e 1-0 para o Arouca. Mas o Sporting, querendo agarra-se aos sete pontos de desvantagem para com eles chegar ao dérbi, marcaria três golos para manter a distância na tabela para a liderança. O Vitória de Setúbal não venceu, mas já vai no quarto jogo sem perder (a contar com Taça da Liga) desde que Domingos Paciência deixou de ser treinador da equipa. Com Bruno Ribeiro vai com uma vitória e um empate no campeonato e os jogadores parecem estar a gostar da mudança.