Com 17,897 publicações entre outubro de 1950 e fevereiro de 2000, a tira Peanuts de Charles M. Schulz é considerada uma das mais importantes e influentes da história e ajudou a consolidar a banda desenhada como género nos jornais de todo o mundo. A história de Charlie Brown, Snoopy e os seus amigos atravessou gerações e foi levada ao cinema, à televisão e ao teatro e continua a ser publicada em alguns jornais. Com tantas reproduções ao longo de 50 anos, poucas pessoas sabem que uma carta enviada a Schulz em 1968 mudou o rumo dos Peanuts para sempre.

É o que conta o site Hubpages sobre a inclusão de Franklin, o primeiro personagem negro da tira. O motivo terá sido um conjunto de cartas enviadas pela professora americana Harriet Glickman ao autor depois da morte de Martin Luther King Jr em 1968.

“Ocorreu-me hoje que a introdução de crianças negras para o grupo de personagens de Schulz poderia acontecer com um mínimo de impacto na história. A delicadeza das crianças … mesmo Lucy, é um cenário perfeito … Tenho certeza de que não se faz mudanças radicais numa instituição tão importante sem uma vaga de choques de sindicatos, políticos, etc. Tens, no entanto, o status e a reputação que pode gerar uma boa receção”, escrever Glickman.

Apesar das palavras de Glickman, Schulz recusou a sugestão, alegando que enfrentaria o mesmo problema que outros cartoonistas da época.

“Gostávamos muito de poder fazer isto, mas temos medo que pareça como se estivéssemos a tratar com condescendência nossos amigos negros”, respondeu.

A professora viu na negativa do autor uma oportunidade e pediu permissão para mostrar a carta de Schulz para os seus amigos para saber como reagiriam sobre a inclusão de um personagem negro nos Peanuts. Em seguida, voltou a enviar-lhe uma carta com algumas conclusões:

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“Nesta época da história, quando a juventude negra necessita de um sentimento de identidade, a inclusão de um personagem negro pode ajudar a naturalizar o diálogo entre brancos e negros”, afirmou.

De acordo com o Hubpages, Schulz pensou nas palavras de Glickman e no dia 1 de julho daquele ano, avisou-lhe que havia dado o primeiro passo e que na semana do dia 29 de julho, ela teria uma surpresa.

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Crédito: Peanuts Worldwide LLC

 

O seu nome era Franklin e apareceu pela primeira vez numa praia, quando Sally, a irmã de Charlie Brown, lançou uma bola em direção ao mar. Franklin devolve-a a Charlie. Sem alarido ou comentários raciais. Franklin e Charlie frequentavam a mesma escola e tinham o basebol em comum.

O aparecimento de Franklin foi notícia em todo o país e gerou diversas reações. Shulz comentou que foi pressionado pela sua editora a mudar de ideia, mas teve de ameaçar abandonar o contrato caso a tira não fosse publicada. Ainda assim, devido às representações negativas de negros nos meios de comunicação naquela época, escolheu deliberadamente não dar a Franklin qualquer traço negativo. “Franklin é equilibrado e pode citar o Antigo Testamento de forma tão eficaz como Linus. Em contraste com os outros personagens, Franklin tem o menor número de angústias e obsessões “, explicou.

Desde então, Franklin tornou-se um personagem recorrente nos Peanuts. A sua última aparição foi em 1999, um ano antes da morte de Schulz. Assim como Glickman desejava, ajudou a popularizar personagens negros na cultura americana.

A primeira carta de Glickman a Schulz foi publicada na íntegra pela página Kottke:

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