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Ópera

Macbeth acorda o perigoso dentro de nós

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Uma relação erótica, violenta e cruel, vai estar em cena no Teatro de São Carlos. O Observador conversou com os dois principais protagonistas.

Macbeth e Lady Macbeth. Àngel Òdena e Elisabete Matos. As duas personagens e os dois protagonistas da ópera Macbeth, de Giuseppe Verdi, que vai subir ao palco do teatro São Carlos, em Lisboa, a partir de sábado e até ao dia 1 de março, para uma série de cinco espetáculos já esgotados. Uma relação erótica, violenta e cruel, que explora o “perigoso” dentro de cada um de nós. O Observador conversou com os dois protagonistas.

Tanto Àngel como Elisabete já interpretaram, pelo menos uma vez, estas personagens. Ambos vão voltar a um sítio familiar. “Vocalmente, sempre que interpretamos mais do que uma vez a mesma personagem, damos mais um passo em frente, procuramos mais um detalhe”, diz Àngel, ao Observador.

Mas mais do que uma revisitação de um corpo, de uma linguagem, é voltar penetrar num estado de espírito espírito. “O nosso espírito é novo, o nosso momento é novo, todos os dias. A nossa sensibilidade altera-se”, diz Elisabete Matos. É a capacidade de ver que a verdade de hoje não será a verdade de amanhã, tal como Callas transmitia em cada uma das suas atuações, explica a solista portuguesa.

Verdi, no século XIX, apropriou-se do enredo da peça teatral de Shakespeare e cristalizou-o numa ópera. Hoje, é uma das óperas mais encenadas em todo o mundo. E tornou-se impossível fugir à relação trágica das duas personagens principais: Macbeth é um fantoche nas mãos da sua Lady.

“É uma personagem muito influenciada pelas mulheres, tal como todos os homens”, diz Àngel, a rir-se. Durante a ópera, assiste-se à exigência constante de Lady Macbeth para o marido “ter de matar, ter de matar, ter de matar”. “Sexo e violência, uma moeda que tem duas caras”, diz Àngel. As duas personagens “têm uma relação muito íntima, mas passada em zonas muito escuras”, explica o solista espanhol. A ânsia do poder, o erótico do poder, une-as num projeto de conquista comum. Mas é o “maquiavelismo” de Lady Macbeth que comanda, sempre. “Ele [Macbeth] , no fundo, não é mais do que um homem um pouco débil”, diz Elisabete.

Para a solista, Lady Macbeth tem um encanto especial. A personalidade torcida da personagem apela aos instintos mais básicos do que é ser humano. “Acho que o ser humano é perverso por natureza. Tem a capacidade de ser bom, de ser magnânimo, de ser sensível, mas também a capacidade de ser cruel. Todos nós temos essa bagagem dentro de nós. Todos nós temos algo de perigoso”, afirma. Interpretar personagens assim dá-lhe “muito prazer”, devido ao contraste que faz com a sua personalidade.

Conforme Lady Macbeth mexe a sua teia da narrativa desejada, a ópera avança. E, no final, é a loucura que dá o golpe decisivo a Lady Macbeth. “O conflito, o controlo dos outros, é um jogo interessante, mas no final do dia o que é que o ser humano o precisa? De tranquilidade. Pode precisar de poder, mas o poder é uma coisa que existe hoje. Amanhã não”, diz Elisabete Matos.

Desde a segunda semana de fevereiro que os bilhetes, para esta ópera, estão esgotados. Os preços variavam entre os 20 e os 50 euros.

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