Em 74 páginas há palavras como idiossincrasia, urdimento, seminal, pungente, mimese e imperscrutável, mas sim, este é um livro para crianças. Uma enciclopédia com graça, ilustrações A3 e dezenas de atividades para pôr em prática, que por isso mesmo não é uma enciclopédia mas sim um “atividário”, ponto alto de uma festa que o Teatro Maria Matos dá em honra de um grande convidado: o teatro.

O equipamento municipal lisboeta lançou o desafio à editora Pato Lógico depois de ver o livro premiado Mar, que inaugurou a coleção de “atividários” em 2012: contar a história do teatro de A a Z — ficou de Absurdo a Zola –numa linguagem acessível aos miúdos e com várias ideias para pôr em prática. O convite reuniu o apoio de outros nove teatros espalhados pelo país e o resultado é apresentado este sábado, 28, no culminar de uma programação que prova que o Dia Mundial do Teatro, que se assinala a 27 de março, não cabe em 24 horas. (Ver a agenda completa no final deste artigo)

Com textos de Ricardo Henriques e ilustrações de André Letria, Teatro percorre movimentos artísticos, autores, estilos, bastidores, peças, o que o público vê mas também o que geralmente está escondido. Tudo o que faz parte do universo do teatro, até os subsídios e as superstições (sim, na letra “m” há uma entrada que corresponde à palavra merda, com uma explicação bastante interessante para a origem da expressão dita aos atores antes de entrarem em cena).

O palco explicado e ilustrado à lupa. © André Letria

O palco explicado e ilustrado à lupa. © André Letria

“A principal dificuldade [na construção deste livro] foi a dimensão do tema, embora nos tenhamos rodeado de pessoas que nos aconselharam na pesquisa”, diz André Letria. “Percebemos que para falar do teatro hoje é preciso ir muito longe, e que há muitas maneiras de ver o teatro e provavelmente todas estão corretas.” Essencial para ajudar a aproximar o tema dos leitores mais novos (mas não só), foi a componente prática que complementa a maioria das entradas. Sugestões de leitura de textos ou visitas a monumentos como o Teatro Romano de Lisboa, mas essencialmente propostas que puxam pela veia criativa dos mais pequenos: transformar os objetos que estão em casa em adereços, escrever “um monólogo bufão a defender o direito das formigas de não serem pisadas pelos seres humanos”, desenhar o cartaz de uma peça, relatar a rotina das manhãs em forma de didascália ou fazer uma caveira em papel maché para ensaiar a famosa cena de Hamlet, entre muitos outros exemplos. E claro, ir ao teatro.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Uma das atividades propostas: fazer adereços a partir de objetos que estão em casa. © André Letria

Uma das atividades propostas: fazer adereços a partir de objetos que estão em casa. © André Letria

Todo o livro foi construído em três tons: branco, preto e laranja. “A ideia principal da escolha das cores tem a ver com a luz e a sombra, que acabam por definir o ambiente que se vive nas salas, não só no palco mas também na plateia”, diz André Letria, que antes deste projeto já tinha tido várias experiências como cenógrafo mas, sem saber, acabou por escolher “uma cor proibida no teatro”: “É a que dá mais problemas à iluminação. Qualquer coisa amarela que se ponha no palco é uma trabalheira iluminar”, diz o ilustrador.

Para ficar a saber isto e muito mais, agarre na família e vá ao Teatro Maria Matos. À sua espera tem estas propostas:

Sexta, 27, às 18h30: “Visitas ao Teatro” em que as famílias podem espreitar para dentro de cena.
Sábado, 28, das 14h00 às 16h00: O que sei sobre o teatro, espetáculo em que cinco atores partilham histórias de bastidores, experiências pessoais, factos históricos mas também anedotas. Não há plateia e toda a gente pode subir ao palco, decorado como se fosse uma casa (não faltam o café, o chá e as bolachas).
Sábado, 28, às 15h00:
Lançamento do Atividário da Pato Lógico. No foyer uma exposição permite ver várias ilustrações e excertos retirados do livro.
Sábado, 28, das 14h00 às 18h00:
“Uma Parede do Teu Tamanho”, oficina da Pato Lógico em que é pedido às famílias que ajudem a construir uma nova fachada para o Maria Matos, intervindo sobre uma cobertura que vai estar colocada na parede.
Sábado, 28, das 14h00 às 18h00: “Personagens Transparentes”, oficina de Leonor Pego e de Vera Sales Baptista para criar personagens e preencher o vidro do foyer do teatro.
Sábado, 28, às 16h30: Reposição do espetáculo de Joana Providência, Histórias Suspensas.