Crítica de Livros

Teresa Veiga: Gente Melancolicamente Louca

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Uma vez ou duas por década, alguém se interroga: «Que é feito de Teresa Veiga?» e alguém responde, com razão, que ela é a grande escritora portuguesa de quem quase ninguém ouviu falar.

Pintura mural com o tema de American Gothic, de Grant Wood (EUA).

AFP/Getty Images

Autor
  • Humberto Brito

Título: Gente Melancolicamente Louca
Autor: Teresa Veiga
Editora: Tinta da China
Páginas: 304
Preço: 17,90€

 

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Numa tarde de Novembro de 2009, em Seide, enquanto um vereador se batia por Camilo, pela literatura portuguesa e pela autarquia de Famalicão, a mulher a quem pertence o pseudónimo «Teresa Veiga» deixou-se simpaticamente fotografar. (Recebia, nessa tarde, pela segunda vez, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, por Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín, prémio que recebera em 1992 por História da Bela Fria). Digo «mulher» visto ter circulado em tempos (ou seja, nos anos noventa) o boato, algo sexista mas tudo menos infame para qualquer um dos visados, de o pseudónimo pertencer ao nosso melhor camiliano. De olhos pequenos e rosto de ave, de facto, rara avis, impávida quanto à invisibilidade do seu trajecto, ou certa da eloquência dessa invisibilidade, não parece, no entanto, nessas duas ou três fotografias inúteis, ser invisível. Muito menos uma mulher de sessenta e quatro anos. Teresa Veiga parecia uns dez anos mais jovem.

A propósito, o seu biografema (em Gente Melancolicamente Louca, Tinta-da-China, 2015: 301) é o mais elegante alguma vez produzido na literatura portuguesa:

 «Teresa Veiga nasceu em Lisboa em 1945. Licenciada em Direito e mais tarde em Literaturas Românicas, exerceu por um breve período de tempo a actividade de conservadora do Registo Civil»

— apenas isto, seguido de uma (curta) lista de obras:

«Jacobo e Outras Histórias (1980 ), O Último Amante (1990), História da Bela Fria (1992), A Paz Doméstica (1999), As Enganadas (2003) e Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín (2008).»

Fazendo de «Teresa Veiga» outra personagem sua, uma daquelas mulheres a intensidade de cuja vida interior e a particularidade de cuja existência moral pareceriam, sob certa descrição, condenadas a passar sem serem notadas e que os seus livros tratam não como um objecto de salvação mas como passatempo da inteligência e, por vezes, da piedade, a autora julga ser de nenhuma importância considerarmos a sua história pessoal. Artefacto com que não desperdiça palavras, Teresa Veiga também não dissipou energia em distracções, tendo publicado (escrito?) poucos, mas sempre bons, mesmo magníficos, livros. Uma vez ou duas por década, alguém se interroga: «Que é feito de Teresa Veiga?» e alguém responde, com razão, que ela é a grande escritora portuguesa de quem quase ninguém ouviu falar. E quando já não se espera aparece outro livro. Reunindo contos inéditos (os últimos quatro) e contos já publicados, Gente Melancolicamente Louca é o seu sétimo livro em trinta e cinco anos e é provável que volte a ser premiado pelos críticos e esquecido um dia pelas livrarias, o que será uma pena. Pode ser então que Teresa Veiga volte agora a deixar-se fotografar, aos setenta anos.

Um dos contos deste volume, «O Dia em que Sherlock Holmes foi salvo pelo Capitão Fracasse», sugere um sorriso irónico acerca daquele antigo boato. Watson, na esperança de salvar Holmes do estado de letargia em que o encontra (por uma ressaca de cocaína), lê-lhe uma carta de uma tal «Adele», pedindo-lhe ajuda — um conto dentro do conto, como sucede noutros exemplos do livro. A carta é assinada por uma «Miss Adele Bayard» (101), claramente pseudónimo de um homem, garante Holmes depois de a escutar. «Como não pretendo que sofra mais tempo, Watson, quero sossegá-lo e dizer-lhe que essa jovem não corre nenhum perigo, pela simples razão de que quem a escreveu se limitou a divertir-se e a contar uma história» (99):

 «— Essa carta vem remetida de New Forest, óptimo local para uns passeios de fim-de-semana neste começo de Outono ainda convidativo. O autor vive em Londres, necessariamente, pois aqui reside todo o meu círculo de amigos. Foi meu companheiro de colégio, fuma e bebe comigo e, sabendo deste meu infeliz problema, lembrou-se desta engenhosa brincadeira, com pleno êxito, devo confessar-lhe, pois há mais de um mês que não me divertia tanto.

— Quer dizer que forjou esta carta inventando o conteúdo de fio a pavio e contou com a ajuda de uma cúmplice para a escrever em letra bem feminina?»

— Exactamente, excepto que não precisou da ajuda de ninguém, pois no colégio um dos nossos passatempos era imitar todo o tipo de caligrafia.

«— Admitindo que tenha razão,» questiona-se Watson, «o que é que esta carta tem de inverosímil que a revela logo como uma fraude? É certo que eu próprio já lhe estou a achar um sabor a falso».

Antes de voltarmos a Watson, uma das relações entre si dos contos deste livro, além de as suas personagens serem, quase sem excepção, como indica o título, gente melancolicamente louca, é a de essa gente ser posta, frequentemente, em situações de apreciação literária, ou em situações análogas, ou que poderiam ser interpretadas como análogas. A tese subjacente de existir uma relação formal entre ser literato e ser-se gente melancolicamente louca («formal» no sentido em que a forma das suas acções e das suas vidas parece ser determinada por, ou relacionar-se com, precedentes e percepções literárias, por assim dizer), não sendo defendida por Teresa Veiga, é-nos dada a considerar de conto para conto, quer a respeito dos seus protagonistas (tendencialmente mulheres, mesmo nos casos em que homens partilham o protagonismo), quer a respeito das noções de normalidade que estruturam o ambiente das suas vidas. O modo como as personagens de Teresa Veiga lêem histórias (e, analogamente, o modo como interpretam a vida) parece dizer o género de pessoa que são, embora dizer «género de pessoa» seja talvez ir longe de mais.

Apesar de, como a tal «Adele Bayard» — traída, na opinião habitualmente fiável de Sherlock Holmes, pela conspicuidade dos precedentes literários da sua carta («Rocambolesco, Watson, traz-nos imediatamente à memória as aventuras de Rocambole, de Ponson do Terrail, a quem a nossa jovem vai buscar as personagens de Armand e Andréa», «Antes já nos remetera Gautier» e «Há ainda duas citações de Dumas, de um pequeno romance que muito prezo», etc.) — apesar de as personagens de Teresa Veiga aparentarem semelhanças com outras personagens ficcionais: pela boca de Holmes, a autora troça com a suposição de largo curso de a tarefa da crítica literária ser a de identificar tais semelhanças, como aliás fizera em «História Triste com Final Alegre», uma alegoria da leitura e da crítica como «comércio de antiques» (49), cujos artigos de interesse se distinguem em relação à «antiguidade certificada pelas manchas de humidade», 45); apesar disso, Teresa Veiga procura capturar as personagens na sua particularidade, sendo essa particularidade, e não o «género de pessoa» que são, aquilo que o modo como essas personagens lêem (e não tanto aquilo que lêem) ajuda a muitas vezes a iluminar. O que não é motivo de espanto, já que a maneira como se lê é a maneira como se pensa e a maneira como se sente, a maneira como se é.

Abreviadamente, Isabela — que «constituíra … uma biblioteca de centenas de volumes onde se habituara a procurar alívio contra o tédio. O tédio, precisamente, ensinara-a a despachar uma obra … em menos de duas horas, pois só lia as passagens que lhe interessavam e ninguém conseguiria convencê-la de que não captara o que o livro tinha de mais interessante» («Isabela», 94) — para dar um primeiro exemplo, troca de parceiro como quem troca de livro. A adolescente Manuela, «Consciente de que nunca seria a praça-forte cobiçada pelos homens cuja imaginação se esgota em catalogar as mulheres com meia dúzia de atractivos …. decidiu que os seus longos e aborrecidos dias seriam compensados por noites frenéticas e exultantes ou pelo menos tão interessantes como um romance psicológico» («A Irmã Santo Suspiro», 66), passando as noites a ler. (O sexo e a leitura rivalizam nestas histórias como elementos de evasão.)

Natacha [spoiler alert] a cativa educa-se a si mesma a partir da leitura de jornais e revistas que lhe eram trazidos pelo seu captor: «comecei … a fazer os meus próprios recortes de celebridades do mundo do espectáculo … que, talvez por terem o mundo a seus pés enquanto eu andava de rojos, exerciam sobre mim uma atracção que doutro modo seria inexplicável. A leitura dos jornais, além de ter sido neles que fiz a minha vida social à falta de contactos com pessoas reais, deu-me também muita informação sobre variados domínios» (etc.), contribuindo para «a minha educação de uma forma em que se esbatiam as fronteiras entre trabalho e entretenimento» («Natacha», 110-111). E existe depois uma série de exemplos por todo o livro em que a imaginação literária se infiltra (quase sempre desgraçadamente) na percepção de si mesmas e da situação de terceiros pelas personagens de Teresa Veiga: na expressão que dá título ao oitavo conto, exemplos de «Avaliações».

Tão importante, porém, como a maneira como se lê é, sem dúvida, nestas histórias, a maneira como se conta uma história e a consideração da razão pela qual se conta essa história. Tematizando o modo como, no seu melhor, a forma do conto procura uma resposta mais ou menos espantosa e meticulosa o suficiente a uma sequência de perguntas a que não se sabe responder, — e que, no fundo, não têm resposta antes de serem feitas — tome-se o caso de «Objector de Consciência», um conto esboço-de-conto. Tendo a primeira parte (pp. 9-19) sido já publicada em 1997 (Colóquio Letras, nº 143-144, pp. 99-106), a sua continuação neste volume (pp. 20-41) explora, por um lado, uma conclusão concebível para a sequência de perguntas explicitada na primeira parte a respeito da vida das suas personagens, sob a forma de indicações do autor a si mesmo, usadas como dispositivo narrativo (a par de um recurso, aliás primoroso, a más-línguas, boatos, opiniões de terceiros sobre Dinora: conjecturas de vizinhos, amigos da família, etc. — o género de mobília humana sufocante de cidades de província que, em muitas histórias de Teresa Veiga, tem a função de «elemento aglutinador», 16).

Por outro lado, apetece dizer, de passagem, que «Objector de Consciência» sugere uma certa afeição da autora pelas personagens que deixou para trás, como se se interrogasse, tantos anos depois, «O que será feito de Dinora?» («Dinora» parece, a propósito, ser um nome dilecto de Teresa Veiga, sendo também o nome da protagonista do romance Paz Doméstica, Cotovia: 1999, personagem cuja vida — por sinal igualmente toldada precocemente pelo contacto com a literatura por intermédio de uma professora de francês — entraria com distinção neste catálogo de gente melancolicamente louca.) E de facto a pergunta «O que será feito de Dinora?» — e quem diz Dinora diz Ester, Cibele, Eunice, Kitty, Natasha, Isabela, Adele, etc. — é, em última análise, a pergunta genérica que orienta todas as histórias de Teresa Veiga. Não virá mal ao mundo se concedermos a Holmes este ponto: pode ser que, escrevendo como quem procura saber de conhecidos e de amigos de amigos, Veiga não procure mais do que «divertir-se e … contar uma história» (99). (Diversão que por vezes inclui a simples, mas nada simples, nem jamais gratuita, demonstração de músculo linguístico, como a extraordinária sequência de frases muito longas, em «A Irmã Santo Suspiro», cujo mínimo de vírgulas é, ora suspiro, ora de tirar a respiração.)

Mas, no que toca à importância da maneira como se conta uma história para a caracterização da particularidade das mulheres que a contam (o peso está todo nas mulheres), a verdadeira tour de force aparece no monstruoso «A Casa Abandonada» (publicado originalmente na Granta 3). Somos aliás avisados disso mesmo por Teresa Veiga. «Calem-se, meninas, e ouçam-me com atenção. Aliás, quem não quiser ouvir tape os ouvidos ou saia desta sala mas sem fazer barulho por favor.» (129) Dirigindo-se a uma plateia de órfãs, uma das quais seria eleita no dia seguinte para ir viver na casa da sua benfeitora, segue-se, pela directora do orfanato, uma narração cheia de considerações puramente literárias acerca de como deveriam as órfãs comportar-se para serem possivelmente escolhidas, narração no decurso da qual se revela de índole tortuosa e ferida de despeito a falsa tentativa de lhes salvaguardar a igualdade de oportunidades que, pelos seus dotes naturais, lhes estaria vedada — tornando as órfãs, por assim dizer, personagens da sua própria neurose (o que é a marca do grande autor e o mesmo que fizera, por actos e omissões, à própria benfeitora do orfanato); e recusando-lhes, a todas, por puro despeito, a possibilidade de salvação. Mais do que limitar-se a «divertir-se e a contar uma história» (99), Teresa Veiga parece, neste caso, ensaiar um argumento contra a ideia de predestinação.

É ainda de particular interesse a maneira como as histórias contadas por personagens são contadas tende a ser objecto de avaliação por parte de homens; e que estes tendem a determinar o mérito dessas histórias por simples comparação consigo mesmos. (E.g. ver uma vez mais o excerto da conversa entre Holmes e Watson, acima.) «— Menina Susana … em primeiro lugar quero dizer-lhe sem subterfúgios que reconheço muitas qualidades no seu trabalho», comenta um chefe de redacção referindo-se à história de Natacha, escrita por uma estagiária para o Ecos do Mondego (outro conto dentro do conto):

 «Faz-me lembrar eu próprio, nos alvores da carreira … Havia então em mim uma ânsia, um frenesim, um instinto assassino de abocanhar o mundo que não conhecia entraves nem limitações de espécie nenhuma. Digamos que tudo o que vinha à rede era peixe. Ocorre-me que a menina, repare que lhe estou a fazer um elogio, sofre dessa bulimia. Mas há sempre um reverso da medalha. A pedra aplanada pela erosão em que se senta depois de sacudir as poeiras tem por baixo uma crosta de terriça em que fervilham as larvas. Ou seja, a menina pega no drama de Natasha, apercebe-se das potencialidades da história e vá de dar asas à imaginação como se por baixo não estivessem conflitos humanos muito graves. … A sua Coimbra, menina Susana, tresanda a cadáver. … A menina Susana, muito compreensivelmente, não quis chafurdar em águas turvas e, faço-lhe justiça, provavelmente nem tem experiência de vida para tal.» (125-126)

Escusado será dizer que o chefe de redacção do Ecos do Mondego tem destes «conflitos humanos muito graves» uma noção Ecos do Mondego do mundo. Tal como Holmes e Watson têm, descontando os graus de argúcia respectivos, uma noção Baker Street do mundo. O que nos traz de volta às súbitas dúvidas de Watson a respeito da narração de acontecimentos inquietantes pela «jovem Adele» («eu próprio já lhe estou a achar um sabor a falso», 100). Verdade seja dita que as palavras dirigidas a Holmes se parecem com uma descrição algo Baker Street da natureza e finalidade das próprias histórias de Teresa Veiga («Caro Mr. Holmes … acredito que a sua inteligência possa exercer-se com prazer sobre tragédias domésticas de contornos inquietantes», 87); e que as queixas de Watson não andam muito longe das generalidades de jornalismo literário com que o chefe de redacção do Ecos do Mondego esperava alargar as capacidades literárias da tal menina Susana (não será aliás por acaso que os contos, de estrutura idêntica, são publicados lado a lado):

 «Tanta virtude e tanta maldade, tanta miséria, tanta resignação, tanta beleza, tanta infelicidade e no fim uma fortuna caída dos céus… Há efectivamente um excesso melodramático, um acumular de tensões com o seu quê de inexplicável. Enfim…» (100)

«— Acha então inteiramente impossível que uma mulher tivesse lido as obras referidas na carta, ainda que não pareçam o tipo de livros que se esperaria encontrar nas mãos de uma jovem educada no Real Colégio Ursulino? — Esquece-se, meu caro Watson, de que essa mulher mostra um grande enfado em relação às matérias ministradas no colégio, excepto os trabalhos manuais, e nunca se mostra tão segura de si quando se gaba das suas prendas femininas», responde Holmes por fim, trazendo à memória aquele velho boato acerca da verdadeira identidade por detrás do pseudónimo «Teresa Veiga» — como se essa identidade fizesse a mais pequena diferença em relação a uma obra como a sua; como se fosse possível descrever qualquer relação relevante entre género e tipos de referências literárias; como se houvesse um tipo masculino de inteligência e imaginação a qual é inconcebível da parte de uma mulher; como se fosse claro o significado de «prendas femininas»; como se o género se revelasse no estilo; e, enfim, como se a crítica se devesse reduzir, como muitas vezes sucede, a simples tarefas de despistagem. «Dito isto, menina Susana», conclui o mesmo chefe de redacção, «[será] que daqui a trinta anos ainda é capaz de escrever coisas como o beijo do sol e o sopro cálido do vento?» (127) Este grande livro mostra que, mais de trinta anos depois, Teresa Veiga não perdeu uma só qualidade.

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