Nostalgia

Quando a televisão mandava as crianças fazer oó

6.030

No tempo em que só havia uma estação de televisão, as crianças sabiam que estava na hora da caminha depois do Vitinho, do Topo Gigio ou dos Meninos Rabinos. Veja até onde vai a sua memória.

Antes do Vitinho, era o Topo Gigio quem mandava as crianças dormir

DR

Autor
  • Tiago Tavares
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Desde os anos ’60 até ao final do século passado, a RTP apostou com frequência na exibição de uma canção infantil com animação ao início do serão, geralmente a seguir ao Telejornal, para mandar os meninos para a cama. Embora a maioria das crianças goste sempre de adiar o momento de se deitar, a verdade é que estes “bonecos” nos ajudavam a fazê-lo muito mais bem-dispostos. Não faltava a lembrança para lavar os dentes e, na fase pré-Vitinho, para rezar a Jesus. Recorde connosco as músicas que nos embalavam para o “chichi-cama”.

Vamos dormir (1965)

O registo mais antigo de vídeo que encontrámos, com a ajuda do blogue Desenhos Animados, data de 1965. Este pequeno filme de animação foi o primeiro separador a passar no início da programação noturna, para indicar que estava na hora de as crianças irem para a cama. A realização era de Mário Neves e Ricardo Neto, a música de Eugénio Pepe e a letra do poeta Alexandre O’Neill.

Vamos dormir, vamos dormir
Bons sonhos para vocês, meninos como nós.
Vamos dormir, vamos dormir
Boa noite aos pais, aos irmãos e aos avós.
Vamos dormir, vamos dormir
Bons sonhos para vocês, meninos como nós.
Vamos dormir, vamos dormir
E amanhã veremos a TV como vocês.

São horas, meninos (1971)

No início da década de 1970, quem mandava os meninos para a cama era a “Família Pituxa”, composta pelos meninos rabinos João, Joana, Rita, Zé e Pelé, acompanhados pelo cão Pico-Pico e pelo papagaio Seranico. A animação era de Artur Correia, a letra de Maria João Duarte (mãe de Pedro Rolo Duarte) e a música de Eugénio Pepe.

São horas meninos, Meninos Rabinos,
São horas, são horas da deita.
Atenção João, atenção Joana
P´rá cama que o sono já espreita,

O sono já canta e a Rita dormita
E o Zé faz banzé
Ladra o Pico-Pico, pula o Seranico,
Lá vai o Pelé

A bola rebola
Já dorme coitada
A pasta já está arrumada
Meninos Rabinos, mas muito asseados,
A cara e os dentes lavados

Ala Pico-Pico, foge Seranico!
E tudo a rezar a Jesus
São horas meninos, fica o Seranico
E é ele quem apaga a luz

Topo Gigio (1981)

No início dos anos 80, o simpático rato, nascido em Itália em 1969, estava no auge da popularidade em Portugal, com um programa nas tardes de domingo, onde contracenava com o pianista Rui Guedes. Tal como em vários países da América Latina, aproveitou-se esta simpática personagem para criar uma música para mandar as crianças para a cama. Mas, enquanto a versão em espanhol e a versão brasileira partilhavam um tema comum (reinventado por cá por um canal infantil por cabo), em Portugal optou-se por uma canção própria, com autoria de José Cid e Rui Guedes. A voz do Topo Gigio era do ator António Semedo.

Todos os meninos que são teus amigos estudaram as lições.
Já estão lavadinhos, deitados na cama, rezaram as orações.
Já todas as estrelas que há no céu
Abriram a luz que Deus lhes deu.
O Popeye, o Donald, o meu primo Mickey, a Minnie e o Peter Pan,
Já foram para cama, já.
Um beijinho ao pai, um beijinho à mãe, beijinhos para ti também.

Vitinho (1986-1997)

O Vitinho é “a” referência quando pensamos numa música deste género. O simpático menino foi presença diária nos serões da RTP durante uma década e a expressão “ir para a cama com o Vitinho” era comum. Ainda hoje, é um dos termos mais pesquisados no YouTube, em Portugal.

Na verdade, o Vitinho era a cara de uma marca de produtos lácteos para crianças, que apostou forte neste espaço de horário nobre e lançou vários produtos alusivos, incluindo uma almofada. O seu autor, José Maria Pimentel, fez quatro animações para acompanhar diferentes canções, sempre com música de José Calvário e letra de José Mendes Martins.

A primeira versão, cantada por Isabel Campelo, foi a que mais ficou na memória de todos:

Está na hora da caminha, vamos lá dormir
Vê lá fora as estrelas que dormem a sorrir
E amanhã cedinho, bem cedinho, tu vais ver
Acordas mais forte e mais esperto, isso é crescer
Boa noite!
[Mãe: Boa noite, dorme bem!
Pai: Vá lá, Vitinho, toca a dormir!
Mãe: Até amanhã! Um beijinho.]
Sonhos lindos, adeus e até amanhã!

A segunda versão estreou em 1988, cantada por Dulce Neves e pelo Coro Infantil da TAP. Infelizmente, o vídeo não se encontra no YouTube. A letra era assim:

Que é do sol
que ainda agora se via lá no céu
amou foi-se embora
por certo adormeceu
lá ao longe
tomando de mansinho
vem a noite a cantar
para embalar o teu soninho.

Tu aí, vem também
são horas de ir deitar
vá sorri sabes bem
dormir é ir sonhar.
E é tão bom
ir p’ra cama a pensar que amanhã
que amanhã
já está perto vai chegar.

Tanto sono
vou dormir,
Até amanhã

A terceira versão, de 1991, é cantada por Eugénia Melo e Castro:

[Vitinho: Oh! Já?!]
Já… vê tu, que eu nem pela noite dei
O tempo nunca chega, eu sei
Para rir, correr, saltar, brincar, viver
Vá, dorme, e agora a noite é um instantinho,
O sol, a serra, as flore, o mar.
Amanhã, muito cedinho,
Batem-te a porta para te acordar.

A quarta e última versão do Vitinho, de 1992, era cantada por Paulo de Carvalho:

Quando a lua acordar
coisas que a vida tem
vai-se o mundo deitar
e tu também.

Ai quem me dera ir
dentro do sol morar
nunca ter de ir dormir
e só brincar.

E milhões de aventuras viver
com as estrelas no céu a correr
e à terra apenas voltar
se eu quiser.

Quando a lua acordar, tu vais adormecer

A 21 de fevereiro de 2011, na comemoração dos 25 anos da sua criação, o Vitinho foi protagonista de um dos primeiros doodles feitos para Portugal pela Google.

O Vitinho teve direito a "doodle" quando fez 25 anos, a 2 de fevereiro de 2011

O Vitinho teve direito a “doodle” quando fez 25 anos, a 2 de fevereiro de 2011.

Se também tem saudades do Vitinho, temos boas notícias: José Maria Pimentel, o autor, criou recentemente o Clube Vitinho no Facebook e promete para breve o lançamento d’O Grande Livro do Vitinho, onde vai contar «a epopeia que o tornou num fenómeno».

Boa Noite (1990)

A época do Vitinho foi brevemente interrompida em 1990, por uma animação protagonizada pelo Ouriço e os seus amigos animais, com realização de Artur Correia e Ricardo Neto, e música de Eugénia Melo e Castro, que é também a intérprete.

Agora que o dia já se vai embora
e em passinhos leves a noite aparece,
todo o mundo sabe que chegou a hora,
de certa magia em que tudo acontece.

Agora que o dia quer ser amanhã,
e em terra de estrelas a noite se deita,
vamos descansar até ser manhã,
que o sono é tão bom quando o sono espreita.

Os Patinhos (1998-2005)

Os leitores mais novos do Observador talvez só se lembrem desta animação, a última que passou na RTP1 a assinalar a hora de ir para a cama. Estreou na RTP1 em 1998, com autoria de Rui Cardoso e música de Paulo Curado, que adaptou um tema popular. Uma vez mais, revelou-se um verdadeiro sucesso, com o CD a vender mais de 30 mil cópias e a imagem dos patinhos a ser posta a render em DVDs de animação e produtos de merchandising. Aqui para nós, aquele gag final em que o patinho xilofonista é puxado pelo pescoço por uma bengala talvez já não passasse hoje pelo filtro do politicamente correto

Todos os patinhos acabam de brincar
Os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar

É que a esta hora é hora de ir dormir
Mas ainda há tempo p´ra uma história ouvir

Pais, mães ou avós à cama lhes vão dar
Um beijo de boa noite e a luz apagar

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