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E-primatur, a editora que nasceu dentro das redes sociais

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"Imprima-se" — não os bestsellers da moda p´rá carneirada, mas os livros de sonho daqueles para quem ler é o verdadeiro sinónimo de "subir na vida". Eis a novíssima E-primatur.

Getty Images

Autor
  • Joana Emídio Marques

Não é piada. Em Portugal gasta-se muito mais dinheiro em cápsulas de Nespresso do que em livros. Portanto, não é uma questão de preço. É uma questão de escolha. Somos um país que gosta de ostentar carros, Bimbys, garrafas de vinho caro e redondos copos de gin. Não somos um país que se orgulhe de ostentar conhecimento.

É por isso que merece ser anunciado, com pompa e circunstância, que em setembro vamos ter nas livrarias Hermann Ungar e, em outubro, Strindberg. Toquem os sinos a rebate, porque vamos poder ler em português o grande mestre sueco em O Salão Vermelho, e o livro que os nazis quase fizeram desaparecer do mapa, Os Mutilados. Qualquer um deles inédito em Portugal. E tudo isto graças à E-Primatur, uma das primeiras editoras no nosso país a funcionar em regime de crowdpublishing (que é a variante do crowdfunding aplicada à edição de livros).

Durante a inquisição, os livros que passavam o crivo da Igreja e podiam ser publicados levavam um carimbo onde se lia em latim “Imprimatur“, ou seja, “Imprima-se”. Foi este o nome escolhido por Hugo Xavier, Pedro Bernardo e João Reis, os responsáveis por este projecto pioneiro. Todos eles têm passagem por editoras reconhecidas, como a Cavalo de Ferro, a Ulisseia e as Edições 70.

e-primatur

Logótipo da chancela E-primatur

Candidatos a escritores e a poetas: não vale a pena fazerem saltar os vossos inéditos da gaveta, que a E-primatur quer editar sobretudo clássicos da literatura. Aquelas obras que nunca chegaram a Portugal ou que chegaram apenas em traduções muito fracas. Até porque ninguém será um grande escritor ou um grande poeta se não ler primeiro os outros, os grandes, aqueles cujas obras sobreviveram ao tempo e ultrapassaram as fronteiras do grupo de amigos, precisamente porque são isso mesmo: obras e não delírios umbiguistas para exibir no Facebook.

Hugo Xavier é muito claro neste ponto: “Não somos uma editora de inéditos, a não ser que se trate de um projeto muito, mas mesmo muito original.” E dá como exemplo o álbum de fotografias Portugal Visto do Ar, que deverá sair em Novembro, e é o primeiro registo do território português feito de uma avioneta a baixa altitude.

No primeiro ano a editora vai escolher os livros e fazer edições pequenas. Por cada livro a lançar, os leitores podem fazer uma doação, cujo valor está estipulado no site. A ideia é explorar as redes sociais como forma de passar a palavra. “As pessoas compram mais por influência dos amigos do que pela crítica literária nos media. O que faz o sucesso de um livro não são as estrelas que os jornalistas dão, é o passa palavra. E esse passa palavra acontece hoje nas redes sociais, no Facebook, no Twitter…”, explica Hugo Xavier.

No segundo ano, contudo, a editora já quer ter o crowdpublishing a funcionar a sério. “Apresentaremos as propostas de edição com seis meses de antecedência e as pessoas farão as doações. Só editaremos os livros que as pessoas financiarem e só aceitaremos financiamento suficiente para a produção do livro. Ou seja, não há ganhos extra. Não vamos ganhar dinheiro com este projeto. Queremos apenas publicar os livros que muita gente quer ler mas que as editoras continuam a dizer não haver mercado para eles. Pois não, não há mercado. Há pessoas”, ironiza o editor.

Strindberg capa

Considerado o primeiro romance moderno da literatura sueca, “O Salão Vermelho” foi a obra que consagrou Strindberg e que o projectou internacionalmente como nome maior das letras escandinavas

A E-primatur está também disposta a editar obras que surjam da vontade de um grupo alargado de leitores. “Imagine que há 300 pessoas que querem ter um livro que não existe cá e que estão dispostas a pagar a sua tradução e edição. Façam-nos chegar o projecto e nós daremos o know-how para se fazer o livro. Esta edição será realizada pela vertente da editora que se chamará Bookbuilders, e que está vocacionada para realizar projetos de edição individuais ou colectivos.” Porém, explica Hugo Xavier, “isto não significa que iremos aceitar publicar qualquer coisa, como se faz nas vanity-press (Chiado Editora, etc.).”

Com as grandes editoras a viverem, segundo o editor, “dentro de uma bolha especulativa em que se edita cada vez mais para superar o facto de se vender cada vez menos”, levando “o lixo literário a aumentar e a fazer com que os leitores se afastem”, a E-primatur reuniu uma espécie de conselho de sábios, aos quais chama “padrinhos”. Estes padrinhos (cujos nomes podem ser consultados no aqui) têm como função aconselhar e colaborar na escolha dos títulos. São pessoas ligadas às várias áreas da cultura que aceitaram ligar-se a este projeto por um ato cívico.

Os Mutilados, de Hermann Ungar, escritor judeu de língua alemã, oriundo da Moravia. Livro a sair em Setembro

“Os Mutilados”, de Hermann Ungar, escritor judeu de língua alemã, oriundo da Moravia. O livro irá sair em Setembro

“O espaço público gerador de uma opinião pública está hoje a renascer nas redes sociais”, defende Hugo Xavier. Isso está a provocar mudanças também na função dos editores de livros. “O nosso papel já não é descobrir bestsellers e enriquecer. É encontrar os livros certos para um grupo alargado de pessoas. É encontrar livros que ainda sejam artisticamente válidos e eticamente consistentes, que nos salvem do embotamento que que vivemos devido ao excesso de informação.”

Quanto vale um livro?

Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes. Os maiores bestsellers raramente ultrapassam os 250 mil livros. Estes dois números mostram bem como a leitura ainda é uma prática de nicho. Muito mais de metade da população portuguesa não lê nada. Atravessa a vida sem ler um livro.

Num tempo em que o valor de algo é somente aquilo que é convertível em dinheiro, quanto vale um livro? Porque é que há ainda homens e mulheres que embarcam nessa aventura sem Ítaca à vista que é abrir uma editora?

Hugo Xavier explica que “a E-primatur não é um projeto para ganhar dinheiro”. É, em primeiro lugar, um hobby — daí a importância da participação dos leitores em todo o processo. Tudo será escolhido pelos financiadores, desde o design da capa ao tipo de papel. A divulgação também ficará a cargo destes e dos padrinhos, através das redes sociais.

voss

Patrick White (1912-1990) foi um escritor australiano nascido em Inglaterra, sendo reconhecido como um dos mais importantes escritores de língua inglesa do século XX. O seu livro irá sair em 2016.

O valor comercial do livro será monitorizado pelos financiadores e o seu valor imaterial será tanto maior quanto maior for o empenho de cada um.

Os Mutilados, de Hermann Ungar, é uma pequena obra-prima escrita em 1929, recuperada nos anos 80 e que nunca teve edição portuguesa, apesar de ser uma obra excêntrica, com parentescos kafkianos. É um retrato do mundo que estava a emergir nos alvores do século XX, e que a literatura de língua alemã expôs como ninguém (basta lembrarmos Robert Musil, Hermann Broch, Thomas Mann…) e promete ser um dos acontecimentos da rentrée literária. Sobre ele, Stefan Sweig disse: “É um livro maravilhoso e horrível, cativante e repulsivo, inesquecível embora se ficasse contente por poder esquecê-lo.” Até hoje, a única obra de Ungar está na &etc, uma novela chamada Meninos Assassinos.

O catálogo da E-Primatur é extraordinariamente apelativo. Para além de Ungar e  Strindberg, haverá o enorme Joseph Roth, Selma Lagerlöf, Gogol, Daniel Defoe, Montesquieu. Todos com obras inéditas e/ou esgotadas há muito e em novas traduções a partir das línguas originais.

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