Crise dos Refugiados

Aylan, o náufrago que a Europa não conseguiu salvar

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Aylan tinha três anos. Galip, o irmão, cinco. Eles e a mãe morreram naquela praia turca. Tinham vindo da Síria, estavam na Turquia e sonhavam com o Canadá que lhe recusou asilo. Só o pai sobreviveu.

Uma criança é um mundo inteiro, diz o El País. Se assim for, o mundo inteiro deu à costa já cadáver quarta-feira numa praia turca. As imagens do corpo de um menino deitado sobre a areia de uma praia turca, sem vida, percorreram os quatro cantos do globo. “A Europa não o pôde salvar”, “O fillho de alguém”, titularam os jornais.

A criança da praia, como o espanhol El Mundo o chamou, tinha um nome e uma idade. Uma identidade. Aylan Kurdi tinha três anos e era o irmão mais novo de Galip, de cinco. O filho de Rihan e de Abdullah. A família viajava junta e atravessou vários quilómetros através da Turquia até chegar o momento de cruzar o mar Egeu rumo à ilha grega de Kos — a rota entre Bodrum e Kós é uma das mais curtas a ligar a Turquia às ilhas gregas, totalizando um percurso de cerca de 21 quilómetros.

O objetivo era alcançar a Europa. Deixar o país que o viu nascer e que o condenou a conviver com um conflito armado — atirar para trás das costas a Síria e os destroços causados pelo autoproclamado Estado Islâmico. Fugir da guerra e agarrar a vida noutro local, na segurança do solo de países da União Europeia, uma espécie de terra prometida à imagem e semelhança do que um dia foram os Estados Unidos para quem tinha os bolsos fundos de esperança e vazios de dinheiro. O sonho deles era da Europa partir depois para o Canadá.

Aylan, Galip e Rihan nunca chegaram onde queriam. As duas crianças e a mãe não tinham os respetivos coletes salva-vidas quando a embarcação em que seguiam se virou no escuro da noite, cerca de 30 minutos depois de ter deixado a localidade turística de Bodrum, na Turquia. O pai, esse, conseguiu chegar a terra e vencer a agitação do mar. Alcançou a terra e o futuro idealizado, embora sem poder partilhá-lo com o resto da família.

Abdullah, o pai, segundo o “National Post”, do Canadá, tem agora um único desejo. Voltar a Kobani, a cidade síria de onde partiu, e onde quer enterrar a mulher e os filhos, e onde o Estado Islâmico já não muda porque as forças curdas levaram a melhor em janeiro. O sonho de se juntar à irmã no Canadá morreu na praia.

“Ouvi as notícias às cinco da manhã”, contou Teema Kurdi, a irmã de Abdullah, ao National Post — que mora em Vancouver, no Canadá, onde trabalha como cabeleireira. Foi a ela que a família inicialmente se quis juntar. Pediram asilo ao Canadá, mas o pedido foi recusado por problemas com a Turquia. “Estava a tentar financiá-los e até tinha amigos e vizinhos que tinham feito depósitos bancários, mas não conseguimos os vistos. Estava a pagar-lhes o aluguer da casa onde moravam na Turquia, mas é horrível a forma como lá tratavam os sírios. Por isso tentaram sair de barco”. Uma viagem fatal.

Aylan, que aparece nas duas fotografias a usar uma t-shirt encarnada e uns calções escuros, é um de 12 refugiados sírios que morreram esta quarta-feira, quando tentavam atravessar o mar em duas embarcações — uma dúzia de vítimas mortais entre um total de 23 refugiados que tentou desesperadamente entrar em território europeu. Entre os mortos estão cinco crianças e uma mulher, outras sete pessoas foram salvas e duas conseguiram nadar até terra (há ainda duas pessoas desaparecidas).

As fotografias do menino, numa posição que facilmente passaria por uma criança a dormir, estão associadas a um movimento que encontra na hashtag #KiyiyaVuranInsanlik a sua razão de ser. As palavras turcas podem ser traduzidas, em português, para “naufrágio da humanidade”. As imagens que agora fazem parte de álbum da crise de migração pertencem a Nilufer Demir, um fotógrafo da Reuters, que a sangue frio e no exercício da sua profissão registou um desfecho pouco feliz.

Tal como Aylan, outras 2,600 pessoas morreram a tentar

Seja como for, o náufrago de três anos é mais uma das cerca de 2,600 pessoas que, em 2015, morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo em direção à Europa, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) — no mundo inteiro, o número aumenta para as 3,641 vítimas mortais. Ainda segundo a mesma fonte, o top cinco dos países de origem dos migrantes que tiveram a Grécia como destino de eleição são a Síria, o Afeganistão, a Albânia, o Paquistão e o Iraque. E foi precisamente em direção ao berço da democracia que chegaram mais pessoas por mar: 234,778 de um total de 351,314. Os dados foram atualizados até ao dia 31 de agosto, pelo que as 12 vítimas sírias que agora marcam a agenda noticiosa ainda não fazem parte das estatísticas.

Mediterranean_Update_1_September

Gráfico retirado do site missingmigrants.iom.int/

Mais, as 12 mediáticas baixas estão entre as milhares de pessoas, sobretudo sírias, que fogem da guerra e da ocupação brutal realizada por fundamentalistas islâmicos. A ilha de Kos tem-se tornado um íman para quem está determinado a alcançar a Europa. Segundo o Guardian, estima-se que 2,500 refugiados, possivelmente oriundos da Síria, atracaram na ilha grega de Lesbos esta quarta-feira, a bordo daquilo que as autoridades locais descrevem como sendo mais de 60 botes ou outras embarcações “incapazes de navegar”. E cerca de 15 mil refugiados aguardam em Lesbos por uma hipótese de chegar, via marítima, ao porto Piraeus, em Atenas, antes de prosseguirem viagem. Não é por acaso que esta é a pior crise de migração desde a Segunda Guerra Mundial.

A imprensa internacional, bem como a nacional, olha agora para a polémica fotografia como o reflexo de uma situação que parece não ter fim à vista. O próprio Independent colocou a seguinte pergunta: “Se estas imagens extraordinariamente poderosas não mudarem a atitude da Europa face aos refugiados, o que mudará?”.

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