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Paddy Cosgrave: “Portugueses revoltaram-se e decidiram começar a construir um amanhã melhor”

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O presidente da Web Summit explicou ao Observador que foi o otimismo dos empreendedores que convenceu a organização do evento a optar por Lisboa. Desafios existem, mas nada que o preocupe. Ainda.

Getty Images

Otimismo. Para Paddy Cosgrave, presidente da Web Summit, é disto que se trata. Do “otimismo” que emana da comunidade de empreendedores portuguesa. É por isso que não hesita em comparar Lisboa a São Francisco, ainda que a ponte sobre o Tejo ajude a compor o cenário. Mas a resposta, não tem dúvidas, está nas pessoas. O que é que na capital portuguesa lembra Silicon Valley? “É apenas o otimismo.”

As pessoas estão otimistas e eu pergunto-me porque é que isso será. E isto acontece também noutros países que foram afetados pela crise em 2008. Primeiro, houve uma espécie de raiva, até que as pessoas começaram a pensar que tinham de avançar. E isto define um pouco a vossa ‘startup scene'”, explicou Paddy ao Observador.

Mas nem só de otimismo vive o ecossistema de empreendedorismo nacional. Outros iscos para a organização daquele que que é o maior evento de empreendedorismo, tecnologia e inovação da Europa? O talento tecnológico e as infraestruturas da capital.

A decisão final sobre onde organizar a edição de 2016 pendia entre Lisboa e Amesterdão, mas foram os empreendedores portugueses que levaram a melhor. Conseguiram levar “magia” para Dublin, com truques que recorreram a redes sociais e emails através de um movimento lançado pela publicação digital Ship.

Existem talvez 15 cidades na Europa que podem receber o nosso evento. E fomos à procura dessas cidades. A lista ficou cada vez mais pequena e depois aconteceu algo quase mágico: esta campanha surpreendente pelo Facebook e o facto de cada vez que entrava no Twitter ter pessoas a dizer “vem para Lisboa”. E comecei a receber emails muito úteis de portugueses que queriam, por exemplo, ajudar-me a fazer uma visita à cidade”, explica Paddy Cosgrave.

A curiosidade sobre o ecossistema de empreendedores lisboeta é recente. Começou quando Jaime Jorge venceu o pitch do evento do ano passado. Foi aí que ouviu falar pela primeira vez da Codacy e de Lisboa. “Na altura, questionei algo como ‘uma startup portuguesa quando estão aqui tantas de Silicon Valley, Berlim ou Londres?’. Achei interessante”, conta ao Observador.

As notícias sobre a “unicórnio” Farfetch, uma festa na casa do embaixador português na Irlanda com 200 empreendedores e uma visita a Lisboa fizeram-no trocar ideias com o irmão, que vive em Berlim, sobre o que se estava a passar na capital portuguesa.

“Quando lhe disse que tinha achado Lisboa uma cidade espectacular, porque é em parte como São Francisco era há dez anos, ele disse-me que as pessoas em Berlim diziam que Lisboa era a nova Berlim, mas com um clima muito melhor”, disse. O irmão de Paddy já está a fazer as malas para vir morar para Lisboa. E Paddy? “Eu também quero passar muito tempo aqui.”

Eu pergunto-me porque é que isto aconteceu na cidade. Talvez tenha sido porque o país passou por uma experiência verdadeiramente traumática, e as pessoas ficaram chateadas, revoltadas, porque nada disto foi culpa delas, e eventualmente começaram a perceber que o passado tinha de ficar no passado e decidiram começar a construir um melhor amanhã”, afirmou.

Para 2016, a Web Summit espera atrair 40 mil participantes. A edição de 2015, em Dublin, vai contar com 30 mil participantes, mais de 2 mil empresas, mil investidores e 650 oradores. Lisboa é a primeira cidade a receber o evento depois de Dublin, onde foi lançado em 2010. Preocupações? Não existem, por enquanto. Mas os desafios sim.

“Ainda nada me preocupa. Há muitos desafios por estarmos a fazer isto numa cidade nova, mas acho que quando existe uma comunidade de pessoas que é tão entusiasta é mito fácil ultrapassá-los”, referiu, acrescentando que em Lisboa é possível encontrar de tudo: sítios para que dez pessoas se reúnam durante duas horas, restaurantes e hotéis para artistas, empreendedores ou presidentes de grandes empresas, atividade noturna, entre outros. “Tudo isto é possível em Lisboa”, disse.

Mas antes da decisão estar tomada, havia vários fatores que estavam a preocupar a equipa da organização. Teria Lisboa uma boa cobertura de Wi-fi? Teria bons transportes públicos? Teria capacidade para alojar tanta gente? “Mas depois vimos os planos [da candidatura] tão detalhados e foi tão impressionante perceber como tudo funcionaria”, explicou.

O investimento para o evento – financiado pelo Turismo de Lisboa, Turismo de Portugal e pela AICEP – é de 1,3 milhões de euros para cobrir a logística do evento e infraestruturas, mas o retorno esperado ronda os 175 milhões (se tivermos em conta que em 2014 o evento gerou 100 milhões de euros em volume de negócios com 22 mil participantes e extrapolarmos o mesmo múltiplo), explicou Leonardo Mathias, secretário de Estado Adjunto da Economia, na conferência de imprensa que anunciou a chegada da Web Summit a Lisboa.

No final da conversa, um agradecimento especial. Aos empreendedores e ao movimento que criaram para trazer o evento para Lisboa. “Obrigada, obrigada. Fez a diferença. Fez verdadeiramente a diferença. Fez mesmo. Porque fizeram-me me sentir tão bem-vindo. Porque era uma grande decisão de repente sairmos da nossa cidade natal”. E saíram. Para Lisboa.

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