Presidenciais 2016

Edgar Silva, o ex-padre comunista para quem “o marxismo não é uma fé”

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Edgar Silva foi padre, saiu desiludido do sacerdócio e é o candidato presidencial do PCP. Defende, no entanto, que marxismo e cristianismo não são antagónicos e recebe elogios dos adversários.

Edgar Silva é o candidato a Presidente da República, apoiado pelo PCP

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

Acabamos por mergulhar na ideia de que o marxismo e o cristianismo são incompatíveis, que não casam um com o outro”, mas “as coisas não são necessariamente assim”, dizia Edgar Silva, o agora candidato presidencial do PCP, durante um debate sobre “O PCP, os Católicos e a Igreja”, em Penacova, no início de 2015.

Do catolicismo ao marxismo, do sacerdócio à política. A vida de Edgar Silva pode parecer confusa mas, para o próprio, não há qualquer complicação. Leva a vida entre ambos os pólos, não havendo qualquer incompatibilidade. “A fé não é uma ideologia e o marxismo não é uma fé”, um ponto de vista que “fazia quebrar muitos dos preconceitos pois as pessoas acreditavam que abraçar o marxismo era abandonar a fé e não se podia ter fé e adotar o marxismo”, defende. Uma ideia que, admite, ainda se encontra “enraízada”.

Antes de se tornar militante comunista, foi padre católico. Defende que muitos cristãos, “porque comprometidos na sua ação na história e na transformação da história”, assumiam “a importância da ação coletiva para transformar a sociedade”. Por isso, para o agora candidato à Presidência da República, não há antagonismo entre o marxismo e o cristianismo. Referindo-se ao Movimento Cristãos pelo Socialismo, durante o debate sobre estas temáticas, o coordenador do PCP-Madeira defendia que muitos cristãos perceberam como era importante participarem na luta “de transformação das sociedades”, e que viram como “era imperioso assumir tarefas revolucionárias”.

Foi a “opção preferencial pelos mais pobres ” que o fizeram “disponibilizar” para a missão sacerdotal, para a “função de ser padre”, afirmou Edgar Silva numa reportagem da SIC sobre padres que se envolveram na política. “A partir do momento em que essa possibilidade, em que esse dever de compromisso com os mais pobres deixou de ser possível, as possibilidades de continuação de um projeto fundamental de alguma forma passou a estar em causa”. Isto porque considerou que “para a hierarquia da Igreja, os pobres são uma referência interessante enquanto objeto resignado para que a caridade aconteça quando se reunirem as condições para haver condescendência. Portanto, desde que o pobre se mantenha pobre”. Edgar Silva, que esteve indisponível para falar ao Observador, não se adaptou a esta ideia e viu que outras possibilidades lhe eram apresentadas, para que pudesse continuar na sua senda de ajudar os mais desfavorecidos.

Nem um ano passou desde que foi eleito deputado à Assembleia Regional, em 1996, até que o padre Edgar Silva deixasse o ‘padre’ para trás, comunicando a sua desvinculação ao Bispo do Funchal, e se inscrevesse oficialmente como militante no Partido Comunista Português. Poupou, assim, o embaraço à Diocese que, diz o Expresso, ficou numa posição incómoda quando o ainda padre se tornou num “padre vermelho”. A política parece não ter sido o único motivo para a tomada de decisão. O amor também esteve envolvido. “Não tínhamos que continuar às escondidas, nem nada. Assumimos… E quase simultaneamente surge o convite para o PCP”, afirmou a companheira de Edgar Silva à SIC. São, agora, pais de um menino de 10 anos.

Mas essa desvinculação da Igreja não correspondeu a um abandono do catolicismo: “Não renunciei a opções fundamentais, nem a valores assumidos e com os quais me identifico. O desejo de uma Nova Humanidade persiste como objetivo orientador das opções ao nível pessoal. A atual opção político-partidária relaciona-se com a vontade de contribuir para a edificação da Democracia. Agora existe uma mais exigente forma de intervenção”, afirmou Edgar Silva numa entrevista à revista do PCP “O Militante”, logo em 1998. Um homem que, diz o deputado do PCP na Assembleia Legislativa Leonel Nunes, “nunca fez uso do seu estatuto de padre” na política, apesar de dizer que o facto de ser padre pode ter aberto “algumas portas” ao amigo.

“Os governantes tremeram”

Edgar Silva nasceu a 25 de setembro de 1962 no Funchal, estudou no seminário de Almada e dos Olivais, licenciou-se na Universidade Católica e tudo indicava que tinha encontrado a sua vocação para a vida. Foi inicialmente mais dedicada ao catolicismo, mas não tardou muito que a política se insurgisse como parte integrante do dia a dia.

Quando voltou à Madeira em 1987 – ano em que foi ordenado – tornou-se professor na Católica do Funchal e envolveu-se no Movimento dos Apostolados das Crianças, sendo que foi das primeiras pessoas a denunciar a exploração sexual e o trabalho infantil na região, numa Madeira fechada e autoritária. “Houve um conjunto de queixas com desenhos, dossiers… que foram apresentados à Amnistia Internacional, à Provedoria de Justiça e à Procuradoria Geral da República. Aí as coisas complicaram-se muito“, explicou Edgar Silva à SIC.

Sobre estas denúncias, Leonel Nunes, amigo de longa data, recorda: “Os governantes tremeram” com o escândalo sexual. Um trabalho que o padre Mário Tavares e ex-deputado à Assembleia Legislativa, também amigo próximo do candidato presidencial, classifica de “extraordinário”.

Já sobre a pessoa de Edgar Silva, Nunes é sucinto: “Nunca encontrei durante a minha vida, e já lá vão 66 anos, um homem tão dedicado, tão carinhoso para com as crianças”. Uma dedicação que “hoje não é fácil de encontrar nas pessoas”, afirma ao Observador o também deputado do PCP na Assembleia Regional, referindo ainda que o antigo padre é “uma pessoa desapegada”. É uma pessoa “sensível a questões de natureza humana” e que “trabalha em prol das suas convicções políticas”, descreve ao Observador Jacinto Serrão, deputado do PS na Assembleia da República.

Suscitou o “ódio” do então presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim, por ajudar os ‘meninos das caixinhas’ que saiam de casa para pedirem dinheiro nas ruas, conta o Expresso. À altura, Jardim queria passar para fora a imagem de uma Madeira idílica e paradisíaca, que não tinha problemas de pobreza. Eram crianças a quem Edgar Silva dava “proteção”, diz o padre Mário Tavares, acrescentando que o antigo padre chegou a ser “preso por acompanhar as crianças das caixinhas”.

E a relação com o ex-líder do Governo Regional parece não ter sido das melhores. “É natural que não fosse uma relação amigável. Eram adversários políticos e o Alberto João Jardim sempre tratou mal os adversários”, conta Leonel Nunes, que afirma ainda que Jardim “enxovalhou” o amigo, ao dizer que “o Edgar mandava as crianças pedir esmolas para ficar com o dinheiro”. Leonel Nunes confessa ainda que, tanto ele como o amigo, eram caluniados por Jardim, que os apelidava de “vendidos” e “agitadores comunistas”.

Hugo Velosa, deputado pelo PSD na Assembleia da República, reconhece, em declarações ao Observador, que durante a fase em que Edgar Silva era “uma das pessoas” que ajudava essas crianças “o Governo Regional e a maioria PSD não davam apoio e discordavam da atitude porque transmitia uma imagem negativa”.

Só em 1996, quase 10 anos após o regresso à Madeira, Edgar Silva entra na Assembleia Regional, após concorrer como independente nas listas da CDU, envolvendo-se pela primeira vez na política ativa. Algo que se ficou a dever, segundo o DN, ao desafio de Mário Tavares.

O padre Tavares conta que o amigo, que classifica de “generoso” e “muito inteligente”, sofria de alguma “marginalidade no sacerdócio” e argumenta que “a Igreja não soube aproveitar as suas qualidades”. O trabalho de Edgar Silva “foi ficando limitado” e a CDU era um “espaço de maior proteção”, diz o amigo de Edgar Silva, já desde do tempo em que este ainda estudava. Este sacerdote esteve na Assembleia Regional entre 1992 e 1996, ano em que o amigo Edgar entrou. Assim, o padre Tavares diz ter ajudado e apoiado todo o percurso de transição de Edgar Silva, no tempo em que “a Igreja se queria livrar dele” e a “CDU [lhe] deu amparo”.

Já na Assembleia Regional, e enquanto deputado pela CDU, Edgar Silva “desenvolveu a área dos direitos da pessoa humana”, continuando o trabalho de Mário Tavares, conta o próprio.

Carlos Carvalhas, ex-secretário-geral do PCP, com Edgar Silva, na Festa do Avante! em 2014

“Coerência”. “Edgar Silva, dentro do que defende, tem sido de uma enorme coerência permanente”, afirma Hugo Velosa, que está do outro lado da barricada política. O padre Tavares afirma que o amigo é um “homem de princípios”.

E o padre Edgar, como continua a ser conhecido na Madeira, não tem dúvidas sobre as suas convicções. Sobre as suas crenças políticas é categórico: “A CDU, no seu conjunto, corresponde a um amplo movimento de reivindicação, de luta por direitos e por conquista de direitos”, disse Edgar Silva ao jornal Avante!, em fevereiro passado.

Estes ideais revolucionários fazem parte de alguns dos episódios que marcaram a amizade com Leonel Nunes, que conta que sempre se ajudaram “nas lutas” de cada um, e que já teve “momentos muito bonitos com o Edgar”. Daqueles que mais ficaram na memória, destaca a disponibilidade para ajudarem quem pedia, mas a quem diziam: “Vamos ajudar mas vocês também têm que ajudar”, recorda Nunes, referindo-se à mobilização para “a luta”.

Leonel Nunes conta que falou com Edgar Silva pouco depois do anúncio da candidatura presidencial. E qual o tema? A corrida a Belém. A conversa, diz, girou em torno da preparação “para esta nova tarefa que [Edgar] assumiu, com toda a responsabilidade”. Tarefa que teve a sua apresentação formal a 15 de outubro e para a qual Nunes está pronto a “ajudar”.

Edgar Silva tem 53 anos e uma opinião bem vincada sobre o estado das coisas em Portugal. “Quem, nesta República, tem em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos? Quem escuta o clamor dos excluídos deste mundo? (…) Existem hábitos de injustiça, práticas de exploração e de rapina, benefícios que só alguns poucos aproveitam, formas de dominação em função do lucro, que são a raiz profunda da desordem. O actual poder económico ou político não considera mudanças de fundo, concentra-se sobretudo em mascarar sintomas”, comentou num artigo de opinião, no Diário da Madeira. Artigo este que foi publicado exatamente na véspera de Jerónimo de Sousa ter feito o anúncio ao país, a 8 de outubro, de que o ex-padre seria o homem ideal para ocupar o lugar deixado vago por Cavaco Silva.

O melhor resultado do PCP em eleições presidenciais foi alcançado por Carlos Carvalhas em 1991. Nas eleições seguintes, o PCP apresentou como candidatos Jerónimo de Sousa, António Abreu e Francisco Lopes.

*Editado por Helena Pereira

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