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Fado

Que tal é o novo disco de Mariza? Fraquito

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Após cinco anos de silêncio, Mariza está de regresso aos discos com "Mundo". São 14 temas produzidos pelo espanhol Javier Limón, e nós respondemos à pergunta que mais interessa: vale a pena ou não?

O novo disco de Mariza é apenas uma agremiação de canções muito diversas e muito desiguais

Autor
  • João Miguel Tavares

A expectativa era grande: passaram cinco anos desde Fado Tradicional e Portugal inteiro acompanhou os dias difíceis que Mariza viveu antes e após o nascimento do seu primeiro filho, tal como soube do seu afastamento dos estúdios para se dedicar a tempo inteiro à maternidade.

De acordo com a mitologia fadista, essas experiências poderiam ser vantajosas no momento de voltar para os braços da canção de Lisboa, por darem espessura e intensidade ao seu cantar, dentro daquela velha tradição que diz que o verdadeiro fado nasce do sentimento trágico da vida.

Como em todas as mitologias, haverá nela um certo exagero, mas é verdade que o fado é uma canção pobre que compete ao fadista enriquecer. Sem esse enriquecimento, o fado não é nada. Não basta a um intérprete estar dotado de um bom aparelho vocal ou de um reportório consistente – é indispensável encontrar um caminho próprio pelo meio da tradição fadista, que consiga iluminar velhas melodias (os chamados “fados tradicionais”) de uma forma inteiramente nova.

Capa Mundo

Quando se olha para os seus discos anteriores, percebe-se que Mariza nunca foi muito boa nisso. Ela sempre foi muito melhor cantora do que fadista. Ou seja, Mariza é uma artista com bastantes qualidades – grande voz, grande imagem, reportório cuidado, músicos talentosos –, mas fadista, enquanto intérprete capaz de nos apresentar uma visão única, sofisticada e inédita do fado, ela não é.

Aliás, foi apenas quando pareceu cansar-se de andar à procura dessa “legitimidade fadista” que Mariza assinou aquele que continua a ser, de longe, o melhor álbum da sua carreira – Terra, de 2008, muito mais próximo de um conceito de world music do que de fado. Quando, dois anos depois, regressou com Fado Tradicional, o resultado foi o esperado: um álbum aceitável, bonito, bem cantado, mas jamais arrebatador. Normal one. Nunca special one.

Nesse sentido, havia uma dupla expectativa em redor do seu novo Mundo. Por um lado, porque era curioso saber se cinco anos depois ela regressava melhor fadista. Por outro, porque a produção do disco tinha sido novamente entregue ao espanhol Javier Limón, um dos grandes responsáveis pela excelência de Terra.

A frustração, tal como a expectativa, também é dupla. Em primeiro lugar, Mariza não regressou melhor fadista. Mundo não tem muitos fados, mas tem, por exemplo, o clássico “Maldição”, uma melodia de Marceneiro (“Fado Cravo”) que Amália elevou aos píncaros. Mas não precisamos de a comparar com Amália. Basta escutar a versão de “Maldição” que Ana Moura gravou recentemente para o álbum de homenagem a Amália dirigido por Ruben Alves.

Esta é a versão de Mariza:

Esta é a versão de Ana Moura:

Se quiserem, também a podem comparar com a versão que Gisela João gravou há dois anos para o seu álbum de estreia homónimo, um dos mais belos discos de fado do século XXI – mesmo que aí “Maldição” nem sequer seja um dos seus pontos mais altos.

A segunda frustração de Mundo é esta: Javier Limón parece ter posto demasiada produção no disco, talvez para disfarçar o facto de as canções não serem tão boas como aquelas que tinha à sua disposição em Terra. Os coros que surgem nos refrães de “Saudade Solta” (ainda assim, o tema mais forte do disco, assinado por Pedro da Silva Martins, dos Deolinda, que continua com a mão quente) ou do próprio single “Paixão” (uma composição de Jorge Fernando, produtor do primeiro disco de Mariza, Fado em Mim) estão ali a pisar a linha do bom gosto, e quando se lhe juntam alguns teclados electrónicos de Alfonso Pérez a coisa desliza com frequência para o campo da música ligeira.

De resto, ao contrário de Terra, Mundo não tem um conceito identificável nem uma identidade forte – ele é apenas uma agremiação de canções muito diversas e muito desiguais, incluindo dois temas em castelhano (“Alma” e “Caprichosa”), uma morna em crioulo com refrão em inglês (“Padoce de Céu Azul”) e uma canção de embalar (“Meu Amor Pequenino”), com Rui Veloso ao piano.

Certamente que a competentíssima Mariza vai sacar deste disco um eficiente espectáculo ao vivo, com o qual dará mais umas voltas ao planeta. Mas para quem estava há cinco anos sem gravar, Mundo não deixa de ser uma decepção. No tema “Melhor de Mim”, Mariza canta com grande convicção “sei que o melhor de mim está por chegar”. É caso para dizer: ainda bem.

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