Organização Mundial de Saúde

OMS: carne vermelha, processada ou não, pode causar cancro

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Consumir carne processada aumenta o risco de desenvolver cancro colorretal e o consumo de carne vermelha "provavelmente" também, reportou a Agência Internacional para a Investigação em Cancro da OMS.

Carne processada, como salsichas, ou carne cozinhada a altas temperaturas, como num churrasco, são potencialmente cancerígenas

PAUL J. RICHARDS/AFP/Getty Images

Última atualização às 15h30.

O consumo de carne vermelha, como vaca ou porco, foi considerado como “provavelmente carcinogénico para humanos” e o consumo de carne processada, como salsichas ou enlatados, como “carcinogénico para humanos”, concluiu o relatório da agência internacional da Organização Mundial de Saúde que se dedica ao estudo do cancro (International Agency for Research on Cancer, IARC).

A carne vermelha foi colocada no grupo 2A “com base em provas limitadas de que o consumo de carne vermelha provocava cancro em humanos e fortes provas do mecanismo que apoia o efeito carcinogénico”. Já a carne processada foi colocada no grupo 1 “baseada em provas suficientes em humanos” de que o consumo causa cancro colorretal

Por cada 50 gramas de carne processada ingerida diariamente, o risco de desenvolver cancro colorretal aumenta 18%, concluem os especialistas, segundo o comunicado de imprensa. Para o consumo de 100 gramas de carne vermelha por dia, o risco aumenta 17%.

O grupo 1, onde foi colocada a carne processada, inclui também o fumo do tabaco e o amianto, mas isto não quer dizer que o risco seja equivalente. A classificação da IARC descreve apenas a força da demonstração científica sobre o potencial de causarem cancro e não o nível de risco, como referido nas “perguntas e respostas” da instituição.

Em Portugal não existem, neste momento, linhas orientadoras específicas para o consumo de carne vermelha ou carne processada, disse ao Observador Nuno Miranda, diretor do Programa para as Doenças Oncológicas da Direção-Geral de Saúde. As recomendações gerais são que se consuma de forma moderada as carnes vermelhas e processadas, e que sempre que possível sejam substituídas por carnes brancas ou peixe. “[Mas] obviamente que vão ser tomadas as ações tendo em conta esta nova classificação.” 

Para um indivíduo, o risco de desenvolver cancro colorretal devido ao consumo de carne processada mantém-se pequeno, mas o risco aumenta com a quantidade de carne consumida”, disse Kurt Starif, diretor do Programa de Monografia do IARC, citado em comunicado. “Tendo em conta o elevado número de pessoas que consome carne processada, o impacto global da incidência do cancro tem importância para a saúde pública.”

O relatório contou com a participação de 22 especialistas, de 10 países, que reviram a bibliografia publicada sobre o consumo de carne vermelha – mais de 800 artigos que relacionam o consumo de carne com vários tipos de cancro, em diversas populações e dietas diferentes.

Foi feita uma associação entre o consumo de carne vermelha e o cancro colorrectal, tal como tem defendido Harald zur Hausen – prémio Nobel da Medicina 2008 por ter descoberto que o papiloma vírus humano pode causar cancro do colo do útero. O comunicado de imprensa da IARC refere que também foram encontradas associações ao cancro do pâncreas e da próstata.

“Esta é a avaliação mais complexa da literatura médica e científica alguma vez conduzida no que diz respeito ao risco de desenvolver um cancro em particular”, referiu Bernard Stewart, conselheiro científico do Conselho do Cancro australiano e o líder da comissão que conduziu a revisão para a OMS. “Esta descoberta fornece um novo grau de certeza para as autoridades que criam recomendações alimentares com base em evidências científicas.”

Em causa não está o valor nutricional da carne, nem foram apresentadas razões nutricionais para retirar a carne da dieta, lembrou Rosemary Stanton, nutricionista e membro do comité de recomendações alimentares do Conselho Nacional de Saúde e Investigação em Medicina australiano. Mas este relatório reforça as recomendações australianas para que se reduza o consumo de carne vermelha fresca para 450 gramas por semana e que o consumo de carnes processadas seja “omitido ou consumido apenas ocasionalmente ou em pequenas quantidades”.

Bernard Stewart não vai tão longe: “Ninguém propôs que se acabe com o bacon, que se ponha avisos nos cachorros quentes ou que se tire a carne dos churrascos, mas esta revisão da OMS fornece provas que o consumo a longo prazo de carne vermelha e carne processada aumenta o risco de cancro.”

Anualmente, 34 mil mortes por cancro em todo o mundo são atribuídas ao consumo excessivo de carne processada, referiu o Projeto sobre a Carga Global da Doença, citado pelo comunicado da IARC. Porém, o tabaco causa um milhão de mortes por cancro por ano, o consumo de álcool 600 mil e a poluição do ar 200 mil.

“É importante colocar o risco de cancro associado à carne vermelha e carne processada em perspetiva em relação a outras causas de cancro”, lembrou Kathy Chapman, do Comité de Nutrição e Atividade Física do Conselho de Cancro australiano. “Um estilo de vida saudável em geral, incluindo a dieta, é importante para reduzir o risco de cancro.” 

Cinco perguntas sobre a relação entre a carne e o cancro

1. O que é considerado carne vermelha?

Todos os tipos de carne que têm origem no músculo de mamíferos, como vaca e vitela, porco e leitão, carneiro e cordeiro, cabra e cabrito ou cavalo. A carne vermelha não processada inclui toda a carne fresca, mas também carne picada e congelada.

2. O que é carne processada?

Esta categoria não é exclusiva das carnes vermelhas. Refere-se a todos os tipos de carne que tenham sido transformadas com o objetivo de intensificar o sabor ou aumentar o período de conservação, seja pela salmoura, secagem, fermentação ou defumação. São exemplo de carne processada as salsichas, fiambres, chouriços, presuntos ou carne seca, mas também a carne enlatada e os molhos e preparados à base de carne.

3. Cozinhar a comida pode aumentar o risco de se tornar cancerígena?

Cozinhar a altas temperaturas, como durante a fritura ou no churrasco, pode fazer com que se criem certos compostos que provocarão, eventualmente, um aumento do risco de desenvolver cancro. Porém, o papel destes compostos ainda não está perfeitamente estudado.

Do mesmo modo, também ainda não existem estudos suficientes que demonstrem se comer carne crua é mais seguro. Nem tão pouco estão avaliados os riscos que podem estar associados ao consumo de carnes brancas ou peixe.

4. De que forma é que a carne vermelha e a carne processada são potencialmente cancerígenas?

Durante o processamento da carne ou enquanto é cozinhada, podem formar-se alguns compostos químicos com potencial cancerígeno, como nitrosaminas, nitrosamidas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Sabe-se que estes químicos podem danificar o ADN, mas ainda não existem provas diretas sobre porque é que o risco de desenvolver cancro aumenta com o aumento do consumo de carnes vermelhas ou processadas.

5. Que graus de risco cancerígeno existem? 

Existem cinco níveis de risco na classificação: do grupo 1 – carcinogénico para humanos, até ao grupo 5 – provavelmente não carcinogénico para humanos.

Quando há provas convincentes de que um agente pode causar cancro em humanos é classificado no grupo 1. Quando há demonstrações menos consistentes de que o agente é carcinogénico em humanos ou nas experiências com animais, a classificação cai no grupo 2. No caso do subgrupo 2A, há uma associação positiva, mas com provas limitadas, que cause cancro em humanos, ou seja, não foi possível descartar outros fatores.

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