O porta-voz do Partido Popular, Rafael Hernando, pediu aos socialistas espanhóis para se fixarem num país como a Alemanha (onde os dois partidos mais votados nas últimas eleições formaram uma coligação de governo), e não em um país como Portugal. As declarações surgiram quando o líder do PSOE, Pedro Sánchez, estava em Lisboa para se reunir esta quinta-feira com o primeiro-ministro português, António Costa, com o objetivo de estudar para uma Espanha um solução semelhante à que o PS conseguiu em Portugal.

“Portugal pode ser um país serio, mas parece-me mais séria a Alemanha”, disse Hernando. As declarações foram prestadas numa entrevista de Rafael Hernando à estação espanhola Cadena Ser. O porta-voz do Partido Popular, liderado por Rajoy, afirmou ainda que se o PSOE se aliar ao Podemos estará a cometer “uma fraude eleitoral claríssima”, por querer governar mesmo perdendo as eleições – algo que António Costa foi acusado também de fazer em Portugal, quando votou – em conjunto com PCP e BE – uma moção de rejeição ao governo com maioria relativa de PSD-CDS.

Na Alemanha, após as eleições legislativas de 22 de setembro de 2013, a CDU (partido liderado por Angela Merkel) venceu as eleições com maioria relativa, tendo alcançado 37,2% dos votos. O partido de centro-direita coligou-se então com os socialistas germânicos (SPD, partido social-democrata alemão), alcançando então uma maioria de governo. O acordo entre os dois partidos germânicos demorou cerca de cinco semanas a ser celebrado.

Esta quinta-feira, o líder do PSOE, Pedro Sánchez, encontrou-se com o primeiro-ministro português em Lisboa, na sede do Partido Socialista. E voltou a afirmar que se Mariano Rajoy não conseguir formar governo, os socialistas espanhóis tentarão formar “uma grande coligação de forças progressistas” no país, por forma a liderar a “mudança” ao governo de direita do Partido Popular.

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“Volto a dizer: digo não a uma grande coligação que o PP propõe, mas se Mariano Rajoy não conseguir formar governo, digo sim a uma grande coligação para [a formação de um] governo progressista em Espanha”, disse o líder do PSOE, que deu ainda o exemplo do país vizinho (Portugal) para reforçar a ideia de uma coligação à esquerda:

Portugal tomou a posição certa”, disse, elogiando ainda as prioridades do governo de iniciativa do PS, apoiado pelas forças à sua esquerda: “Crescimento, criação de emprego e igualdade”. Essa “é uma luta do governo progressista formado por António Costa”. Uma luta que Pedro Sánchez afirmou partilhar.

Partilhamos a necessidade de valorizar as pensões, a necessidade de subir o salário mínimo aos trabalhadores e trabalhadores do nosso país, tal como este governo português [prometeu fazer]. [Queremos] uma fiscalidade mais justa para as classes médias e trabalhadores” como acontecerá em Portugal, explicou o líder do PSOE

Pedro Sánchez, que elogiou repetidamente as prioridades e políticas anunciadas pelo primeiro-ministro português António Costa, sublinhou que também ele quer “uma economia (…) eficaz, mas também justa”. Para a replicar em Espanha, o líder do PSOE pretende uma grande coligação de forças progressistas (isto é, que não inclua o PP), porque, em sua opinião, “quando as forças de mudança se unem multiplicam-se os benefícios para a maioria dos cidadãos e o governo de António Costa é a melhor prova disso“.

Sobre a possibilidade da formação de um “governo à portuguesa”, liderado pelos socialistas (a segunda força política mais votada nas eleições espanholas), também os restantes partidos espanhóis se têm pronunciado. O líder do Ciudadanos, Albert Rivera, sublinhou as diferenças entre o cenário político português e o espanhol:

“A situação em Portugal é diferente: não existem partidos no Governo que reivindiquem a rutura de um território ou a sua separação”, afirmou Rivera, referindo-se às diferenças entre o Podemos (e restantes forças independentistas) e o BE e PCP

Já o líder da Esquerda Unida (IU), Alberto Garzón, afirmou esta quinta-feira já ter falado com o líder do PSOE, Pedro Sánchez, sobre a possibilidade da formação de um governo alternativo ao PP. Garzón, cujo partido elegeu 2 dos 350 deputados eleitos, afirmou ver como “desejável” um governo semelhante ao português, liderado pelos socialistas, não rejeitando ainda a inclusão do Ciudadanos (um partido de centro-direita) numa maioria alternativa ao partido de Rajoy:

Entre os partidos de esquerda e minoritários podem-se fazer coisas de outra maneira neste país. Isto significa que podería haver um governo que não fosse do PP. Falta apenas vontade política (…) Vamos tentar que não sejam convocadas eleições antecipadas e que haja um governo distinto do PP

O número dois do Podemos, Íñigo Errejón, pediu por sua vez ao PSOE que prossiga o diálogo para formar uma maioria de governo alternativa ao partido de Mariano Rajoy, pedindo ainda aos socialistas para afirmarem de forma veemente que, tal como o Podemos, não permitirão, nem direta nem indiretamente, que o PP forme governo.

De qualquer forma, o Podemos mantém condições para negociar com o PSOE: exige que os quatro grupos parlamentares do partido de Pablo Iglesias (que inclui, para além do grupo parlamentar nacional do partido, os grupos parlamentares da Catalunha, Galiza e da Comunidade Valenciana – que foram a eleições separadamente e que o Podemos quer que estejam separados na Assembleia espanhola) discutam de forma individual com os socialistas. “Tem que haver diversidade de grupos [parlamentares] e tem que haver grupos [parlamentares] plurinacionais: é fundamental para qualquer acordo”, sublinhou Íñigo Errejón.