Novo Acordo Ortográfico

Acordo ortográfico. Governo espera aplicação “calmamente”

Portugal já adotou o Novo Acordo Ortográfico e o Brasil também, mas Angola não o autorizou. O ministro dos Negócios Estrangeiros disse que espera "calmamente que esse processo se conclua".

O ministro dos Negócios Estrangeiros falou no âmbito do "Seminário de Cooperação Internacional - Desenvolvimento, Cultura e Língua"

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse esta quinta-feira”esperar calmamente” que a aplicação do Acordo Ortográfico vai “concluir-se com êxito” para todos os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O Brasil foi o país mais recente a aplicar o acordo, desde o início do ano, mas outros países estão mais atrasados no processo, nomeadamente Angola, que não autorizou a nova norma “a nenhum nível governamental”.

Questionado sobre este processo, Santos Silva defendeu que “a ratificação de um acordo internacional é uma decisão soberana dos países que o subscrevem” e lembrou que Portugal “demorou vários anos a ratificar o acordo e a decidir aplicar o acordo ortográfico que tinha subscrito nos anos 90” e que está em pleno vigor agora em Portugal.

“Cada país tem o seu tempo e a sua política. Esperamos calmamente que esse processo se conclua, julgo que se vai concluir com êxito para todos”, considerou, em declarações aos jornalistas à margem do “Seminário de Cooperação Internacional – Desenvolvimento, Cultura e Língua”, que decorreu esta quinta-feira na sede do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, em Lisboa.

Santos Silva relativizou a importância do acordo.

A ortografia é uma convenção, é um acordo internacional que procura estabilizar essa convenção, modernizando-a e aproximando mais grafias que eram muito diferentes, com o risco de se tornarem, eventualmente, incompatíveis entre países que são todos países de língua portuguesa”, referiu, sublinhando que apenas um a dois por cento dos vocábulos da língua portuguesa têm a sua grafia alterada com o Acordo Ortográfico.

O ministro mencionou também que nenhum país tem mais direitos sobre o português do que os restantes. “Somos apenas 10 ou 15 milhões de falantes de uma variante de uma língua que pertence a 250 milhões de pessoas, em vários continentes, países, povos e nações, que a falam, a escrevem e a dizem de forma naturalmente diferente. Não há nenhum país que tenha direitos de autoridade ou de precedência histórica sobre os outros e nenhum povo pode arrogar-se ter o monopólio de escrever bem ou falar bem o português”.

O chefe da diplomacia portuguesa adiantou que, após a aprovação da nova visão estratégica da CPLP, que deverá acontecer este verão na cimeira de chefes de Estado da organização lusófona, “irá crescer a importância” do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), como um “instrumento importante para a valorização” do português.

Questionado sobre o problema da falta de financiamento deste organismo, que tem sede em Cabo Verde, Santos Silva disse: “Se juntarmos mais os nossos recursos e formos mais focados nos nossos objetivos, e mais criteriosos nas nossas estratégias, conseguimos fazer mais com o que temos”.

A língua portuguesa é mais do que o valor económico

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, defendeu que a língua portuguesa não pode ser reduzida apenas ao seu valor económico, sublinhando que “basta-se a si própria” e deve ser promovida “como a língua das pessoas”.

Uma língua tem múltiplas funções, é um instrumento de expressão, de comunicação, de pensamento, é um veículo de cultura e também um instrumento de trocas, incluindo trocas comerciais e económicas. E deve ser isso tudo. A política da língua deve ter por base a própria língua. A língua basta-se a si própria, não é para ser apoiada por ser funcional para um objetivo terceiro”, sustentou o chefe da diplomacia portuguesa.

“Percebe muito bem o valor da língua para os negócios quem começa por perceber o valor da língua como expressão pessoal e coletiva, comunicacional e cultural. Percebe mal o valor económico de uma língua quem quer perceber o valor de uma língua a partir da dimensão económica”, sublinhou.

O Instituto da Cooperação e da Língua “é o pivô de uma rede de responsabilidades partilhadas que inclui as escolas, os politécnicos e as universidades, as autarquias e as fundações, os luso-eleitos em várias sociedades europeias e americanas, os investigadores e professores e os que hoje representam várias centenas de milhares de pessoas que estudam português e em português fora de Portugal”, mencionou.

O que nós pedimos do instituto Camões, como serviço do Estado encarregado de executar a política da língua portuguesa na sua frente externa e internacional, é que cuide da língua portuguesa como a língua das pessoas comuns, dos poetas, dos romancistas, dos escritores, das pessoas cultas, das pessoas que se exprimem e comunicam entre si em português. E depois, naturalmente, ajudar-nos-á muito a valorizar o enorme potencial económico da língua portuguesa”, destacou.

“Às vezes, somos obrigados a chamar a atenção de todos para a economia, mas a melhor maneira que temos de chegar à economia é não reduzir ao valor económico os enormes recursos que temos”, disse, deixando uma garantia: “Não é preciso, pelo menos enquanto eu for ministro dos Negócios Estrangeiros, justificar-me ações dizendo que isto é muito importante para o comércio externo. Eu percebo a importância para o comércio externo de qualquer ação de promoção da poesia portuguesa”.

A aprendizagem do português como língua estrangeira é “o caminho mais sólido de consolidar o português como língua global”, considerou o ministro.

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