Música

Os Orelha Negra são os nossos melhores amigos

O novo álbum só sai em Abril mas este sábado e no dia 30 há concertos para mostrar o que aí vem. Fomos ao ensaio da banda, ouvimos as novidades mas não nos deixam revelar segredos - só abrir o apetite

Os jornalistas do Observador ficaram quietos e calados, encostados a uma das paredes de uma garagem transformada em sala de ensaios

FÁBIO PINTO/OBSERVADOR

Estamos quietos e calados, encostados a uma das paredes de uma garagem transformada em sala de ensaios, sentados como fazem os miúdos obedientes. A ideia era falar com os Orelha Negra sobre os concertos que apresentam o novo disco do grupo (o primeiro no CCB, em Lisboa, já este sábado; o outro no Porto, Hard Rock, dia 30). Mas depois veio aquela frase do “claro que podem ver o ensaio”. Ficámos para ver e fotografar, sem gravar uma nota, sem poder dizer a ninguém para que lado vão as canções novas, proibidos de avançar mais que o que Sam The Kid revelou quando lhe perguntámos sobre este terceiro álbum que chega em Abril: “Grooves, vai ser um disco de grooves.” É isso. E os concertos vão pelo mesmo caminho, palavra de honra.

Fred Ferreira avisa: “Não se esqueçam que esta aqui já tem aquela parte nova.” Apostamos tudo em como ninguém se vai esquecer. Melhor, se alguém for à gravilha não se vai notar nada. Mantém-se o tom, o tempo, o beat, ninguém foge porque neste desafio ninguém sabe perder a bola. Não há aqui um líder, nem há um caminho definido. Fred diz-nos o que há: “Uma semi-agenda, um semi-plano de intenções.” É isto e já não é mau. A dada altura a banda decidiu começar “qualquer coisa” em Agosto do ano passado. Depois foi como o tempo quis que fosse. “Começa devagar e à medida que os meses passam fica mais sério. Mas vamo-nos encontrando sempre, talvez nos últimos dois anos menos, cada um de nós teve muitas coisas, muito trabalho e viagens.” É “mais ou menos” um plano e é “mais ou menos” cumprido.

Recordemos a constituição da equipa. Fred Ferreira, Sam The Kid, Francisco Rebelo, João Gomes e DJ Cruzfader. Cada um mais ocupado que o anterior e vice-versa, sem tempo para nada e sempre a conseguirem espaço novo para mais qualquer coisa. Só isso já é uma arte, fora o que fazem, fora o que se passa naquela garagem. Os cinco desenham uma roda sem ninguém no meio. A cada momento quem manda é quem tem mais atitude no olhar, depende dos acontecimentos. Mas para um forasteiro (sortudo) é como se aquele ensaio, seguro e decidido, acontecesse semanalmente, todos os meses, todos os anos.

João Gomes – ora sentado atrás de dois teclados ora em pé com a atitude que só se espera num palco – atira um “experimenta aquela, ouve com a banda a tocar e depois vê o que dá”. Mas Cruzfader já tinha as contas feitas e a solução nas mãos, literalmente. Conhecem-se como costumam conhecer-se os melhores amigos. E depois dá nisto, contas sempre certas, uma matemática sentimental que parece feita de lógica mas que não podia estar mais longe desse tipo de aborrecimentos. É o groove, o danado do groove. Já tínhamos falado sobre isso, claro que já, mas repetir não aleija.

“De onde é que isso veio? Que maravilha, que maravilha.” Gomes pergunta, Sam acusa-se e fica tudo na memória. Foi para momentos destes que inventaram os ensaios e é também para chegar mais longe que os Orelha Negra insistem em fazer concertos para apresentar discos que ainda não foram totalmente gravados, quanto mais editados. Foi assim com os dois primeiros álbuns, de 2010 e 2012, e voltamos ao mesmo neste início de 2016. Francisco Rebelo explica-nos como é que funciona isto de marcar concertos para melhorar discos inacabados: “Pode ser algo que acontece em palco que nos surpreende e que depois aproveitamos, por exemplo. Mas é sobretudo o que um concerto nos obriga a fazer e a pensar antes. Quando o objectivo é um disco e um concerto, os métodos multiplicam-se e as soluções também.” E porque há muito mais para fazer no mundo destes cinco, os concertos de Janeiro servem de prazo: melhor ter tudo pronto (ou quase) até lá.

Quando visitamos os Orelha Negra no estúdio, está praticamente tudo definido. Não podia ser de outra maneira. Francisco lembra que “isto não mete só a banda, há questões de cenário a tratar, luzes e tudo o resto que não podemos dizer agora”. Isto dizem eles, mas pelo meio dos novos temas continuamos a ouvir “isso fica muito melhor”, “não mudes mais” ou “como é que não me lembrei disso antes”. Sem problema, eles sabem bem ao que vão. Seguem confiantes, como tinha de ser.

O concerto de Lisboa está esgotado, o do Porto vai no bom caminho, mas Fred é dado às contas e gosta de pensar em (quase) tudo: “Desta vez, para este concerto pré-disco, tivemos algumas dúvidas. Não estávamos juntos há uns três anos e chegámos aqui sem nenhum single de apresentação. É um risco.” É pois. Mais ainda porque “os concertos são produção nossa, é um investimento que fazemos”. Palavra de Francisco Rebelo, concentrado na burocracia quando calha, perdido no meio do baixo que atravessa toda a música dos Orelha Negra como a corrida de gado bravo. O músico está preocupado com o red line, “estamos a queimar o pré”. Não estamos. Perdão, é do conforto. Não estão, o Fred diz que está tudo controlado. A marcha continua, juramos que no meio daquilo tudo até os computadores e MPC se desfazem em suor. João Gomes diz o mesmo: “Calor, este calor outra vez.”

Caldeirão de soul-funk-hip-jazz-hop

Sem corrermos o risco de falhar no prometido, podemos revelar o que já todos sabem sem nunca terem passado os ouvidos por nada do que está por vir da parte dos Orelha Negra. É outra vez um enorme e apurado caldeirão de soul-funk-hip-jazz-hop e por aí fora. Juntar ideias e gerar outras novas, reunir samples coleccionados e descobrir mais uns quantos. “Sem nunca repetir nada, tentamos que assim seja e até costumamos ter um bom radar para esse tipo de coisas”, confere João Gomes. Os Orelha Negra fazem sempre mais do que podem gravar. Corta-se onde é preciso para deixar um equilíbrio em disco mas há um eterno arquivo, nada é desperdiçado. Para o novo álbum foi resgatado um tema com uns “seis ou sete anos, ainda das primeiras maquetes, uma coisa do Cruz”, conta Fred. Não foi gravado antes porque não “encaixou”, teve melhor sorte agora e estamos certos que não terá perdido nervo pelo caminho.

A sorte esteve connosco mas não há espaço nem tempo para mais. O ensaio vai continuar depois de sairmos e é uma pena. Será por uma boa causa, há surpresas que não podemos ouvir e outras coisas bonitas que “só no palco, malta, só no palco”. Certo, está certo. A malta merece, a malta espera. Já agora, saberão os Orelha Negra que malta é esta, quem é que os vê e ouve? Sabem, pois. “Toda a gente, acho, um pouco de tudo.” João Gomes diz, João Gomes está correcto. Sam The Kid segue a mesma ideia, acrescenta apenas que “hoje está tudo misturado, lembro-me do primeiro concerto que demos no Lux, conseguia ver onde estava o pessoal do hip hop, outros mais indies, uns mais velhos”.

Mas estão todos lá e assim vão continuar porque este groove (é a última vez que aparece esta palavra, está prometido) é um vício tremendo. É-o para quem ouve, muito mais para quem o trabalha com cuidados de artesão. Já houve pedidos de casamento em concertos dos Orelha Negra e outros desejos cumpridos. Ao que parece, tudo isso também está para durar. Fred explica: “Recebi um mail de um tipo que uma vez viu um concerto nosso no palco, ele fazia anos e eu chamei-o. Desta vez disse-me que o primo faz anos, quer saber se lhe posso apresentar o Samuel.” Talvez. São todos bons rapazes.

Orelha Negra ao vivo este sábado, no CCB, em Lisboa, 21h (esgotado); no Hard Club, no Porto, dia 30, 22h (bilhetes a 15 euros)

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