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Taiwan

O renascer da força taiwanesa

A primeira mulher que preside a uma nação de cultura chinesa tem o nacionalismo no sangue e promete reforçar os laços de Taiwan com os Estados Unidos.

Autor
  • Nelson Moura
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‘Eu sou chinês e acho os políticos taiwaneses muito dramáticos e confusos,” diz Wang, um estudante de jornalismo chinês em Taipei. Contudo Wang reconhece que a China tem outros problemas, o que aliás justifica que recuse dar a cara na reportagem. Os taiwaneses são gente que gosta de sair à rua para se fazer ouvir, seja pela abertura de uma nova loja H&M ou para protestar a destruição de bairros sociais para reformados militares. Algo que para chineses como Wang pode parecer caótico, mas não para os habitantes de Taiwan: para quem teve as primeiras eleições exatamente há 20 anos, a democracia é algo que não pode ganhar pó e deve ser exercido sempre, de forma ruidosa e pública.

Isso justifica as multidões de idosos com chapéus com a cara da nova presidente, lado a lado com jovens atualizando posts sobre os prazeres da democracia nas redes sociais graças aos seus smartphones. Em frente ao pódio onde a nova presidente Tsai Ying Wen vai discursar estão os jornalistas: “E se um terramoto atingisse agora? Com esta gente toda aqui?” pergunta um estrangeiro. “Bem, de certeza que culpavam a China também,” responde outro jornalista.

Taiwan pode ser uma área suscetível a terramotos, mas o que atingiu a única democracia de cultura chinesa do mundo no dia 16 de janeiro teve apenas tremores políticos. E o ar é de renovação: “Iremos trabalhar para manter a paz e o status quo entre os dois lados do estreito, de modo a trazer grandes benefícios para o povo Taiwanês. No entanto quero acentuar que os dois lados têm a responsabilidade de encontrar métodos de interação baseados na dignidade e devemos assegurar que nenhumas provocações ou acidentes acontecem”, afirmou a nova presidente.

A líder do Partido Democrático Progressivo (DPP), Tsai Ying Wen, que é uma cientista com educação nos Estados Unidos e no Reino Unido, defendeu na campanha maior desconfiança em relação a Beijing – e isso valeu uma vitória clara, com 56% dos votos que acabaram com o domínio político do KMT. Depois de oito anos marcados por políticas de aproximação ao outro lado do estreito, estagnação económica e aumento do desemprego, Tsai apareceu como a face de uma renovação desejada pelas faixas mais jovens da população.

O perfil da nova presidente ajuda: com fama de intelectual, assume-se tolerante na defesa dos direitos homossexuais e adora divulgar nas redes sociais vídeos dos seus dois gatos, Xiang Xiang e Ah Tsai. Também marcou a atualidade ao apoiar candidatos atípicos como Freddy Lim, vocalista da banda de Heavy Metal Chthonic, que também ganhou um lugar no Parlamento. Quem agora votou em Tsai foram os mesmos jovens que saíram à rua em 2014 e ocuparam o parlamento como protesto a um acordo comercial que viam como favorável aos interesses chineses.

Esta é uma vitoria que deixa o governo chinês numa posição desconfortável, já que apesar de Tsai não defender publicamente uma posição independentista, também não tem demonstrado propriamente vontade em defender qualquer tipo de unificação, ou sequer em manter o “consenso de 1992”. “O importante agora será ver como Beijing ira reagir à vitoria do DPP,” afirma J. Michael Cole, analista político em Taiwan. “Parece-me que por agora o governo chinês saberá que a última coisa que quer fazer é castigar os taiwaneses pelas escolhas eleitorais. A habilidade da China em castigar Taiwan está severamente limitada, porque praticamente tudo o que faz para alienar os Taiwaneses é contra produtivo. Como pode manter a China manter os taiwaneses o mais perto possível? Continuando os esforços diplomáticos.”

No entanto a prioridade para jovens como Chang e para a nova presidente passa não tanto pela política mas por revitalizar a economia em queda. Isso passa por diversificar comércio com as nações do Sudoeste e Este Asiático, para além de um reforço das relações com os Estados Unidos. Para alcançar este objetivo será preciso quebrar a política do anterior governo de cimentar relações comerciais com a China, algo que tornou a economia taiwanesa demasiado dependente da segunda maior economia mundial – com resultados pouco positivos e que levaram à mudança política encabeçada por Tsai Ying Wen.

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