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Parabéns, Fellini: 12 restaurantes para celebrar ‘La Dolce Vita’

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Esta quarta-feira Federico Fellini faria 96 anos. Homenageamos o mestre do cinema, apaixonado confesso pela cozinha italiana, com um roteiro dos melhores restaurantes italianos de Lisboa e Porto.

Na Pulcinella, em Matosinhos, respeita-se a tradição das pizzas napolitanas.

Tiago Salgueiro / Global Imagens

“Eu adoro comer, mas adoro ainda mais estar sentado a conversar com os amigos à volta de uma mesa e observar as outras pessoas a comer”. A frase foi dita por Federico Fellini em 1984 à crítica gastronómica Mimi Sheraton, da revista Vanity Fair, que foi almoçar com o realizador italiano à cidade que ele imortalizou em La Dolce Vita, Roma. “Consegue-se ver muito da personalidade de uma pessoa quando ela está a comer”, continuou Fellini. Talvez por isso havia tantos momentos passados à mesa nos seus filmes, desde o longo almoço de família em Amarcord à ostentação do banquete de Satyricon.

Em 1966, Fellini e a mulher, Giulietta Masina, partilharam com a revista Vogue três receitas caseiras. No dia em que se celebram 96 anos sobre o nascimento de um dos principais mestres do cinema, o Observador não partilha receitas, mas sim algumas boas opções no Porto e em Lisboa onde é possível aproveitar o melhor da gastronomia italiana.

Comecemos pelo Pulcini (Avenida Antunes Guimarães, 335, Leça da Palmeira), em Leça, onde a lasagna é afamada mas não é o único trunfo da casa. Também é possível encontrar receitas típicas menos comuns, como a polenta alla romana e massas variadas. Os adeptos da clássica carbonara devem reter esta sugestão: no Pulcini ela é feita a preceito, sem natas nem outras invenções desnecessárias. As pizzas também não deixam a casa ficar mal.

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Nas paredes do Pulcini os posters italianos ajudam a entrar no ambiente.
(foto: © Divulgação)

Quem procura um restaurante onde o chef diga grazie, em vez de obrigado, tem de passar pela Pizzeria Pulcinella (Av. Menéres 390, Matosinhos). Nas mesas cobertas com as típicas toalhas aos quadrados é possível comer a verdadeira pizza napolitana feita em forno a lenha, sem ter de viajar até à cidade italiana onde ela foi inventada. O pizzaiolo Antonio Mezzero trocou Nápoles por Matosinhos e, em 2013, conquistou a certificação atribuída pela Associazione Verace Pizza Napoletana que atesta a autenticidade da sua receita. Para experimentar outros pratos (ou evitar as filas do Pulcinella) nada como optar pelo restaurante Antonio Mezzero, que o chef abriu em maio último na Foz (Largo de Nevogilde, 51).

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As pizzas do La Pulcinella não vêm para a mesa sem antes terem passado pelas brasas. (foto: ©Divulgação)

Fellini tinha um apetite especial pela tradição gastronómica da região de Emilia-Romana. Talvez por isso não dispensasse um copo de lambrusco, o vinho gaseificado produzido na região. Ao contrário do que muita gente pensaria, não é fácil encontrar lambrusco na carta de vinhos de muitos dos melhores restaurantes italianos da Invicta (até porque não é especialmente apreciado em Itália). No Casa D’Oro (Rua do Ouro, 797) lá conseguimos encontrar uma opção de lambrusco tinto, seco ou doce, conforme o gosto do cliente. Também há chianti, outro dos vinhos mais conhecidos do país em forma de bota. A casa foi aberta em 2005 pela italiana Maria Paola Porru, proprietária de Casanostra, Casanova e Pizza a Pezzi, em Lisboa, e está dividida entre restaurante e pizarria. Ambas possuem uma vista privilegiada sobre a Foz do Douro.

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A vista do Casa D’Oro é uma atração por si só. (foto: ©Divulgação)

Segundo contam a irmã de Fellini, Magdalena, e a neta, Francesca, um dos pratos que o autor de “8 ½” mais gostava de comer em casa era o de anchovas regadas com citrinos. Não encontramos a receita em nenhum restaurante do Porto mas, no Portarossa (Rua Côrte Real, 289, na Foz), por exemplo, é possível pedir dois pratos que incluem como ingrediente o pequeno peixe comum no Mediterrâneo e no Oceano Atlântico. Um deles é a pizza alla putanesca (anchovas, molho de tomate, mozzarella, tomates, azeitonas e alho). O outro é o spaghetti alla puttanesca (anchovas, azeite, alho, malagueta, tomate, alcaparras e azeitonas). A esplanada é muito agradável, sobretudo no verão.

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Quem não gosta de anchovas tem a vida facilitada. Este é um dos muitos pratos do Portarossa onde o pequeno peixe não nada. (foto: © Divulgação)

Depois de tanto passeio pela Foz e Matosinhos, a última sugestão fica no centro da cidade. O La Ricotta (Rua Passos Manuel, 18) abriu em 2011 num edifício restaurado, decorado com bom gosto, e aposta forte na carta de vinhos, sobretudo nos portugueses. Um sinal de que no La Ricotta se cultivam as boas relações luso-italianas. Outro exemplo disso é o caprese di melanzane, com tomate, beringela grelhada com parmesão, mozzarella fresca e migas de broa. Ou o lombinho de bacalhau sobre risotto, espinafres, passas, broa, tomate cherry e pimentos. Uma aliança feliz entre as duas cozinhas.

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No La Ricotta o risotto convive de perto com os pimentos padrón e com outros elementos alheios (mas próximos) da culinária transalpina. (foto: ©Divulgação)

Já em Lisboa escolher meia dúzia de excelentes restaurantes italianos, que deixassem Federico Fellini de água na boca — e isto de falar de ‘água na boca’ em artigos sobre Itália faz sempre lembrar o clássico Colpo Grosso, transmitido a horas tardias pela TVI com esse título –, é uma responsabilidade. Mas não é impossível. Comecemos pelo decano na matéria, Casanostra (Travessa do Poço da Cidade, 60, Bairro Alto) que celebra 30 anos de vida em 2016. Foi o primeiro restaurante de Maria Paola Porru e continua a ser um excelente destino, com uma cozinha constante, muito graças ao trabalho do gerente de longa data, Fernando Martins.

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Fernando Martins, no balcão do ‘seu’ Casanostra. (foto: Facebook)

Passando das ruelas do Bairro Alto para as da Madragoa — que tão bem ficariam filmadas pelo mestre — destaque para a Osteria (Rua das Madres 52-54), que transformou uma pequena e castiça mercearia de bairro num dos melhores restaurantes italianos da cidade. O mérito é da sociedade Tânia e Chiara, cozinheira italiana que aproveitou algumas das receitas da sua família, como as fabulosas polpette (almôndegas) al sugo.

Não muito longe, o Come Prima (Rua do Olival, 258), de Tanka Sapkota, cozinheiro nepalês que fez grande parte da sua formação em Itália (ao ponto de, por vezes, se apresentar como Giovanni) junta, na mesma ementa, boas pizzas napolitanas a risotti ou pasta fresca de fabrico próprio. Na época da trufa branca, a partir de novembro, este é um dos restaurantes de Lisboa onde há sempre um menu dedicado. Caso Fellini preferisse trocar o lambrusco pela cerveja artesanal italiana, deveria considerar outro restaurante de Tanka, o Forno d’Oro (Rua Artilharia 1, 16B), onde às pizzas certificadas pela Associazone Verace Pizza juntam-se a rótulos como a Oltremare, La Ghenga ou La Trappe, entre muitas outras.

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Parte da generosa garrafeira da pizzaria Forno d’Oro (foto: Facebook)

No clássico La Dolce Vita, a mítica Vespa tem quase tanto destaque como a diva Anita Ekberg. É normal, por isso, recordar a obra de Fellini quando se vê Alessandro Lagana, dono do Il Matriciano (Rua de São Bento, 107) a bordo da sua Piaggio vintage . No seu restaurante é tudo tão italiano que mal se fala, sequer, português. Mas a comunicação não é obstáculo para provar a cozinha genuína do chef Maurizio Traina. Até porque, como se sabe, os italianos são especialistas em fazer-se entender por gestos. Já no Bella Ciao (Rua do Crucifixo, 21-23), ao Chiado, Marcelo Di Salvatore, o dono, arranha melhor o português. E é um ótimo intérprete da cozinha do seu país natal: o papardelle con porcini e o bucatini alla matriciana nunca desiludem e são uma ótima forma de fechar esta lista. Buon appetito, Federico!

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