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Presidenciais 2016

9 coisas que deve saber para poder discutir estas eleições

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Marcelo teve mais milhão de votos do que Passos e Portas. PCP perdeu metade do eleitorado. Marisa vale dois Louçãs. Tino de Rans ficou longe de score de José Manuel Coelho. Saiba o que mudou.

Arte: Milton Cappelletti

1.  O primeiro mandato mais magro

O novo Presidente da República foi eleito com mais votos do que Cavaco Silva em 2011, mas é o chefe de Estado eleito com menor número de votos quando falamos na eleição para o primeiro mandato desde 1976. De qualquer modo, a curva da abstenção nos últimos anos já vinha apontado para esta probabilidade. Tanto Jorge Sampaio como Cavaco Silva foram eleitos para o seu segundo mandato com uma abstenção superior a 50%.

Em termos de percentagem, o campeão foi Mário Soares em 1991, quando ganhou com mais de 70% dos votos. Agora, Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu 52% dos votos e teve 2.410.130 pessoas a escolherem-no para Presidente. Isto também significa mais de 300 mil de votos do que PSD e CDS conseguiram alcançar nas legislativas.

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Gráfico: Milton Cappelletti

2. Marcelo faz o pleno em todos os continentes, mas Marisa ganha em Berlim

Marcelo Rebelo de Sousa ganhou o voto dos emigrantes – pelo menos nos 59 consulados apurados de 73 – em todos os continentes. Em Bruxelas, onde votaram 520 pessoas, o professor catedrático de Direito teve apenas mais cinco votos que Sampaio da Nóvoa – Tino de Rans, que se deslocou à capital belga teve apenas 10 votos -, mas em Paris, Marcelo duplicou os votos face ao seu mais estreito opositor. Marisa Matias ganhou em Berlim (com 196 votantes).

3. PCP viu desaparecer mais de metade dos votantes

Edgar Silva teve um dos piores resultados do PCP, com 4% dos votos e 182.905 de pessoas a escolherem-no para suceder a Cavaco Silva. Face a 2006, quando o candidato foi Jerónimo de Sousa, o PCP conseguiu 8,64% dos votos e em 2011, Francisco Lopes conseguiu 7,14% dos votos.  O resultado do PCP, como admitiu Jerónimo de Sousa, “ficou aquém do desejável”, mas o jogo de apontar o dedo ao PS e ao Bloco de Esquerda já começou.

Mais dramático do que essa comparação com os outros candidatos presidenciais é a comparação com o resultado do PCP há apenas quatro meses nas legislativas, onde o partido obteve 445.980 votos. Isto significa que o PCP não convenceu mais de metade do eleitorado que confiou em si há pouco meses.

Ainda na noite eleitoral, o secretário-geral do PCP afirmou que havia condições para [a candidatura de Marcelo] ser derrotada se todos estivessem envolvidos” e enviou até uma mensagem ao Bloco de Esquerda: “Podíamos arranjar uma candidata engraçadinha, mas não somos capazes de mudar”. Mensagens que prometem atrapalhar o entendimento à esquerda, embora, quando questionado pelos jornalistas, Jerónimo se tenha apressado a dizer que “estes resultados das presidenciais são, de facto, outra coisa”. “Continuamos firmes na concretização dessa posição conjunta, mesmo em relação a medidas próximas como o orçamento do Estado. Que é um orçamento do Estado, por proposta do Governo do PS. Com certeza que há muito a examinar, mas estamos, como digo, com esta firmeza, e simultaneamente, com esta seriedade. E nesse sentido, estas eleições não se vão refletir nessa solução governativa que foi encontrada”, declarou.

4. De mãos dadas, Belém e Nóvoa só chegam aos 28%

Quem daqui a uns anos olhar para o filme destas eleições provavelmente perguntará: se o PS tivesse concentrado todas as suas fichas num só candidato o resultado teria sido diferente? Nunca ninguém saberá responder. Num exercício simples (e redutor), somando os votos de António Sampaio da Nóvoa e de Maria de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa conseguiria, mesmo assim, uma vitória confortável.

Mesmo juntos, António Sampaio da Nóvoa, com 1.060.769 de votos (22,89%) e Maria de Belém, com 196.582 votos (4,24%), ficariam bem longe dos 2.410.130 votos (52%) de Marcelo Rebelo de Sousa. Se compararmos com o resultado do PS nas legislativas de 2015, a diferença também é abissal. Há quatro meses, 1.747.685 pessoas confiaram no partido de António Costa. Isto significa que uma parte do eleitorado PS terá votado noutros candidatos de esquerda, mas também em Marcelo Rebelo de Sousa.

5. Edgar Silva só venceu num concelho

Os toques na bola convenceram os aljustralenses. Durante a campanha, António Sampaio da Nóvoa passou por Aljustrel, concelho alentejano, e por lá mostrou que ainda é bom de bola. Os vizinhos de Castro Verde ouviram falar no prodígio que queria ser Presidente da República e confiaram-lhe os destinos do país. E não só.

Também os habitantes de Gavião, Campo Maior, Alandroal, Portel, Viana do Alentejo, Barreiro, Moita, Alcácer do Sal, Grândola, Moura, Vidigueira, Cuba, Ferreira do Alentejo e Mértola deram ao ex-reitor da Universidade de Lisboa a vitória nas urnas. Por eles Sampaio da Nóvoa era o vencedor destas eleições. Mas não chega.

Já quanto a Edgar Silva, o candidato apoiado pelo PCP, venceu no concelho de Avis, distrito de Portalegre, um concelho onde o Partido Comunista é rei e senhor desde 1976.

6. Marisa Matias vale dois Louçãs

A eurodeputada bloquista teve um resultado histórico nas eleições presidenciais: com 469.307 votos (10,13%), Marisa Matias duplicou o resultado alcançado por Louçã, o último candidato saído das fileiras do partido a entrar na corrida presidencial. Na altura, o fundador do Bloco chegara aos 292.198 dos votos (5,32%).

Mas o resultado da bloquista não é assim tão surpreendente se forem tidos em conta os resultados alcançados nas últimas eleições legislativas. Em outubro, o Bloco de Catarina Martins foi a terceira força mais votada com 550.892 votos (10,19%).

7. Populismo não fez mossa

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Gráfico: Milton Cappelletti

Tino de Rans (Vitorino Silva) foi o candidato sensação, tendo ficado no sexto lugar com um total de 152.045 votos, taco a taco com o candidato do PCP. Mas os votos dos cinco candidatos vistos como “outsiders” não chegaram para fazer mossa.

Com 3,28% dos votos, Tino de Rans ficou a apenas 0,7 pontos percentuais de distância de Edgar Silva, que esteve a centésimas dos 4%. Seguiu-se Paulo Morais, com 2,15% dos votos (99.879 votos), depois Henrique Neto, com 0,84% (38.910). Jorge Sequeira obteve 13.756 votos, e, no fim da tabela aparece Cândido Ferreira, com 10.570 eleitores.

8. Tino é o Coelho de 2016, mas perde

O fenómeno Tino de Rans só pode ser comparado com o do madeirense José Coelho nas últimas eleições. Mas Coelho teve mais votos, ficando no quinto posto nas eleições de 2011. O madeirense que ficou conhecido como o “Tiririca da Madeira” conseguiu mais de 189 mil votos, ficando atrás do candidato apoiado pelo PCP, Francisco Lopes, que teve mais de 300 mil.

Desta vez, Vitorino Silva também ficou imediatamente atrás do candidato apoiado pelos comunistas, mas com números bastante inferiores: 152 mil votos para Tino de Rans, 183 mil para Edgar Silva.

9. Santos da casa fazem milagres

Em casa, os candidatos foram bem sucedidos. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou em Celorico de Basto – terra dos avós e onde escolheu lançar e encerrar a sua campanha – com 81,9% dos votos. A vitória de Marisa Matias não foi tão esmagadora, mas a candidata bloquista venceu com 49,1% dos votos na freguesia de Vila Seca e Bem da Fé, de onde é oriunda. Já Tino de Rans arrasou o novo Presidente da República em… Rans. Vitorino Silva conseguiu ter 60,93% dos votos em Rans e ficou em segundo lugar no concelho de Penafiel. Também Edgar Silva conseguiu o segundo lugar, mas na Madeira, arrecadando 19,7% dos votos.

Mesmo estando de saída, Boliqueime não esqueceu o filho da terra e deu a vitória a Marcelo Rebelo de Sousa. Na freguesia de Cavaco Silva, o novo Presidente conseguiu 62,5% dos votos.

ilustração de Milton Cappelletti.
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