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Assis e o PS: “Está em aberto. Não decidi o que farei até ao congresso”

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Os seus mais próximos garantiam que avançaria com uma alternativa programática em março, mas Assis nega: "Ainda não defini o que vou fazer até ao congresso. Ou se vou", diz ao Observador.

AFP/Getty Images

Autores
  • Helena Pereira
  • Catarina Falcão
  • David Dinis

A garantia vinha em ‘on’ de Ricardo Gonçalves, do homem que funcionou como o seu porta-voz aquando do movimento de críticos à formação de um governo das esquerdas: Francisco Assis estaria preparado para apresentar a tendência que pretende encabeçar dentro do PS e respetivo documento programático a partir do final de março. Mas Assis, em declarações ao Observador, já veio desautorizar o ex-deputado: “O que vou fazer no congresso ainda não defini – nem pensei ainda se vou ao congresso”.

Fiz o que fiz quando foi anunciado o acordo com o PCP e Bloco de Esquerda. Acho que a evolução dos acontecimentos me tem vindo a dar razão. Na altura apelei aos socialistas que votassem contra. Votaram poucos, reconhecidamente, e eu tirei as devidas ilações. Isso não me obriga a estar todos os dias a fazer comunicados a criticar. Nunca mais reuni com ninguém, como não defini o que vou fazer. Isso está em aberto”, diz Assis ao Observador.

Também ao Observador, horas antes, Ricardo Gonçalves tinha ido bastante mais longe: com as eleições para as federações e os congressos federativos marcados para o início de março (entre dia 5 e 19), e “depois destes congressos, o partido estará focado nas questões nacionais e haverá condições para o debate interno. O partido estará mais disponível”. E acrescentava – referindo-se ao grupo de críticos da estratégia de Costa, que se formalizou num jantar na Bairrada, com cerca de 200 socialistas:

Este grupo continuará, de qualquer forma, a ter opiniões e a exprimi-las. Este é um movimento ideológico que não pode parar. Estas eleições presidenciais dão-nos mais força“, acrescentou.

Gonçalves sublinha que os votos dos candidatos de esquerda somados ficam longe da maioria absoluta. “Quem está a tirar proveito deste Governo é o BE”, defendeu o ex-deputado a propósito do bom resultado eleitoral de Marisa Matias e do desaire eleitoral de Edgar Silva.

Uma divergência marcada, desde o dia 1

Já no último congresso socialista, falando aos jornalistas, Assis manifestara-se contra alianças do PS com a esquerda, privilegiando entendimentos de bloco central. Não discursou no palco porque diz que não o deixaram falar na ordem em que estava inscrito e por isso abandonou a reunião antes desta terminar. Em novembro, quando Costa já negociava com a esquerda, Assis juntou os seus apoiantes (ou pessoas que pensam como ele) na Mealhada – um encontro que irritou dirigentes do PS.

Depois disso, Assis acabou por desejar “boa sorte” a Costa, afirmando que a questão estava internamente resolvida – embora tenha chegado a mostrar disponibilidade para liderar o partido. “A minha posição é conhecida, o partido vai seguir por outro caminho, mas tenho de respeitar as decisões tomadas democraticamente”, disse então o eurodeputado à saída da reunião da Comissão Nacional do PS, onde foi aprovado o programa de Governo de António Costa.

Mas no seu espaço semanal de opinião no jornal Público, a polémica reacendeu-se nos últimos meses devido ao apoio de algumas figuras socialistas, nomeadamente membros do Governo, terem dado apoio público a Sampaio da Nóvoa, havendo uma ex-presidente do partido na corrida eleitoral, Maria de Belém Roseira.

Agora voltou à carga. Num artigo publicado no Jornal de Notícias na segunda-feira, defendeu que o PS não está em condições de combater o Bloco de Esquerda, que se tornou o “partido mais populista” em Portugal porque “esse combate político não pode ser levado a cabo por quem se deixou inocular por um vírus de idêntica natureza”.

Ricardo Gonçalves rejeita ainda ao Observador que Assis tenha saído fragilizado por ter apoiado Maria de Belém Roseira nestas presidenciais – a candidata teve 4,2%. “Maria de Belém colou-se a Costa, queria muito o apoio dele”, recorda, considerando que em termos programáticos a ex-ministra da Saúde vê com bons olhos a aliança das esquerdas, ao contrário de Assis.

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