É uma das estreias mais esperadas deste início de 2016 e chega à televisão portuguesa (no canal TV Séries) às duas da manhã, na madrugada de domingo para segunda. As estreias simultâneas têm destas coisas e o rock também. “Vinyl” tem produção assinada por Mick Jagger e Martin Scorsese, que também realiza o primeiro episódio. A história acontece em Nova Iorque, em 1973, e tem o foco numa editora discográfica com os dias contados. Ou talvez não. Tudo depende de quem a gere, o que pode não ser muito positivo. E há mais nove episódios pela frente.

Rock’n’Roll

É o que faz a história mas é também a atitude da produção. Primeiro as primeiras coisas. “Vinyl” é a demanda de Richie Finestra por uma solução para a sua editora, a American Century Records. Está à beira da desgraça, a única solução é a venda aos alemães da Polygram mas isso implica um mínimo de garantias que parecem estar muito longe de ser alcançadas. O que “Vinyl” propõe é que acompanhemos Finestra ao longo de dias que não param, que não vão à cama. Entre artistas que lhe fogem por entre os dedos, como os Led Zeppelin, e uma equipa que não dá a produtividade necessária à continuidade da empresa; entre a mulher (Olivia Wilde) e os filhos de Finestra, cada vez mais distantes, e maus homens de piores negócios.

O protagonista está dividido entre os erros do passado (cedeu de mais ao mercado, seguiu pouco o instinto musical) e a única hipótese que tem pela frente: uma solução menos má, as outras são todas péssimas. É o circo do rock’n’roll em 1973, já sem sonhos de paz e amor e apenas com dinheiro e decadência como suporte. O mesmo circo que depois é transferido para quem filma e interpreta, para o guarda-roupa e os cenários de uma Nova Iorque no fundo do poço. Claro que há aqui muito dinheiro mas, ao mesmo tempo, por vezes parece que não há. E é essa sujidade técnica que joga tão bem com a da narrativa. Mesmo nos momentos em que o exagero da decadência parece forçado e surge em primeiro plano aparentemente só para agarrar olhares curiosos. Lidamos bem com isso e seguimos em frente.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

[Veja o trailer de “Vinyl”]

Bobby Canavalle

Richie Finestra, o herói de “Vinyl”, é como Henry Hill (Ray Liotta) em “Tudo Bons Rapazes”: um tipo com boas intenções e uma conduta que nem sempre vai pelo mesmo caminho; que cruza os dilemas de um dia a dia aparentemente impossível de levar em frente com a família e outras coisas normais dos tipos mais mortais que as personagens-tipo de Scorsese. E a verdade é que já se via Bobby Canavalle a liderar uma história destas há muito tempo. Claro que o estereótipo ajuda: este é o americano que é italiano e que vem das ruas de New Jersey. Mas a atitude de Canavalle sempre foi a do rufia, o safado mulherengo com sotaque de jagunço. Finalmente está no lugar certo e carrega bem a história. Vive entre dilemas – com Scorsese só podia – e é tão irresponsável quanto apaixonado, tão perdido no presente como confiante num futuro que, pelo menos do lado de quem vê de fora, pode até nem existir. Ainda bem que assim é. E há que agradecer a Mick Jagger – produtor executivo da série em conjunto com Martin Scorsese – e a Terence Winter, produtor, argumentista e showrunner de “Vinyl”, com trabalho feito em títulos como “Sopranos”, “Boardwalk Empire” ou “O Lobo de Wall Street”.

Scorsese

É óbvio que o amigo Marty queria fazer isto há muito tempo. Se era uma série ou um filme, isso são detalhes. Mas Scorsese queria contar uma história de música. Uma que incluísse todos os seus ingredientes preferidos: crime, droga, sexo, violência, noite, Nova Iorque e psicoses que ficam bem no ecrã. Mas com canções e guitarras entre os protagonistas. E os blues, sempre esse velho vício do homem que é tão agarrado às coisas do Mississippi como o é em relação aos contos fantásticos dos heróis americanos. Na verdade, jogam todos na mesma equipa.

O bluesman Lester Grimes sonha alto mas é rasteirado em nome do negócio. O mesmo que vem dos anos 50 e que 20 anos depois é uma espécie de veneno, uma maravilha tóxica, que cria habituação das más mas que ninguém quer largar. Logo no primeiro episódio, com quase duas horas de duração, Scorsese realiza e entrega-se a “Vinyl”, dá-lhe as ruas e os escritórios de maus negócios, os carros onde a acção não pára e as camas cheias de cocaína, uma cidade em ruínas mas sempre com todas as possibilidades ao virar de cada esquina. Parece que o conseguimos ver que nem garoto louco com um novo brinquedo. E é sempre bom reparar como o título “Vinyl”, na imagem que tem sido apresentada pelo mundo, leva um lettering semelhante ao que acompanhou Mean Streets (“Os Cavaleiros do Asfalto”). Tudo em Nova Iorque, tudo em 1973.

[Reveja o trailer de “Mean Streets”]

Música

Há Bo Diddley como um deus, só ele e a guitarra de ângulos rectos, sozinho com um holofote como se nada mais existisse antes e depois dele; há os Zeppelin no Madison Square Garden, donos do mundo como foram, ainda que com um Robert Plant nem por isso convincente; Peter Grant, um dos maiores (em todos os sentidos), mais temidos e eficazes managers da história do rock’n’roll; os New York Dolls, para explicarem que ninguém vai sair muito vivo de toda a embrulhada que “Vinyl” oferece; referências aos escritos do crítico Lester Bangs e a palcos históricos de Nova Iorque como o Max’s Kansas City; os Slade e os Abba que começam a conquistar a Europa; o disco e as primeiras ameaças daquilo que será o hip hop (e que já soam a revolução).

E os Nasty Bits, a banda que vem de Inglaterra como um protótipo do punk que ainda está por acontecer. Na história de “Vinyl”, pode muito bem ser aquilo que a American Century Records precisa para dar a volta, um grupo de forasteiros de que ninguém gosta, que geram motins em todos os concertos e que só por isso podem vir a dar muito dinheiro. Os Nasty Bits têm como vocalista e showman Kip, que é interpretado por James Jagger, filho de Mick Jagger, esse mesmo. E está orientado para que o homem tenha um futuro brilhante: fica-lhe bem o rock, na representação e na música, já que este Jagger também participa na banda sonora com música original.

[Veja um excerto de “Vinyl” com James Jagger como Kip]

https://www.youtube.com/watch?v=eI6Pg_lIB2M