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Queridas bactérias, venham cá aos intestinos

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Vamos repensar a forma como vemos os micróbios? Em entrevista, a autora do livro "Queridas Bactérias" explica como estas ajudam na digestão, combatem a depressão e velam pela nossa imunidade.

Segundo o livro dos médicos Justin e Erica Sonnenburg, da Universidade de Stanford, devemos tratar as bactérias com carinho, cuidando delas.

Andreia Reisinho Costa/Observador

De cada vez que se sentir sozinho/a, seja porque lá fora chove torrencialmente ou porque o gato não lhe liga nenhuma, lembre-se que só na sua mão estão mais micróbios do que pessoas na terra (a não ser que a tenha acabado de desinfetar) e que nos seus intestinos moram cerca de 100 mil milhões de bactérias — se as colocasse em fila indiana, chegariam até à lua.

Estes e outros factos curiosos fazem parte de um livro que, em boa verdade, quer desmitificar os micróbios, em particular a comunidade que existe nos intestinos e que tem uma responsabilidade acrescida na manutenção de um sistema imunitário fortificado. Queridas Bactérias é a obra dos investigadores e médicos da Universidade de Stanford Justin e Erica Sonnenburg que chega ao mercado nacional esta quinta-feira, 18 de fevereiro, para explicar como é fundamental que cuidemos dos nossos micróbios.

Não é que as bactérias sejam forças divinas, ainda que sejam invisíveis e omnipresentes, mas fazem parte de um complexo sistema em que tudo está interligado: precisam de nós para se alimentar e, em contrapartida, ajudam-nos a fazer a digestão, a combater a depressão e a velar pela nossa imunidade às doenças, do cancro às diabete, tal como garante Erica Sonnenburg em entrevista ao Observador.

Como em qualquer relação, as bactérias precisam de ser bem tratadas, caso contrário podem tornar-se nossas inimigas. Esse é também um dos focos do livro, que acusa o estilo de vida ocidental de prejudicar a microbiota intestinal. Os autores chegam mesmo a identificar quatro grandes “culpados”: a indústria dos alimentos processados, as cesarianas em vez de partos naturais, o uso excessivo de antibióticos e até o declínio da amamentação materna.

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O livro foi editado pela Lua de Papel e custa 15,90€.

É pouco usual referirmo-nos às bactérias como algo querido. No entanto, no livro defendem que elas podem ser as nossas melhores amigas. Como assim?
Muitas pessoas pensam que os micróbios são maus porque, historicamente falando, foi isso o que os microbiologistas estudaram. Diria que nesta última década, sensivelmente, tem-se vindo a perceber que temos bactérias que são muito boas para nós e que têm várias funções benéficas no nosso corpo. Os biliões de bactérias no organismo, por exemplo, ajudam-nos a digerir a comida que ingerimos: durante a digestão produzem moléculas no nosso intestino que são absorvidas pela corrente sanguínea e pelo sistema circulatório e, segundo se pensa, ajudam a regular muitas das funções do corpo, em particular o sistema imunitário. De certa forma, o centro do nosso sistema imunitário está no intestino, uma vez que os micróbios ajudam a controlar as reações a infeções, mas também as inflamações. Mais recentemente descobriu-se ainda uma ligação entre os micróbios do intestino e o sistema nervoso central; existem estudos preliminares que sugerem que o intestino pode potencialmente influenciar o cérebro. As bactérias são uma parte da biologia humana muito maior do que alguma vez imaginámos.

Microbiota intestinal. O que é isso?

No livro lê-se que cada espécie de micróbio que faz parte da nossa microbiota possui o seu código genético próprio, ou genoma. Ao conjunto de genes codificados em todos os micróbios damos o nome de microbiota, o nosso segundo genoma. E tal como o genoma humano é exclusivamente individual (sem contar com os gémeos idênticos), não há duas microbiotas intestinais iguais.

Mas, afinal, qual é a importância da microbiota intestinal para o nosso sistema imunitário?
Uma das coisas que é preciso compreender é que, quando nascemos, o nosso sistema imunitário é muito imaturo. O que descobrimos é que são as bactérias que dizem ao sistema imunitário dos bebés como reagir de forma apropriada. A bactéria ensina, então, um sistema imunitário em desenvolvimento a funcionar de forma correta e há evidências que, no mundo ocidental, isso não está a correr tão bem como no passado — refira-se o aumento de incidências de alergias na infância. As pessoas do mundo ocidental tendem a ter um sistema imunitário que trabalha em excesso e é isso que está na origem de muitas doenças ocidentais, como a obesidade, as diabetes e os cancros. Quando as bactérias estão a funcionar como devido, quando são saudáveis, conseguem dizer ao sistema imunitário do corpo para se comportar de uma forma mais benéfica.

Nos últimos tempos têm surgidos vários livros sobre o assunto, do qual é exemplo A Vida Secreta dos Intestinos cuja autora foi entrevistada pelo Observador em abril do ano passado. Mas se a microbiota intestinal é tão importante para a nossa saúde, porque é que só agora se fala nela?
Acho que esta nova informação esteve anos a ser preparada e parte da nossa falta de compreensão sobre as bactérias nos intestinos era apenas o resultado de não existir tecnologia disponível para estudar o assunto de forma adequada. No entanto, a tecnologia desenvolvida para sequenciar o genoma humano foi posteriormente usada para estudar as bactérias nos intestinos — só assim conseguimos compreender quantos micróbios existem, como eles diferem de pessoa para pessoa e como diferem tendo em conta o que comemos, se tomamos ou não antibióticos ou se nascemos de cesariana. Só nos últimos 10, 15 anos é que começámos a perceber como funcionam os micróbios nos intestinos, o quão importante são e o que estão a fazer… Os livros que estão a vir para o mercado são um produto da melhor compreensão de quão importante são estas bactérias.

Durante muito tempo as pessoas pensavam que se não tinham problemas digestivos, ou problemas com os seus intestinos, era porque a microbiota intestinal estava de boa saúde, pelo que não tinham de se preocupar. Mas o que vamos percebendo à medida que analisamos estes micróbios é que, por eles estarem tão interligados a todos os aspetos da nossa biologia, existem ligações a muitas doenças que pensávamos que não estarem associadas aos intestinos (como o autismo, certos tipos de cancro e até infeções respiratórias). Se o intestino não estiver a funcionar bem e os micróbios do intestino não estiverem a ser cuidados, essa disfunção pode replicar pelo corpo de formas imprevisíveis e pode exacerbar sintomas de autismo ou fazer com que seja mais difícil combater uma infeção respiratória.

Façamos um exercício de imaginação: como seria o corpo humano sem a existência das bactérias?
Essa é uma boa pergunta. No nosso laboratório estudamos ratos que não têm bactérias nos intestinos. Estes ratos não são normais, o seu sistema imunitário não funciona bem e o seu metabolismo é diferente. Num ambiente de laboratório controlado, onde lhes providenciamos comida e água, eles conseguem sobreviver — não é por não terem bactérias que estes ratos caem logo, sem vida. No entanto, não sabemos o que aconteceria num ambiente dito selvagem, onde eles teriam de procurar comida ou água. Acho que seria impossível livrarmo-nos de todas as bactérias, até porque elas estão em todo o lado… Talvez sobrevivêssemos num ambiente controlado, no entanto sabemos que o sistema imunitário não trabalha bem na ausência de bactérias — se tivéssemos uma (simples) infeção, o resultado seria muito mais grave. É uma coisa interessante em que pensar.

É como se os intestinos fossem uma grande parte de nós — não só no sentido literal –, uma vez que ajudam a determinar a forma como vivemos, bem como o nosso humor, não é?
Sim, têm sido feitos muitos estudos com animais que mostram que a personalidade destes ratos é diferente dependendo das bactérias que têm nos intestinos. Tanto o coração como o fígado são órgãos vitais, estão interligados à forma como nosso corpo funciona e acho que é assim que temos de pensar na microbiota intestinal — ela é tão importante como os órgãos.

A alteração da flora intestinal nas últimas décadas é uma realidade. No livro defendem que existem quatro fatores responsáveis por essa mudança, todos eles relacionados com o estilo de vida ocidental (alimentos processados, cesarianas, antibióticos e declínio da alimentação materna). Pode-me falar deles? E como conseguiram isolá-los?
Acho que estes quatro fatores são os mais estudados, os que melhor percebemos atualmente. A forma como nascemos, a questão da cesariana vs. parto natural, foi uma coisa que estudámos — sabemos que a microbiota desenvolve-se de uma forma muito diferente tendo em conta esses dois cenários, mas não sabemos qual o efeito a longo prazo. Existem provas de que um nascimento por cesariana não é a forma ideal de começar (por causa do desenvolvimento da microbiota intestinal) e é provável que existam benefícios em receber micróbios provenientes da mãe. Mas penso que a dieta alimentar, os antibióticos, a forma de nascimento e a amamentação são os quatro fatores principais sobre os quais as pessoas mais se debruçaram. Seria interessante ver no futuro se identificamos outros fatores no estilo de vida ocidental que possam ser responsáveis pelo declínio da microbiota intestinal.

Tem havido imensos estudos sobre bebés nascidos de cesariana e sobre a propensão destes para vários problemas, como a obesidade, alergias, asma, doença celíaca e até cáries, e as notícias não são boas para os bebés que não recebem as bactérias associadas a um parto vaginal.” (Queridas Bactérias, pág. 47)

Podemos imaginar que a nossa forma muito higiénica de viver, esterilizando e limpando coisas, seja algo que ajude a diminuir o número e o tipo de bactérias. Quando vivemos em cidades que são muito limpas, não temos acessos a micróbios que são encontrados no solo e não sabemos se isso é relevante. Mas sabemos que os quatro fatores referidos têm um impacto … Acho que é uma boa maneira de começar a pensar em como podemos adaptar o nosso estilo de vida de forma a torná-lo mais acessível para a nossa microbiota intestinal. Ninguém quer mandar fora os antibióticos, são drogas fantásticas que salvam vidas e nós precisamos delas, mas acho que precisamos de compreender que existe um lado menos bom relacionado com o uso de antibióticos. Estas quatro coisas influenciam a nossa microbiota intestinal de forma danosa.

Há hidratos de carbono maus... e bons

De uma forma genérica, os hidratos de carbono são chamados de açúcares. Os hidratos de carbono simples são rapidamente absorvidos pelo intestino, ou seja, não servem de alimento à nossa flora intestinal. Preto no branco, falamos da sacarose (o açúcar de mesa), da frutose (presente na fruta) e do amido. Já os hidratos de carbono complexos não são digeridos no intestino delgado, logo passam para o intestino grosso onde são fermentados pelas bactérias. Este grupo de hidratos de carbono encontram-se em leguminosas, cereais integrais e muitos frutos e legumes.

A microbiota é flexível, pelo que pode ser melhorada ao longo da vida. Que tipo de hábitos podemos adotar para cuidar dela?
A comida é um dos fatores sobre os quais existem mais provas científicas de como é importante para a nossa microbiota intestinal, especificamente no que toca aos hidratos de carbono complexos que alimentam as nossas bactérias — referimo-nos a eles como fibra dietética. As bactérias intestinais estão cheias de fome e a única comida que têm no intestino grosso, caso não recebam a fibra, é o revestimento de muco do intestino — basicamente, as bactérias começam a comer o ser humano caso não lhes sejam dadas fibras. A preocupação é que esse revestimento é fino e mantém as bactérias a uma distância segura das células humanas. À medida que as bactérias ficam cada vez mais próximas das células intestinais, estas ficam alarmadas e começam a produzir uma resposta inflamatória.

É importante que as pessoas percebam que quando estão a comer, não estão apenas a alimentar-se, mas também a alimentar as suas bactérias intestinais — elas também precisam de comida e o melhor a dar-lhes é a fibra presente em plantas, frutas e vegetais.

Ultimamente, os hidratos de carbono têm ganho uma reputação muito má. Nós sabemos que os hidratos de carbono simples (açúcares) encontrados em comida refinada são hidratos de carbono que o corpo absorve de uma forma muito rápida e aumentam o nível de açúcar no sangue. A nossa preocupação é que, quando as pessoas eliminam os hidratos de carbono, também estão a eliminar os bons hidratos de carbono, os complexos que alimentam as bactérias intestinais. As pessoas têm de estar conscientes que devem minimizar os hidratos simples e apostar no consumo daqueles que são complexos — ou seja, a fibra dietética encontrada em plantas. Basicamente, todas as plantas contêm esta fibra diatética.

No livro também é dado relativo destaque aos probióticos. Do que se trata e para que servem?
Os probióticos são bactérias vivas que têm um efeito benéfico. São, por exemplo, as bactérias que encontramos nos iogurtes. As pessoas pensam que ao comerem iogurtes essas bactérias vão viver nos seus intestinos para o resto da vida mas, na verdade, a maior parte delas viajam pelo nosso intestino e não vivem lá permanentemente. Segundo se pensa, à medida que as bactérias vão passando, são responsáveis por um efeito benéfico. Não é claro como é que isso acontece, mas sabemos que as pessoas que consomem muitos probióticos têm menos probabilidade de ter determinados tipos de infeções. Estas bactérias têm de ser consumidas regularmente.

Mas onde podem encontrá-los?
As comidas fermentadas (como os iogurtes) têm organismos vivos, isto é, desde que não tenham sido processadas de forma a que as bactérias tenham sido todas eliminas; os vegetais fermentados, como pickles, também. Há ainda os suplementos: não tenho a certeza como funciona em Portugal, mas nos Estados Unidos da América a indústria de suplementos não é muito regulamentada, pelo que o governo não presta atenção aos suplementos de modo a saber se o rótulo está correto ou se as bactérias estão vivas. Por causa disso, há pessoas que compram probióticos cujas bactérias não estão vivas — infelizmente, há suplementos nos quais não se pode confiar. Na Europa, as pessoas têm vindo a consumir produtos lácteos fermentados há milhares de anos e há provas de que algumas culturas que consomem muitos probióticos na forma de produtos lácteos fermentados são mais saudáveis.

Ao contrário do inflexível genoma humano, a microbiota intestinal oferece uma maior flexibilidade e constitui uma verdadeira via para melhorar a saúde ou tratar doenças.” (Queridas Bactérias, pág. 171)

Um tópico menos consensual que vocês abordam, e algo nojento também, remete para os transplantes fecais. Acha que algum dia isso vai ser socialmente aceite? E, já agora, resulta mesmo?
Os transplantes fecais ficaram famosos quando se provaram muito eficazes contra infeções recorrentes por Clostridium difficile (patogéno bacteriano que pode causar diarreia e inflamação intestinal grave, podendo mesmo ser letal). Por norma, estas infeções são o resultado excessivo de antibióticos e a forma como antes se tratava a doença era dando mais antibióticos, o que não era um método muito eficaz. Mais tarde, descobriu-se que um transplante fecal era o suficiente para curar muitas pessoas desta infeção recorrente — quando temos uma infeção deste género, a comunidade de bactérias no intestino está doente e ao dar-lhe uma segunda comunidade, desta vez saudável, há uma espécie de reset do sistema.

Já houve vários estudos nos Estados Unidos focados na possibilidade de os transplantes fecais curarem algumas doenças, incluindo obesidade ou doença inflamatória intestinal… Estes estudos ainda não estão concluídos pelo que não sabemos o quão eficazes serão noutras doenças. Mas acho que no futuro vamos provavelmente ver, em vez dos transplantes fecais, um cocktail de bactérias muito controlado na forma de um comprimido. Porque uma das preocupações relativamente aos transplantes fecais é o facto de ser uma preparação muito crua, o não sabermos o que mais estamos a doar — e se além das bactérias saudáveis, também estivermos a dar bactérias más a estas pessoas? Acho que no futuro vamos afastar-nos desta preparação crua mas, por enquanto, é a forma mais eficaz de curar infeções por Clostridium difficile e é por isso que continua a ser usada.

Chegados até aqui, podemos dizer que a microbiota intestinal é tal e qual o nosso ADN no sentido em que é única?
Cada pessoa tem uma coleção única de bactérias e esses biliões de bactérias nos nossos intestinos têm todos o seu próprio ADN, que forma o nosso ADN coletivo. Se o nosso ADN faz de nós únicos, o dos nossos micróbios também.

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