1940-2016 Nicolau Breyner

Nicolau Breyner, um homem sem maquilhagem

Nuno Costa Santos recorda as diferentes dimensões - e opiniões - de "um bom pirata e um bom malandro", como homem e como actor.

Breyner morreu na segunda-feira, aos 75 anos. O funeral acontece esta quarta-feira

Gonçalo Villaverde

Autor
  • Nuno Costa Santos

Começo por praticar o síndroma “eu ainda tive a oportunidade”. Aquele que se manifesta quando uma figura pública morre e é altura de a celebrar nas redes sociais. Tudo o que vem à rede é peixe. Famoso, de preferência. Também posso clamar ao mundo: eu ainda tive a oportunidade de conhecer o Nicolau Breyner. Agora que penso melhor, já tinha estado com ele noutra altura. Mas há meses é que falámos, no momento da gravação de um dos episódios do programa “Treze”, da RTP1.

Tivemos conversa breve, antes da filmagem. Falou-se do jogo do Benfica que havia terminado e depois, uns minutos a seguir, antes de entrarmos em campo, Nicolau lamentou o facto de hoje os estúdios de televisão estarem esvaziados de técnicos, de pessoas. “Daqui a nada só está uma câmara a filmar”. Uma frieza na qual não se reconhecia. O seu mundo televisivo era outro e enchia os estúdios de risos que incentivavam o actor a tentar piadas ainda melhores. “Os câmaras são o nosso primeiro público”, disse. Todo o humorista que faz televisão sabe que é assim.

Depois veio a gravação do programa. Foram comentadas, em tom leve e divertido, frases, umas solenes, outras mundanas, da História de Portugal. Nicolau falou. Não demasiado. Talvez tenha estado mais calado do que o habitual. Mas no que disse mostrou-se o homem liberto de complexos que era. Assumiu com graça que havia conhecido quase todos os autores das frases seleccionadas. “Só não conheci o Marquês de Pombal”. Com quase todos os outros tinha travado uma conversa — de Américo Thomaz a Humberto Delgado.

Esses conhecimentos transversais, mesmo na liga política, faziam parte da sua maneira de ser. Aliás, repudiava a ideia de alguém ser discriminado por ser de direita ou de esquerda – disse-o numa entrevista a Vítor Gonçalves. Com vocação anarquista e simpatias monárquicas, nos últimos tempos considerava que politicamente morava ao centro. Quando perguntado sobre a forma como viveu o 25 de Abril, deu uma reposta antológica à revista Sábado:

Estava muito bêbedo, graças a Deus. Quando vi os tanques na rua pensei que era uma operação-stop: ‘Que merda é esta agora, este aparato todo?’ E fui dormir. Era de esquerda? Completamente.”

Em 1958, recorde-se, foi um “delgadista ferrenho” e, em 1969, membro da CDE.

Um pormenor, no fim do programa. Breyner precisava de uma boleia para ir para a sua casa na Lapa. Entre os que tinham carro havia um que ia para esses lados: Rui Tavares, o líder do Livre, alguém que sob o ponto de vista político não podia estar mais distante de algumas das posições recentes assumidas por Nicolau. Também em entrevista televisiva, Breyner afirmou a opinião de que os anos de austeridade não poderiam ter sido diferentes, apesar de lamentar o sofrimento de tanta gente. Foi a última imagem que tive dele, deles. A saírem do parque de estacionamento, no carro do Rui. Conversando. Sabe-se lá sobre o quê.

Entre a ficção e a realidade

Os jornais, as televisões e as rádios têm desenhado o percurso artístico de Nicolau, da comédia ao drama. Do teatro ao cinema, passando, claro, pela TV do humor e da telenovela. Da representação à realização. Tento fixar-me no homem, Senhor Feliz e Senhor Contente, capaz de se superar quando praticava a arte dramática, inesquecível como João Godunha (personagem criada à sua imagem e semelhança) e como actor de cinema capaz de emoções fortes quando dirigido por realizadores como António-Pedro Vasconcelos e Joaquim Leitão. Penso numa frase que disse numa entrevista que aludia ao facto de em cada alentejano haver um filósofo – ele que, nascido em Serpa, nunca se sentiu confortável na abstracção da cidade. Alguém que aceita aquilo contra o qual não pode combater. A um site (Espalha Factos) alargou essa visão de ir com a corrente: “Nunca remei contra a maré, até porque acho que não vale a pena. E deixei-me embalar nesta aventura que é a vida. Rindo, chorando, vivendo, sentindo.” Num percurso que se quis despretensioso: “Quanto mais simples, mais eu gosto. É como a comida, quanto mais simples, melhor.”

Assumia que o que ligava mais à vida era a emoção. “Acho que nós, portugueses, somos muito emotivos. Foi sempre uma grandeza nossa. Mas às vezes já vejo o português a perder esse grande capital, que não devia diluir-se”, disse ao Expresso

Abro o livro Retratos Falados (Asa, 2001) que compila várias entrevistas conduzidas por Fernando Assis Pacheco. Apanho a conversa com o “Capitão Nico”, preparada por alguém que se assumiu como “breynerólogo”, especialista em tudo o que era a personagem. Talvez seja a entrevista em que mais se revela, na imaturidade dos seus 47 anos. Em que fala dos seus casamentos, da forma como se relacionava com as ex-mulheres, do nariz partido em jogos de râguebi, da paixão correspondida por Ribeirinho e Laura Alves, das suas reservas em relação à revista, “coisa pequenina, à medida do país”, da sua participação na “pornochanchada” (palavra de Assis), “Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa”, durante a qual se riu durante três dias seguidos com Herman José, da crítica aos critérios de atribuição de subsídios aos filmes por cá produzidos, do cinema “tipo Cahiers du Cinéma”, da sua infidelidade partidária e do seu desprezo pela política e pelas novelas. “O ideal era não haver”, achava na altura.

É fácil embarcar na poesia do elogio épico nesta hora fúnebre. Admito que, mais do que o pormenor dos quadros humorísticos, vem-me agora à memória a música do genérico de “Eu Show Nico”, memória da infância que se abre agora. Procuro-o na internet e vou dar a um sketch longo, “Super Homem”, de 1980, em que Nico, em modo super-herói na vestimenta, se apresenta como ser frágil e contingente, acabando por anunciar ao pai que é filho da mãe e de um extraterrestre. Clico noutro vídeo e corre no ecrã outro sketch, “Contas Separadas”, no qual dois homens têm um almoço de trabalho em que falam de tudo menos de trabalho e, no fim, apesar de terem comido o mesmo, querem negócios à parte. Portugal.

[recorde Nicolau Breyner no programa “Eu Show Nico”]

O que me ocorre, a mim, que não nunca fui próximo, é que Nicolau era um homem, no caso português, com as virtudes e as desvirtudes inerentes a estes dois cargos. Percebia bem o país e por isso foi reconhecido pelo país na hora da morte. Queria chegar, como disse na entrevista a Fernando Assis Pacheco, ao “sr. Gomes”, homem de Grândola, Sanfins do Douro, Moimenta da Beira, Olhão. Uma pessoa que, em entrevista, assumia que o que ligava mais à vida era a emoção. “Acho que nós, portugueses, somos muito emotivos. Foi sempre uma grandeza nossa. Mas às vezes já vejo o português a perder esse grande capital, que não devia diluir-se”, disse ao Expresso. E que lamentava que a competitividade estivesse a matar os sentimentos. Na mesma entrevista, comentou: “Vejo os mais novos a competir entre si. É a luta pelo lugar ao sol. Justifica-se e não acontece só aqui. Nos Estados Unidos, em França, em Inglaterra é ainda pior. Só que, nesses países, depois de se chegar lá acima, há um lugar compensador.” Em Portugal, não. “Aqui lutamos por um lugarzinho medíocre.”

Num país de compartimentos, em que se aceita pouco a versatilidade mesmo nas artes, Nicolau fez um pouco de tudo, por apetite. No programa “A Costeleta de Adão”, do canal Q, partilhou uma citação com Ana Markl e Vasco Palmeirim: “A diferença entre a ficção e a realidade é que só na ficção é que tudo tem que fazer sentido.” Na vida pode ser-se irresponsável e infantil, como assumiu que era até aos últimos anos de vida.

[Nicolau Breyner n’”A Costeleta de Adão”]

Volto ao programa Treze, da RTP, gravado e transmitido em 2015. Quando convocado pela produção para a maquilhagem, comentou com um sorriso: “Nunca me maquilho”. Ficámos a sabê-lo: quando se apresentava em conversas televisivas, recusava qualquer tipo caracterização. Preferia ser autêntico, revelar-se nas suas imperfeições. Talvez por isso tenha sido escolhido para entrar na versão cinematográfica, dirigida por Fernando Lopes, da “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal. Ele também era um bom malandro. Um bom pirata. Sem maquilhagem. Como homem e como actor.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.

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