É certo que ainda não tinha prometido bofetadas a mais ninguém, mas João Soares nunca foi pessoa de se poupar nas palavras. Nos jornais, na televisão e na sua página de Facebook, onde é muito ativo, o atual ministro da Cultura dispara em várias direções e não poupa ninguém. Nem mesmo os camaradas de partido.

O “sebastianismo” e a chantagem de Costa

Em maio de 2014, João Soares andava de candeias às avessas com António Costa. Apoiante de António José Seguro na liderança do PS, o agora ministro da Cultura de Costa não gostou da forma como o camarada de partido decidiu candidatar-se a secretário-geral do partido.

“Todos nós sabemos que isto é um processo de chantagem. Às vezes os processos de chantagem pública são bem sucedidos no plano formal e depois são derrotados no plano da realidade dos factos”

João Soares foi mais além e disse mesmo que a situação gerada por António Costa possuía algo de “sebastianismo, de megalómano, de egocêntrico e um tanto messiânico”.

Campanha de “assassinato político”

Em junho de 2014, diretas no PS ao rubro, João Soares comentava a campanha no Facebook.

Quero António José Seguro candidato a Primeiro-Ministro em 2015. Contra a maior, e na minha modesta opinião, mais desleal campanha de “assassinato” político de que tenho memória no PS. Eu sou dos que acham que a política se faz com homens comuns, como eu, e não com iluminados messias. Que chegam do nevoeiro dos mandatos por terminar e dos compromissos por cumprir. Eu tenho na pele marcas e cicatrizes, mas não é por isso que me torno lobo, ou me resigno a uma política de lobos. Posso perder, já perdi muitas vezes, mas com honra e na fidelidade às minhas convicções e compromissos. A enxurrada é grande e barrenta, mas cá estamos para lhe fazer face, com dignidade. Na política não vale tudo!”

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Pedagogia e “pretexto sanitário”

Na página de Facebook, que mantém pública, João Soares ia-se defendendo de ataques.

Declaro, para efeitos de registo de quem ainda não saiba, que apoiei, apoio e apoiarei, António José Seguro como Secretario Geral do PS. Deixo este registo também como pedagogia e pretexto sanitário a que alguns esvaziem aqui a sua bílis, como vêm fazendo, a insultar-me, com desvairados post’s ao nível do pior do Jornal de Angola…

“Limito-me a, em privado, mandar à merda alguns casos extremos”

Dias mais tarde, endurecia as críticas ao que considerava ser um “chorrilho de ataques pessoais grosseiros” de que estava a ser alvo a propósito da crise interna no PS.

Por razões de actualidade (crise interna no PS), que têm que ver com o chorrilho de ataques pessoais grosseiros, insultos e disparates, de que tenho sido objecto aqui no Facebook, quero sublinhar, mais uma vez, que aqui no meu mural do Facebook, quem coloca o que cá está, e dá a cara pelo que cá está, sou eu. Desde sempre. Por regra procuro responder aos ataques políticos, quando sinto alguma base de seriedade em quem os faz. Insultos pessoais, às vezes com componente familiar à mistura, por regra não respondo em publico aqui. Limito-me a, em privado, mandar à merda alguns casos extremos. De pessoas que me têm insultado pessoal e grosseiramente em publico. Já o fiz, e voltarei a fazê-lo as vezes que forem precisas. Tenho 64 anos, cinco filhos, uma vida de trabalho e convicções que acho (passe a imodéstia, mas nestes momentos tem de dizer-se) que responde por mim. Não quero dar lições a ninguém, mas não as recebo também. E por maioria de razão de muitos presunçosos e energúmenos que por aqui andam.”

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O maior bando de ladrões

Em 2013, João Soares era comentador na SIC Notícias e por várias vezes falou do governo angolano liderando por José Eduardo dos Santos. Esta foi uma delas:

“Aquilo é o maior bando — uma amiga minha diz não digas que é o maior, diz que está no topo do ranking — bando de ladrões no poder há mais tempo.”

E depois criticou os portugueses “cúmplices” do regime angolano.

As cumplicidades na nossa terra são terríveis. A quantidade de gente que é empregada deles, que tem medo deles, porque são acionistas do BCP, porque são donos da Zon, porque são acionistas do BPI, porque são donos da Galp, porque são donos de jornais.”

A tropa fandanga, parte 1

A 22 de outubro de 2015 João Soares dá uma entrevista ao jornal Oje, onde mais uma vez fala de Angola.

Só o BES Angola derreteu a brincar sete ou oito mil milhões de euros que não se sabe onde estão. Aliás, sabe-se estão nos bolsos dos mesmos do costume.

O jornalista pergunta quem são eles, os do costume. Soares responde assim:

A Isabel dos Santos, o Sobrinho e aquela tropa fandanga que anda à volta daquele poder, que não é democrático e que aliás está à beira de deixar morrer em greve de fome um jovem que se bate pela liberdade em Angola, que é o Luaty Beirão, e os seus companheiros.[…]

A tropa fandanga, parte 2

Pelos vistos é uma expressão cara a João Soares. Depois de falar de Angola, virou-se para as negociações com a troika. Desta vez falava na SIC Notícias.

“Esta tropa fandanga continua a ser paga regiamente. São os Catrogas que trabalham para os chineses, a 40 mil euros ou mais por mês. Essa tropa fandanga toda, que se orgulhava das selfies que fazia quando negociava com a troika. Não pode ser! Não acredito na Nossa Senhora de Fátima, porque não fui tocado pela fé, mas é preciso voltar aos velhos valores”.

Sócrates, o animal feroz “domesticado”

Em 2004, João Soares foi candidato à liderança do PS, contra José Sócrates e Manuel Alegre. Um dos temas da campanha foi a realização ou não de debates na comunicação social, a que Sócrates se opunha. Numa entrevista ao jornal Semanário, João Soares critica a mudança de opinião de Sócrates, que acabou por aceitar realizar os tais debates:

Mas é também reveladora a sua mudança de posição. É um animal feroz que vira animal doméstico de quando em quando, com o vento…”

Gastar dinheiro à fartazana

Foi a primeira polémica enquanto ministro da Cultura. As críticas ao plano de António Lamas para o eixo Belém-Ajuda foram feitas no jornal Expresso, em fevereiro deste ano:

O eixo Belém-Ajuda é um disparate total com o qual não me identifico de maneira nenhuma. Além de tudo mais, é algo que do ponto de vista formal é a todos os títulos condenável. […] Acho inaceitável que se avance com um plano desses, se gaste dinheiro à fartazana com promoções, com edições de livrinhos e livretes e com conferências de imprensa, com um governo nas vascas da agonia, com o tal secretário de Estado que lá esteve durante não sei quanto tempo. E sem se falar com a CML. Passa-lhe pela cabeça que alguém que não tem legitimidade democrática, que é metido por razões disto ou daquilo à frente do CCB e com um secretário de Estado [Jorge Barreto Xavier] que vem também não se sabe donde, venha apresentar um plano sem falar com a autarquia? Quem fez isto devia tirar as devidas consequências.”

António Lamas recusou sair e João Soares demitiu-o.

O par de bofetadas

“Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia. Ele tinha, então, bolçado sobre mim umas aleivosias e calunias. Agora volta a bolçar, no “Publico”. É estória de “tempo velho” na cultura. Uma amiga escreveu: “vale o que vale, isto é: nada vale, pois o combustível que o faz escrever é o azedume, o álcool e a consequente degradação cerebral. Eis o verdadeiro vampiro, pois alimenta-se do trabalho (para ele sempre mau) dos outros.” Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também.”