Exercício Físico

Exercício sem sofrimento: adeus “no pain, no gain”

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Há um conceito de "fitness" que defende que o corpo deve fazer apenas o que consegue em vez de se esforçar até ao limite. A melhor parte? Todos os exercícios são indolores. O PT Hugo Moniz explica.

Autor
  • Sílvia Silva

“No pain, no gain” (sem dor, não há ganho) é uma das maiores frases de motivação dos atletas que associam dores musculares a resultados. São, muitas vezes, viciados em sofrimento e só consideram que o treino é produtivo quando os abdominais, os glúteos ou os bíceps começam a doer e o corpo dá sinais de fraqueza. Esta é a filosofia do fast fitness (associada a modalidades de alta intensidade como o crossfit) que é atualmente partilhada e incentivada por grande parte dos profissionais de exercício e ginásios em Portugal. Mas será que a dor equivale mesmo a resultados? Ou será o corpo a queixar-se de que fomos longe demais?

Estas foram as perguntas que Hugo Moniz fez a si próprio até frequentar um programa internacional do Resistance Training Specialist para profissionais de saúde e exercício físico, baseado na lei do corpo e da física. Chegou à conclusão que as pessoas devem apenas fazer o que conseguem e não aquilo que os planos de treino ou os personal trainers querem que seja feito. Um conceito, à partida, simples que levou Hugo Moniz a criar — com o amigo João Moscão e, mais tarde, Nuno Pinho — uma escola de formação chamada EXS para transmitir valores que questionam toda a cultura desportiva atual.

A ideia ‘no pain, no gain’ não faz sentido porque devemos ter em conta as capacidades de cada corpo e a sua margem de evolução”, diz o especialista ao Observador. “Há estudos que indicam que quanto mais um corpo passar por processos que não sintam dor, melhor vai ser a sua produção motora.”

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Hugo Moniz é um dos elementos de equipa de formação da EXS e, também “personal trainer” independente na Virgin Active Palácio SottoMayor em Lisboa. FÁBIO PINTO/OBSERVADOR

Exercício sem sofrimento? Como?

“Quando falamos em dor não são as dores musculares moderadas após um bom treino mas o sofrimento enquanto praticamos um exercício”, explica Hugo Moniz. Neste contexto, cabe ao personal trainer adaptar o treino tendo em conta a prestação e disponibilidade física de cada um ou ao indivíduo ter a sensibilidade de ler os sinais que o corpo transmite. Por exemplo, em vez de fazer os 15 abdominais preestabelecidos no seu plano de treino, adapte o exercício ao seu próprio ritmo e fique pelos cinco se sentir o corpo a tremer. Segundo o especialista, os resultados do esforço vão ser muito mais saudáveis.

“Tudo começa com uma avaliação física com alguns exercícios muito específicos que nos permitem avaliar a disponibilidade neuromuscular e articular para contrair os músculos, fletir os joelhos e a extensão da anca”, conta o CEO da EXS. “É fundamental respeitar a função articular de cada pessoa e conhecer cada vez mais o que está por baixo da pele: músculos, estrutura articular, tecidos passivos, ligamentos e tendões ou, caso contrário, em vez de dar a dose certa estou a dar veneno ao corpo.” O personal trainer destaca ainda que devemos ter em atenção que a intensidade e o tipo de treino de um atleta de alta competição é diferente de uma pessoa que passa o dia em frente à secretária a trabalhar.

Não devemos levar um treino ao extremo só porque a atual cultura desportiva diz que devemos aguentar mesmo quando o corpo está a dizer que já deu o máximo, ou vou gerar stress a um corpo que não está preparado para praticar aquele exercício”, afirma Hugo Moniz. “Todos temos capacidades articulares diferentes.”

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“No pain, no gain” é uma das frases de motivação mais conhecidas no mundo do fitness mas, segundo Hugo Moniz, este é um conceito associado a inflamações crónicas pós-treino. iStock

A nova filosofia do “no brain, no gain”

Se está a pensar render-se a este conceito de exercício sem sofrimento, esqueça todos os quilos que pretende perder antes do verão. “Aqui não é o que quero mas aquilo que preciso“, alerta o CEO da EXS. O Resistance Training Specialist não só o ensina a contrair os músculos de forma voluntária como ainda o obriga a usar o cérebro durante todo o processo. “Não há ganhos sem que a mente e o corpo estejam envolvidos no processo. Para melhorar a capacidade de contração do músculo, é importante concentramo-nos na própria contração muscular. De acordo com o especialista, só assim vai conseguir focar-se na qualidade do movimento e fazer a sua capacidade física evoluir.

A dor pode não sentir no momento mas chega no dia a seguir de forma tolerável q.b. “A preocupação deste conceito, acima de tudo, passa por melhorar a saúde dos praticantes de atividade física e a sua experiência de treino”, conclui Hugo Moniz. “Sem dor não há ganhos está fora do contexto social porque sem regras, sem controlo e sem limitações físicas só existem perdas. Uma delas é, por exemplo, as comuns inflamações crónicas pós-treino que são sinais do corpo a dizer que já chega.”

Com a ajuda do personal trainer Hugo Moniz, compilámos três exercícios básicos passo a passo em fotogaleria que lhe permitem avaliar a disponibilidade neuromuscular e articular. A partir daí, opte pela ajuda de um profissional de treino ou, em último caso, leia os sinais que o corpo transmite e adapte os exercícios ao seu próprio ritmo.

Editado por Ana Dias Ferreira.
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