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Fact Check

Costa e Centeno sobre o (des)emprego. Os números estão corretos?

Mário Centeno e António Costa desvalorizaram, na quarta-feira, os números do INE sobre a subida do desemprego. Mas serão corretos os argumentos que utilizaram?

MÁRIO CRUZ/LUSA

A frase

Nestes momentos de recuperação da população ativa, às vezes a taxa de desemprego pode subir duas décimas, pode estabilizar, pode cair duas décimas mas são sempre flutuações muito pequenas face àquilo que é a tendência longa dos agregados. Eu esperaria que a taxa do desemprego, passada esta fase de arranque em que as pessoas se aproximam do mercado de trabalho, volte a cair”.

Mário Centeno, 11 de maio de 2016

A tese

Mário Centeno desvalorizou, em Berlim, a “flutuação pequena” na taxa de desemprego, que subiu 0,2 pontos percentuais, para 12,4% (depois de já ter subido no trimestre anterior). O ministro das Finanças fala numa “recuperação da população ativa” que influencia a evolução da taxa global (que é calculada em relação à população ativa).

Os factos

A população ativa não está em trajetória de recuperação, ao contrário do que indica Mário Centeno.

População ativa
1º trimestre 2016 5.153,4
4º trimestre 2015 5.195,4
3º trimestre 2015 5.194,1
2º trimestre 2015 5.201,2
1º trimestre 2015 5.190,0

Fonte: INE

A trajetória neste indicador tem sido volátil. Houve uma pequena subida entre o terceiro trimestre e o quarto trimestre de 2015 (pouco mais de mil pessoas), mas na última leitura — entre o quarto trimestre de 2015 e o primeiro trimestre de 2016 — houve uma quebra de 42 mil pessoas consideradas pelo INE como “ativas”. E entre o segundo trimestre (de 2015) e o terceiro também tinha havido uma pequena quebra, depois da subida no início desse ano. Conclusão: em relação ao registo que existia há um ano e, também, ao que existia no final de 2015, existe menos população ativa, contrariando o que diz Mário Centeno.

Os resultados do Inquérito ao Emprego relativos ao primeiro trimestre de 2016 indicam que a população ativa, estimada em 5.153,4 mil pessoas, diminuiu 0,8% em relação ao trimestre anterior (42 mil pessoas) e 0,7% em relação ao trimestre homólogo de 2015 (36,6 mil). — (do relatório do INE)

Também o registo a que o INE chama “taxa de atividade”, que define a relação entre a população ativa e a população total, caiu para 58,1% (uma descida de 0,5 pontos percentuais face ao trimestre anterior e 0,4 pontos percentuais em comparação com o período homólogo).

No lado inverso da moeda, a população inativa com 15 e mais anos, estimada em 3,7 milhões de pessoas “aumentou 1,2% face ao trimestre anterior (44,4 mil) e 0,8% face ao trimestre homólogo (28,4 mil)”, acrescenta o INE.

Conclusão: Errado. Os números do INE sobre a população ativa não fundamentam as alegações de Mário Centeno de que a população ativa está a aumentar e, por essa via, a influenciar a evolução da taxa de desemprego.

A frase

“Os números [do desemprego] têm um dado interessante. Nós temos, nesses números, um aumento ligeiro do desemprego mas temos, entre emprego criado e emprego destruído, um saldo positivo. Mesmo neste trimestre, há um saldo positivo de cinco mil novos postos de trabalho”.

António Costa, 11 de maio de 2016

A tese

Os números do desemprego foram, também, abordados pelo primeiro-ministro, António Costa, na entrevista que deu à SIC na noite de quarta-feira. Costa também desvalorizou o “ligeiro aumento” da taxa de desemprego. O primeiro-ministro sublinhou que “temos, entre emprego criado e emprego destruído, um saldo positivo. Mesmo neste trimestre há um saldo positivo de cinco mil postos de trabalho criados”.

Os factos

Esta é uma alusão aos dados que o INE preparou sobre os fluxos entre estados no mercado laboral. Segundo o gabinete de estatísticas, entre o último trimestre de 2015 e o primeiro de 2016 houve 121,4 mil pessoas que transitaram de uma situação de emprego para desemprego. Além disso, houve 182,6 mil pessoas que passaram do emprego para a inatividade. No total, passou a haver, portanto, 304 mil pessoas que estavam empregadas e deixaram de estar.

Por outro lado, 126 mil que eram consideradas desempregadas passaram a estar empregadas. E 129,7 mil pessoas eram “inativas” e passaram a estar empregadas. Total: 255,7 mil pessoas.

Em consequência, entre os dois trimestres assistiu-se a um fluxo líquido negativo do emprego (total de entradas menos total de saídas) de 48,2 mil pessoas. Este é o número que importa. O número a que António Costa se referiu é o da diferença entre as pessoas que transitaram de uma situação de emprego para desemprego e as que percorreram o caminho inverso, ignorando as que passaram a uma situação de inatividade.

inedesemprego2

Conclusão: Enganador. A frase é enganadora porque António Costa falou de postos trabalho (e de emprego criado e emprego destruído), não do subgrupo dos que transitaram apenas entre emprego e desemprego (e vice versa). O importante é que há menos 48,2 mil pessoas empregadas em Portugal em relação ao trimestre anterior.
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