Moda

Lisboa passou-se: são 30 anos de Manobras de Maio

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Portugal tinha acabado de entrar na CEE mas nada acontecia na capital. Há 30 anos, as Manobras de Maio agitaram a cidade e espevitaram moda e arte. A Rua do Século encheu para ver "o último grito".

O desfile improvisado no Largo do Chafariz, à Rua do Século, foi classificado como "louquíssimo" nos jornais do dia seguinte.

Diário Popular, 19 de maio de 1986

Autor
  • Catarina Moura

Na capa do Diário de Notícias lê-se que alguns “milhares de jovens” estiveram na Rua do Século para ver “estilistas de todos os gostos”. Hoje prefere-se a designação “designer de moda” e dizer passagens de modelos caiu em desuso — são desfiles. A 17 de maio de 1986, junto ao Largo do Chafariz, em Lisboa, estavam todas estas expressões em bruto, somadas à vontade de ocupar e agitar a cidade, fazer alguma coisa com uma capital acabada de entrar na CEE mas onde não acontecia nada — havia poucos fenómenos culturais e muitos edifícios vazios à espera de movimento. Na passerelle quase improvisada passaram criações para além da moda — um desfile que alguns disseram louco e que se haveria de tornar mítico. Em Portugal, a moda cresceu no caminho da profissionalização e é um assunto sério; há 30 anos foi uma manobra.

Durante a tarde e a noite de dia 17, um sábado, a Rua do Século esteve congestionada para ver aquilo que o Diário Popular descreveu como “louquíssimo!”, em destaque. Um palco atravessava o largo e passavam pessoas como manequins profissionais, mas muito mais livres e ousados, sem o minimalismo do entra e sai da passerelle. Interagiam uns com os outros em expressões teatrais e as criações que usavam iam muito além das que hoje rotulamos como wearable, ou “vestíveis”. Escolhiam uma música e ao som dela se apresentavam não só designers — não era preciso sê-lo ou ter uma coleção para estar nas Manobras de Maio. Bastava ter-se inscrito numa das lojas dessa rua, a Manobra, e respeitar a ordem atribuída no espetáculo.

O nome da loja que batizou o desfile foi dado por Manuel Tavares, jornalista da época no Expresso. Na tal loja, de Mariana Cachulo, vendia-se (e fazia-se) de tudo um pouco, desde as roupas de Lena Aires, às cerâmicas de Manuel da Bernarda. Era uma galeria e um espaço onde se organizavam de vez em quando jantares, e ainda um atelier onde Filipe Faísca, acabado de chegar a Lisboa para estudar na António Arroio, trabalhava ligações entre o traje alentejano e a roupa do dia-a-dia dos anos 80, lembra Mariana Cachulo, fundadora das Manobras juntamente com o ator João Romão e a designer Rita Lopes Alves. “Estávamos a pensar na loja e o Manuel [Tavares] dizia ‘isto aqui é muita mão-de-obra’. Mão-de-obra — Manobra.”

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Pormenor da capa do Diário de Notícias de 18 de maio de 1986.

Recordar este lugar e as Manobras de Maio nos anos 80 — os desfiles repetiram-se com intermitências entre os anos 80 e 2000 — é convocar a dinâmica lisboeta em que artistas e intelectuais se conheciam no Bairro Alto, em especial no Frágil, e estavam permanentemente em diálogo, uma vivência que “obrigava a ter ideias” e provocava a vontade de fazer qualquer coisa, diz Mariana Cachulo ao Observador. Lisboa era pequena, não existiam as lojas ou restaurantes a repetirem-se pela cidade vezes sem conta, sempre com o mesmo conceito e a vender a mesma coisa, muito menos os grandes centros comerciais. O que funcionava era o boca-a-boca. Foi assim que se encheu o largo que os jornais dos dias seguintes mostram ter estado completamente lotado.

No palco, os conjuntos de criações apresentados eram dos novos criadores — nem todos de moda, alguns do teatro ou da música — a maioria, ainda alunos de escolas de arte. Era “o último grito”, escreve o DN, que tirava as suas conclusões: os trintões, “velhotes”, só vestiam “monos”, e os mais novos eram donos da moda como forma de expressão. “’Velhos’ de 30 anos ‘não sabem vestir’ e jovens mostram como é.”

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Diário Popular, 19 de maio de 1986

“Eu não te dizia que anda tudo maluco?”

Filipe Faísca participou nesse primeiro ano de Manobras e em outras três edições e lembra como o evento foi importante para tornar a moda mais “arty e pública”, abrindo à rua uma passerelle de ideias novas, contra-corrente e interventivas, numa altura em que os desfiles eram “elitistas”, confinados ao Ritz e ao Coliseu e às criações de Ana Salazar, José Carlos ou Manuela Gonçalves. “As pessoas na altura viam a moda como uma palhaçada, foram os primórdios. É claro que algumas pessoas não teriam uma educação artística ou referências para perceber aquilo. Muitas perguntas eram ‘mas isto é para usar quando?’, ‘isto é para ir assim para a rua?’. Mas foi preciso surgirem estas perguntas”, diz o designer de moda que em 1986 apresentou cinco criações todas em algodão preto.

As interrogações que Filipe Faísca recorda casam com as que abrem o artigo do Diário Popular dois dias depois da estreia: “Eu não te dizia que anda tudo maluco?…’ — comenta ele, já um homem maduro, para ela, de ar modesto e enrugado. ‘Como querem que este país ande para a frente? Se isto acontecesse lá na terra, ainda se arriscavam levar uma sova.” Só o desfecho da conversa entre o casal não está de acordo com a experiência de Faísca. A proximidade entre quem subia à passerelle e o público era total — não havia grades ou outro tipo de proteções, e a maior parte do público estava de pé, as pessoas comprimidas umas contra as outras. Haveria oportunidade para problemas, mas nunca aconteceu.

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Diário Popular, 19 de maio de 1986

“Quando saíamos do palco vinham famílias de pais e filhos pedir-nos autógrafos. Descíamos do palco e estávamos logo a ser assediados,” diz o designer que lembra o ano em que mudou a sua apresentação nas Manobras, no início dos anos 90: um único modelo vestia todas as suas criações em camadas, que ia despindo durante a apresentação. No fundo era um striptease que ninguém quis concretizar, nem nenhum dos amigos, nem em agências de modelos. Acabou por ser o próprio Filipe Faísca a fazê-lo, e nesse dia recebeu “uma reação extraordinária”: “Uma rapariga veio ter comigo e disse-me ‘como é possível ser-se tão masculino e tão feminino ao mesmo tempo” — uma afirmação que continua a ser chave no trabalho do criador.

Nós nem tínhamos consciência”, comenta Mariana Cachulo, que hoje trabalha com a Santa Casa da Misericórdia. “Houve um ano em que fizemos as Manobras à noite no Mercado da Ribeira. Os vendedores das bancas ficaram todas contentes; não havia bancos para o público e deram-nos os caixotes das frutas para as pessoas se sentarem. As bancas estavam cheias de coisas — as balanças, as facas — podia ter corrido tudo mal, mas nunca correu”, recorda com um certo maravilhamento pela época em que procurou o disruptivo e o contra-corrente. “Uma vez, um grupo quis fazer umas contra-manobras, com uma intervenção com uma grua. Ótimo!”

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Correio da Manhã, 18 de maio de 1986

O Correio da Manhã falava de um dia em que ninguém teve preconceito de expressar livremente a sua individualidade, fora de preocupações com o que é comercial ou usável: “Cada um, criador ou manequim, poderia dizer ‘aqui estou, tal como sou, e mostro-me com gosto!’ Os pés, descalços, de sapatilhas ou ténis pintados, sandálias ou sapatos de salto ou de plástico davam passos igualmente orgulhosos.”

“Estávamos a afirmar uma noção de moda que não existia em Portugal, estávamos a afirmar a nossa linguagem. Além de fazer roupa estávamos a criar uma gramática e a ensaiar um património visual que tinha de ser trabalhado em todos os campos — através da roupa, da fotografia, dos textos”, explica Eduarda Abbondaza, hoje diretora da Moda Lisboa, em 1986 aluna de Design de Moda em Milão. Estava em Lisboa e entrou nas Manobras em trio com Mário Matos Ribeiro (com quem fundou a Moda Lisboa) e com José António Tenente. Batizaram-se Companhia dos Lobos e escreveram um programa com intensões de manifesto: “Cada um procura exibir aquele mosaico de informações visíveis chamado ‘look’ — uma arte que serve para comunicar rapidamente, com uma mensagem codificada, a própria identidade.”

Para Mariana Cachulo, a roupa era o teatro do dia-a-dia e isso era “muito forte na altura. Era muito bonito sair à noite e ver como toda a gente se vestia”. Por outro lado, no espaço das Manobras, “a moda surge não como ‘a roupinha’, mas como vestir arte”, afirma a fundadora.

Isto era intuitivo, diz Abbondanza, que reforça a experimentação como central nestes trabalhos — uma experimentação produtiva e consciente da parte de cada um, que sabia o que queria do seu trabalho. “Não era um trabalho hedonístico, havia uma grande energia para criar algo para os outros.” Mariana Cachulo frisa, no mesmo sentido, que cada apresentação que subiu à passarelle foi muito pensada, com uma história própria, fruto de “uma geração muito politizada e educada, com imensa coisa para dizer”.

Não só cada criação, guião sonoro e coreografia que subia à passerelle procurava produzir significados, mas também o ato de fundar as Manobras de Maio foi refletido — Filipe Faísca recorda as tardes passadas na loja de Mariana Cachulo a discutir e planear, a “tentar quebrar fronteiras”, enquanto iam passando outros artistas para conversar, para se inscrever ou mesmo para criar, de um momento para o outro, mais uma manobra.

Nus, de calças na mão

Uma das imagens mais marcantes que Alexandra Moura tem das Manobras, nos anos 90, é a de um grupo de homens completamente nus, de calças na mão. Uma referência ao tempo de crise mas também uma afirmação do corpo naquele cenário: “A roupa é importante, mas sem o corpo não existe” — ficou marcado para a designer que hoje se apresenta regularmente na Moda Lisboa.

Alexandra Moura é de uma geração de criadores posterior, que olha para a de Filipe Faísca com admiração e respeito. Também participou nas Manobras, mas em 1995, quando o evento tinha já a sua aura construída como lugar do espírito avant garde. Teve de apresentar um portefólio e viveu o medo de não ser escolhida. Submeteu a coleção de final de curso, inspirada em Oscar Wilde, com muitas rendas, veludos e girassóis, o símbolo do escritor vitoriano.

Numa época em que não havia internet e havia poucas revistas no país, as Manobras mostraram à criadora novas visões e ideias, e isso converteu-se numa confiança em ousar, “não ter medo de ser diferente” — isso era o mais valorizado, especialmente por João Romão, que Alexandra Moura lembra como um grande impulsionador da novidade que cada participante tinha para trazer.

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Diário Popular, 19 de maio de 1986

“Toda a gente respeitava o nosso trabalho”, diz a designer, lembrando que a isto se acrescentava uma distância romantizada, um respeito pelos anos de trabalho, face a nomes como José António Tenente ou Ana Salazar, que apareciam nas Manobras. “Estar ali significava ser aceite naquele circuito artístico, a que queria pertencer porque falava a minha linguagem. No fundo, eles olhavam para nós e pensavam ‘se estás aqui é porque também não és boa da cabeça”, explica Alexandra.

Este evento com carisma era sobretudo um espaço democrático, uma festa de rua. Quem quisesse podia ver e discutir. “Para muita gente deve ter sido o dia em que os malucos saíram à rua, mas até isso era positivo, ajudava a cultivar um gosto. Tenho a certeza que toda a gente que assistiu às Manobras não esqueceu”, diz Alexandra Moura, acrescentando que não passou o tempo deste tipo de intervenção, porque nunca passa o tempo da exposição de um trabalho artístico “de uma forma pura, sem preconceitos”.

Mariana Cachulo vê as Manobras como um evento que pertenceu ao seu tempo, em que a cidade e as dinâmicas da indústria eram outras — poucas escolas, dificuldade de entrada na indústria e uma semana da Moda de Lisboa que só chegou em 1991. “Era preciso outro evento que fosse tão disruptivo como foram as Manobras na sua altura”, diz. A falta de apoios e parceiros — o improviso que dava uma certa magia e carolice ao evento — foi fatal. Mariana Cachulo fala ainda de um boom criativo que foi desaparecendo e que agora encontra outros lugares de expressão.

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Manobras de Maio de 1987: o designer de moda Nuno Gama desfila com as criações de um colega de curso.

O aparecimento da Moda Lisboa não tira, durante muitos anos, o lugar às Manobras de Maio, já que os seus formatos são completamente distintos — o primeiro, uma semana da moda profissional, o segundo, um lugar para a experimentação dos novos talentos, aberto a todas as áreas criativas. As Manobras foram um laboratório, um momento para a compreensão de que uma certa performatividade é necessária e de que a moda pode ser multidisciplinar. Nesse sentido foram uma antecâmara do período que se seguiu, com a Moda Lisboa e o Portugal Fashion (1995). “Como vinham pessoas do país inteiro para as Manobras, deu para ficar a conhecer um conjunto de pessoas que podia vir a dar frutos na moda”, diz Eduarda Abbondanza, lembrando que muitos dos modelos que participavam eram amigos de quem assinava as intervenções e, por isso, tanto podiam ser a Inês de Medeiros como os Heróis do Mar.

Nos anos 90, as Manobras eram famosas em alguns meios internacionais: a BBC telefonava a pedir o nome da modelo que passava no vídeo no minuto tal; a Marie Claire dava uma série de páginas ao evento português que naquele ano se realizava no Lux; a TV Galicia era sempre a primeira a chegar. Muito antes disso, em 1986, a estreia apareceu nuns quanto diários nacionais e só depois de ultrapassar várias burocracias, como uma autorização semelhante à que se pede para a realização de uma manifestação. A recompensa foi grande, mas “houve algumas intervenções que foram uma seca”, confessa Mariana. No total foram apresentadas 42 “maneiras de nos vestirmos que não conhecemos”, como dizia o programa. Durou até à noite e, a seguir, foram quase todos para o Frágil.

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