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E depois do divórcio. Manual de instruções para uma separação feliz

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Antes de saber quem fica com a casa, o carro ou o cão, há outras coisas a ter em conta. Elizabete Agostinho reúne no livro "Divórcio Feliz" várias instruções para quem passa por uma separação.

Não tomar decisões de cabeça quente e ter cuidado com o que se diz são alguns conselhos da autora.

mofles/iStock

Não acontece a todos, mas acontece a sete em cada dez casamentos. O divórcio — e a separação a ele associado –, já não é um estigma e por estes dias corre até o risco de estar banalizado. Mas por mais comum que possa ser, nunca deixa de ser um processo difícil. Que o diga a jornalista Elizabete Agostinho, autora do recém-lançado livro Feliz Divórcio.

A obra que chegou esta quinta-feira às livrarias do país surgiu do próprio divórcio da autora que, perante um processo emocional desgastante, encontrou pouca informação que a pudesse ajudar. “Comecei a ler muito na altura e cheguei à conclusão que havia muito poucas coisas escritas sobre o divórcio de uma forma honesta”, conta ao Observador. Assim, Elizabete lançou-se às páginas em branco para nelas escrever o que gostaria de ter sabido antes de entrar no mundo do divórcio, sendo que à pesquisa exaustiva juntou 20 testemunhos reais de pessoas de diferentes idades, todas divorciadas. “Quando chegámos ao fim achei que, de facto, este era um manual de instruções.”

A pensar precisamente nisso, perguntámos a Elizabete Agostinho quais as instruções para que qualquer pessoa consiga alcançar uma separação mais feliz, até porque não é com a assinatura num papel que ex-maridos e ex-mulheres desaparecem completamente da vida uns dos outros, pelo que o importante é mesmo cultivar boas (ex)relações.

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Elizabete Agostinho é jornalista e tradutora. Foto: Neusa Ayres

Não tomar decisões de cabeça quente

Mesmo numa separação de mútuo acordo, em que ambos chegam à derradeira decisão em conjunto, existem momentos de tensão, garante Elizabete Agostinho. Isto acontece porque há sempre coisas a definir, o que obriga a uma convivência forçada — apesar dos laços emocionais desvanecidos, o ex-casal tem de continuar a conviver um com o outro de modo a acertar o que precisa de ser acertado. É precisamente nessa altura que qualquer assunto, por mais pequeno que seja, tem o potencial de provocar uma guerra (sim, até mesmo a velha enciclopédia que ninguém usa, adquirida há uns bons dez anos).

O truque é, então, gerir emoções e saber definir o que é realmente importante do que não o é, evitando entrar em guerras de poder. “O que os testemunhos referem é que existe um sentimento de fracasso por não terem conseguido alcançar aquela imagem tradicional da família, o conto de fadas. As pessoas estão, por isso, inevitavelmente magoadas, nem que seja com elas próprias. E estando magoadas e fragilizadas, mais facilmente podem revelar a pior parte de si”, explica a jornalista e escritora.

Alimentar a lei da reciprocidade

Aqui entra a velha máxima de “não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti”. A ideia é simples, embora o mesmo não se possa dizer da sua aplicação: de cada vez que um dos membros do ex-casal tiver pensamentos menos positivos, o importante é pensar na forma como gostaria que o outro reagisse caso a situação fosse inversa. Isto é especialmente importante tendo em conta que, segundo a autora, quem passa pelo processo de divórcio acha que no dia em que assina os respetivos papéis nunca mais põe os olhos em cima do ex-parceiro/a. “As pessoas acham que é um ‘hasta la vista‘ mas, sobretudo para quem tem filhos, é quase um ‘até amanhã’. Quando os filhos são pequenos o mais provável é que o ex-casal se veja constantemente. Mais vale terem a noção de que vai existir convivência até à morte, porque até quando os filhos se casarem ou forem pais, os ex vão continuar a cruzar-se.” É por esse motivo que o fundamental é criar laços saudáveis como base para a construção de uma nova relação, a de ex-casal.

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O livro foi editado pela Guerra e Paz e custa 15,50€.

Ter cuidado com o que diz nesta altura

“Um divórcio não é só entre duas pessoas, mas também entre duas famílias”, começa por afirmar Elizabete Agostinho. Após o anúncio do divórcio, o mais provável é que as pessoas à volta do ex-casal queiram saber o que aconteceu. Isto é particularmente verdade entre os membros da família mais próxima, que caem na tentação de tentar encontrar um culpado — afinal, quem é que tomou a decisão e quem é que fez o quê? É fácil de compreender que nesta fase seja preciso um cuidado redobrado tendo em conta o que se diz, nem seja porque, em última análise, é imperativo construir a nova relação de ex-casal e porque a família imediata vai continuar a fazer parte desta triangulação. Preto no branco, o conselho passa por não deixar que terceiros interfiram em questões mais delicadas.

A procura de motivos que levaram ao fim do casamento por parte de quem rodeia o ex-casal faz com que, nestas circunstâncias, quem está no papel de vítima tenha a vida um pouco mais facilitada — e sim, é muito mais difícil quando não há causas específicas ou quando a pessoa não se quer explicar. “É uma gestão que se tem de fazer, é preciso pensar o que se quer dizer e a quem.” Nesse registo, a autora reforça ainda que os amigos estão lá para o que for, independentemente de quem tiver decido o quê. Mas há mais: “Uma tendência após o divórcio é procurar novos amigos, pessoas que não conheçam a nossa história e que não façam juízos de valor.” E quando em causa está um casal que se divorcia depois de décadas de união, Elizabete diz que tal implica “toda uma nova construção da vida social”.

Deixar os filhos longe do epicentro do divórcio

Elisabete escreve no livro que os filhos são os verdadeiros protagonistas do divórcio. Apesar disso, defende a pés juntos que os mais novos não precisam de saber os pormenores da separação: “Uma criança de cinco anos, por exemplo, só precisa de saber que o pai e a mãe já não vão viver juntos e mais nada”, adianta. Mas antes de chegar aos pormenores (ou falta deles), uma das dúvidas mais comuns é saber como transmitir a notícia do divórcio. Sobre isso, a autora argumenta que os pais devem transmitir a mensagem juntos, de forma calma, quando têm a certeza de que aquela é a decisão final. De seguida, importa fazê-los entender que, apesar de o casal já não estar junto, os filhos vão ser sempre amados.

A autora realça também que um dos erros mais comuns é usar as crianças como instrumentos de vingança e represálias, além de mensageiros — escusado será dizer que essa não é a melhor abordagem.

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A autora consulta a obra final. Foto: Neusa Ayres

Reaprender a viver sozinho/a e a gostar de si o mais depressa possível

As fases do divórcio

A autora do livro Feliz Divórcio cita Sheila Kessler para explicar que o processo do divórcio pode distribuir-se em sete fases:

  • a desilusão, que corresponde ao momento em que nos apercebemos que a pessoa que temos ao nosso lado não representa exatamente aquilo com que tínhamos sonhado;
  • a erosão, que a autora define como a fase em que a desilusão começa a manifestar-se na forma de críticas constantes, agressões ou desprezo;
  • a desvinculação, isto é, a separação emocional;
  • a separação física em si;
  • o luto, sendo que o processo é idêntico ao luto pela morte de alguém;
  • a segunda adolescência, como quem diz o regresso à juventude associado à sensação de liberdade e procura de novos amigos e hobbies;
  • a readaptação, o último estágio do processo, onde a pessoa já consegue encontrar tranquilidade.

Ponto número um: há várias fases após uma separação, luto e segunda adolescência incluídas. Ponto número dois: é preciso sempre considerar a personalidade de cada um. Ponto número três, quem fez o quê — ou seja, quem tomou a decisão carrega às costas um sentimento de culpa e quem foi apanhado de surpresa tem todo um trabalho de autoestima a fazer. Dito isto, “não há fórmulas mágicas e este é um processo individual”.

Elizabete esclarece ainda, apoiada em leituras científicas, que o primeiro ano após o divórcio deve ser encarado como uma oportunidade para organizar o passado, como quem diz resolver questões pendentes. Só depois começa o trabalho virado para o futuro. “O ser humano está habituado a rotinas e, neste caso, vai ter de recomeçar do zero. Em muitos casos é preciso mudar de casa ou encontrar uma nova dinâmica familiar, caso haja filhos à mistura. A vida altera-se drasticamente e há uma adaptação a uma nova série de coisas novas. Convém fazê-lo com alguma tranquilidade e paz de espírito.”

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