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Mercados Financeiros

Portugal visto pelos mercados: “Um país à beira de uma crise”, diz o Commerzbank

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Com Mário Centeno a pedir aos estrangeiros que invistam em Portugal, economistas do Commerzbank partilham com os seus clientes um retrato muito negativo da realidade e da "constelação de governo".

AFP/Getty Images

O Commerzbank critica duramente o governo liderado por António Costa, em nota de investimento partilhada esta quinta-feira com os clientes. Com vários responsáveis do governo, incluindo Mário Centeno, a pedirem aos investidores estrangeiros que invistam em Portugal, aqueles que lerem o relatório do influente banco de investimento alemão irão ver uma descrição de um país “à beira da crise” e com um governo cuja estratégia de “marcha atrás” nas reformas ameaça “os progressos dos últimos anos” e “provavelmente” levará o país para outra crise económica.

A dívida portuguesa tem estado sob pressão nas últimas semanas, algo para que tem contribuído fatores de incerteza internacional como o referendo britânico e as eleições espanholas. Mas, em nota enviada esta quinta-feira aos clientes e obtida pelo Observador, o alemão Commerzbank afirma que, numa perspetiva geral, “o fator que mais pesa nas cotações da dívida pública portuguesa, neste momento, é, sem dúvida, a inversão de marcha na política económica que o novo governo está a realizar”. Este é um fator que, na opinião do banco alemão, “ameaça os progressos que Portugal fez nos últimos anos“.

Em particular, o Commerzbank partilha com os seus clientes a preocupação com a “perda de competitividade“, algo que “tinha melhorado muito nos últimos anos”. O banco nota que os ganhos de competitividade dos últimos anos tinham permitido “às empresas portuguesas aumentar as suas quotas de mercado, aumentar as margens de lucro das empresas, dinamizar os seus investimentos e, portanto, foram decisivos para apoiar a recuperação sustentada dos últimos anos”.

“Agora, prevê-se que os custos unitários do trabalho voltem a subir de forma significativa nos próximos trimestres”, diz o Commerzbank. Isto porque, recordam os economistas, o salário mínimo foi aumentado em 5% no início do ano, com aumentos de mais 13% previstos para os próximos três anos. O banco assinala, ainda, outras medidas como as 35 horas na Função Pública, o regresso dos quatro feriados e a provável recuperação dos três dias de férias adicionais para quem não falta ao trabalho.

Claramente o novo governo não vê a liberalização e a menor regulação como a forma correta de recuperar a economia do país. Ao invés, prefere uma política expansionista com um aumento do papel do Estado na economia”.

Em finais de outubro de 2014, o mesmo Commerzbank emitia uma nota semelhante a esta em que dizia que Portugal estava “a mostrar [aos outros países] qual é o caminho”. Mas já no início deste ano descrevia Portugal como “a nova criança problemática da zona euro“. O relatório é assinado pelos economistas Ralph Solveen e Jörg Krämer, o economista-chefe do Commerzbank.

Commerzbank pouco confiante de que o governo mude de estratégia

Nesta nota divulgada esta quinta-feira, o banco alemão assinala o recuo na privatização da TAP (em que o Estado voltou a ter 50%) e, no que diz respeito ao investimento, “também este se prevê ser estimulado sobretudo graças a apoios públicos, com todas as esperanças concentradas no programa de investimentos iniciado pela Comissão Juncker”.

O Commerzbank avisa, contudo: “A experiência anterior com tentativas similares, em outros países, torna pouco provável que este caminho resulte em sucesso“. “Existe, na realidade, um risco de que Portugal volte a sofrer um declínio económico, no seio da zona euro, devido aos seus muitos problemas estruturais, como por exemplo as baixas qualificações da sua força laboral”.

O banco alemão lamenta, finalmente, que não esteja em perspetiva (“neste momento”) que “a constelação” de partidos no governo — “um governo minoritário socialista tolerado por dois partidos de esquerda” — acabe com a marcha atrás na política económica. Essa expectativa do Commerzbank, partilhada com os clientes, associada ao risco de perda do rating da DBRS, faz com que Portugal viva “com uma espada de Dâmocles” em cima da cabeça: o segundo resgate.

Economia crescerá, “no melhor dos cenários”, 1%

Ralph Solveen e Jörg Krämer dizem, numa análise à prestação económica, que “a economia perdeu, claramente, ritmo” ainda em 2015 e “o que é particularmente preocupante é o fraco desempenho do investimento”. A “descida da taxa de desemprego também abrandou de forma notória desde meados do ano passado”, acrescenta o Commerzbank. Finalmente, o banco lamenta que “as exportações tenham abrandado de forma significativa” e que, “nesta altura a única coisa que resta para suportar o crescimento é o consumo privado”.

Contudo, esse aumento do consumo privado “já não se baseia numa descida do desemprego, como foi no passado, mas sim em efeitos de curto prazo como a descida dos preços do petróleo, a subida do salário mínimo e o aumento dos salários na função pública.

O “principal fator negativo” que penaliza a imagem de Portugal lá fora, contudo, diz o Commerzbank, a “marcha atrás nas políticas económicas”.

Além disso, o banco alemão salienta as dúvidas em torno da execução orçamental. “No melhor dos cenários, a economia parece caminhar para um crescimento de 1%, enquanto o governo baseia o seu orçamento num crescimento de 1,8%”, diz o Commerzbank. O cumprimento das metas acordadas com a Comissão Europeia parece “muito questionável”.

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