Rio 2016

Usain Bolt. O monstro não precisa de amigos

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Bolt nasceu o melhor. E cresceu o melhor: a correr, foi melhor na escola primária, no liceu. O problema de Bolt foi não querer nada com o atletismo. Era desregrado. Desligado. Mas ligou-se a tempo.

Quando Usain Bolt assim celebra no final, como um relâmpago (não é por acaso que tem a alcunha de "Lightning Bolt"), é sinal de que terá mais ouro ao peito

Ian Walton/Getty Images

É diferente. Quando entra no estádio e os pés tocam o tartan, Usain Bolt — ao contrário dos atletas em redor — aparenta estar desconcentrado a instantes de começar a correr, vai interagindo com o público logo que “Uuuuusain Booooolt” é entoado nos altifalantes do estádio, olha para a câmara que o filma de frente — e que o filma mais a ele que aos restantes –, pisca-lhe o olho, sorri provocatoriamente, desvia o olhar. Depois, benze-se. E curva-se. Agachado no chão, coloca os polegares e indicadores sobre a linha de partida, sacode os pés — e o nervosismo –, os olhos estão lá adiante na meta, e é ela que alcança (antes de tudo e todos; às vezes do que dele próprio, ultrapassando recordes que estabeleceu e deixam de o ser) em brevíssimos segundos. Depois, vencida a prova, ergue o braço esquerdo no ar, indicador estendido, o outro braço, mais atrás, estica-se e aponta ao céu também, os dois lembram-nos um arco e uma flecha, mas o que são é um relâmpago. Ou não fosse ele Lightning Bolt de alcunha. Veloz como um.

Bolt é um entertainer. Às vezes demasiado. E quando é em demasia, e mesmo vencendo como vence, não faz amizades entre os seus. O público (mesmo aquele que habitualmente não segue atletismo) venera-o. Vai aos estádios para o ver correr. Na Jamaica é um ídolo como Bob Marley foi. Ou até maior, pelo menos para as gerações deste século. Mas no atletismo há quem não o suporte. Ou, pelo menos, não lhe suporte a pose altiva, até arrogante na vitória. Nas vitórias. Eis um exemplo de como a arrogância é mal aceite: em 2008, nos Jogos Olímpicos que a China e Pequim acolheram, Bolt venceu a final dos 100 metros — e venceu em 9.69 segundos, estabelecendo um recorde mundial. O problema é que Bolt, mesmo vencendo, mesmo recordista como foi, abrandou nos últimos metros da corrida, celebrando antes da meta, de mão no peito, a bater no peito. O presidente do Comité Olímpico Internacional, Jacques Rogge, foi duro para com Bolt e considerou o gesto “desrespeitoso”. Bolt negou que o tenha sido: “Não estava a vangloriar-me. Estava feliz. Apenas isso.”

Porque é que Bolt tem uma pose altiva? Talvez por ser o melhor. Nunca um velocista venceu seis medalhas de ouro em somente duas participações olímpicas. Aliás: nunca um velocista venceu seis medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos, ponto. Às medalhas em Mundiais, Bolt perdeu a conta. E aos melhores, perdoa-se-lhes a altivez. Porque é que Bolt tem uma pose altiva? Talvez por ser o mais bem pago entre os mais bem pagos do atletismo. Segundo a revista Forbes, recebe anualmente quase 33 milhões de dólares. E é o 32.º desportista mais bem pago da atualidade — para um desporto que não gera as receitas do futebol, automobilismo, pugilismo ou basquetebol, não está mal. Sim, perdoa-se-lhe a altivez. Afinal, é apenas uma couraça que criou.

É que Usain Bolt não foi sempre o melhor. Por culpa sua e não por ausência de talento. Por culpa das lesões, que são culpa da vida desregrada que outrora levou. Bolt não quis durante muito tempo, na infância e começo da adolescência, nada com o atletismo. Os ídolos tinha-os no futebol — Ruud van Nistelrooy e o Manchetser United — e, surpreendentemente, no cricket — a seleção do Paquistão e Waqar Younis. Bolt só se tornou o melhor, só se voltou ao atletismo de vez e por inteiro, quando perdeu. Quando percebeu que ter talento não é o suficiente para vencer; é preciso treinar, arduamente, todos os dias, mais do que os demais. E Bolt treinou. E fez-se o homem mais veloz de todos os tempos. Quem sabe, por todos os tempos.

A infância: hiperativo, detido, boémio — e quase se perdeu Usain

Usain St. Leo Bolt. Ou apenas Usain. Nasceu a 21 de agosto de 1986. E foi nado e criado em Sherwood, uma pequena aldeia em Trelawny, na Jamaica, mas longe da capital Kingston e do reboliço citadino. Usain é filho de Wellesley e Jennifer Bolt, ele merceeiro, ela doméstica, ele pai austero, ela mãe complacente, pobres os dois. Irmãos, Usain teve um par: Sadiki, rapaz, e Sherine, rapariga. Nenhum era como ele. Usain era tudo o que hoje é, sorridente, provocador, veloz. E contou na sua biografia, depois de uma ida ao médico pela mão da mãe Jennifer: “Eu estava em todo o lado, sempre a trepar para sítios. A minha mãe disse: ‘Tem que haver algo de errado com este miúdo!’ E o médico respondeu-lhe: “Não, é apenas hiperativo.'”

Apesar de preferir o cricket a qualquer outro desporto, Bolt começou cedo a correr. Foi na escola primária, em Waldensia. E pouco depois de começar a correr, venceu um meeting de escolas primárias na Jamaica. Com todas as escolas do país. Mais de 20 mil crianças a competir com Bolt. E ele venceu os 100 metros. Folgadamente. Tinha 12 anos. Depois, já no liceu William Knibb, mais corridas, outras tantas vitórias. O professor Dwight Barnett, que treinou Bolt em William Knibb, confessaria mais tarde, gracejando: “Às vezes, ficava a olhar para o cronómetro e pensava: ‘Está algo de errado com este relógio; nenhum miúdo pode ser assim tão veloz!”

Mas, ao contrário do que aconteceu na escola primária, Bolt não venceu o meeting anual dos liceus jamaicanos. Foi segundo nos 200 metros, tendo terminado em 22.04 segundos. Daí em diante, passaria a ser treinador pelo antigo velocista olímpico Pablo McNeil. McNeil comprometeu-se a fazer de Bolt o melhor. Mas não conseguiu. Pelo menos no começo. Em 2001, Bolt competiu nos CARIFTA, os campeonatos regionais no Caribe, e voltou a ser medalha de prata. Faltava-lhe o empenho nos treinos para chegar ao ouro. Mas a verdade é que, mesmo displicente a treinar, melhorou o tempo nos 200 metros: 21.81 segundos. Bolt e McNeil queriam mais do que o Caribe. Queriam o mundo. E Bolt foi competir ao Mundial de esperanças, na Hungria. Nem às finais chegou. Mas, ainda assim, voltou a melhorar o recorde pessoal: 21.73 segundos. Estávamos em 2001.

A primeira vitória, o primeiro ouro “a sério” e não somente na escola, chegaria em 2002, na segunda aparição de Bolt nos CARIFTA. Mas, sendo Bolt como é, a competição haveria de começar mal. O rapaz desapareceu. Não foi ao treino na véspera da final dos 200 metros. A polícia procurou-o por toda a parte. E haveria de encontrá-lo no porta-bagagens de uma carrinha, escondido. Por ter falseado o seu próprio rapto, foi detido. E libertado a tempo de vencer as finais de 100 e 200 metros. Mais do que vencer, estabeleceu recordes: 21.12 e 47.33 segundos, respetivamente. Mas o episódio — a que Bolt chamou uma “brincadeira” — manchou a sua reputação na Jamaica. E manchou mais ainda a do treinador Pablo McNeil, que deixaria de treinar Bolt pouco depois, acusado de ter falta de pulso sobre ele.

O primeiro Mundial em que participou, o de esperanças, correu-lhe mal. Mas o segundo, Mundial de juniores, era “em casa”, em Kingston e na Jamaica. Bolt tinha que vencer. Apesar de ter apenas 15 anos — medindo 1,96 cm, aparentava ser mais velho do que na realidade era –, tinha que vencer. E venceu nos 200 metros, tirando 0.03 segundos ao seu anterior recorde. Nunca um atleta tão novo venceu uma medalha de ouro no Mundial de juniores. E Bolt até correu a final com os ténis trocados, o direito no esquerdo, o esquerdo no direito, tal era o nervosismo.

Bolt era, por fim e pela primeira vez, o melhor entre os melhores do mundo. Mas continuava a cometer excessos fora das pistas. Desde logo na alimentação, confesso “garfo” que era de fast food e de asinhas de frango fritas. Mas também na boémia, divertindo-se a dançar em discotecas até ser dia. Pior: Bolt faltava a treinos de atletismo para ir treinar… basquetebol. Bolt confiava em si. Demais. Sentia que era o melhor. Que mesmo não se esforçando, vencia. E deu-se mal. Quando foi à sua primeira competição entre seniores, um Mundial, em 2003, na cidade de Paris, nem chegou a competir. E tudo por causa de uma conjuntivite — a Federação jamaicana retirou-o da prova alegando isso mesmo: “conjuntivite”; mas as razões poderão ter sido os excessos que cometera na cidade luz.

Bolt olímpico, uma história precoce e de glória (ainda por terminar)

O primeiro Mundial foi desastroso para Bolt. Mas ele tinha uma ambição a curto prazo: mais do que o ganhar o ouro no Mundial, queria-o nos Jogos Olímpicos. E, enfim, trabalhou para atingir tal ambição. Mais do que nunca — e com Glen Mills como treinador, o mesmo que treinava Kim Collins ou Dwain Chambers. Em 2oo4 não foi ao Mundial de juniores por causa de uma lesão na perna. Mas fez parte da seleção olímpica da Jamaica que foi a Atenas2004. A lesão agravou-se e Bolt foi eliminado à primeira nos 200 metros. “Quero apagar de vez tudo o que se passou em Atenas. Vai voltar tudo ao seu lugar e vou vencer”, disse em 2005, na primeira prova que disputou depois dos Jogos Olímpicos: o Mundial, em Helsínquia. Não venceu. Foi último na final dos 200 metros. Mas Bolt tinha apenas 18 anos. E nunca ninguém tão novo chegou àquela final num Mundial.

Curiosamente, a primeira medalha (internacionalmente, claro, e entre seniores) para Bolt foi conquistada na cidade que queria “apagar de vez”, Atenas. Foi no Mundial, em 2006. Não foi ouro, mas prata, tendo terminado com 19.96 segundos, pertíssimo do norte-americano Wallace Spearmon. O treinador Geln Mills, depois de ver a final, chegou a uma conclusão: Bolt só não venceu porque tem uma má partida. E depois, mesmo que partindo à frente ou ganhando a dianteira, não tem a visão periférica para controlar os adversários que o perseguem. Bolt desacelerava no final.

No estádio da University of Technology, em Kingston, Bolt trabalhou a partida até à exaustão. Dias inteiros. Às vezes até ser noite. Valeu a pena: no Reebok Grand Prix, em Nova Iorque, venceu a medalha de ouro. Mais: foi recordista mundial dos 100 metros, tendo terminado em 9.72 segundos. Mais ainda: a partida, apesar da ventania que se fazia sentir, fê-la em 0.165 segundos. Estávamos em 2008.

E esse foi o ano em que Pequim acolheu os Jogos Olímpicos. Bolt queria competir em tudo: 100 e 200 metros, além da estafeta de 4×100 metros. E queria ouro. A final dos 100 metros (a tal em que desacelerou para celebrar antes da meta) venceu-a em 9.69 segundos. Se vencesse a dos 200 metros, igualaria o feito de Carl Lewis nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles; nunca outro velocista venceu as duas provas na mesma olimpíada. E Bolt venceu mesmo, em 19.30 segundos, a final dos 200 metros. Em qualquer das provas estabeleceu um recorde mundial. Mas o dos 200 metros foi épico: é que quem detinha esse recorde era tão-somente o lendário Michael Johnson, um recorde que perdurava desde Atlanta1996. Era tudo? Não. Ainda venceria a estafeta pela Jamaica, com Nesta Carter, Michael Frater e Asafa Powell. Ah, e com mais um recorde mundial: 37.10 segundos. Bolt tinha 22 anos. Apenas 22 anos.

Em 2012, nos Jogos Olímpicos que a cidade de Londres acolheu, Bolt tinha os olhos de todos sobre si. Desta vez, ao contrário do que acontecera em Kingston, na adolescência, não trocou o pé direito pelo esquerdo na hora de se calçar. Venceu. Tudo: 100 e 200 metros; estafeta de 4×100 metros. E estabeleceu outro recorde – o anterior pertencia-lhe –, o dos 100 metros, com 9.63 segundos. No final disse: “Agora, sou uma lenda. E sou o melhor atleta de sempre.”

Arrogante? Talvez. O melhor? Sem dúvida. E o melhor pode despedir-se dos Jogos Olímpicos no Rio2016. Com mais três medalhas e, quem sabe, três recordes. A reforma de Bolt está agendada para 2017 e para o Mundial de atletismo, em Londres. Depois, e com 30 anos, poderá, enfim, dedicar-se ao cricket. E a fazer amigos.

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