Videojogos

A Psicologia por trás da “febre” Pokémon GO

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O jogo Pokémon GO tem sido uma verdadeira "febre" nas últimas semanas. E como é que a Psicologia explica isto? O Rubber Chicken foi à procura de respostas.

Autor
  • Rubber Chicken

É difícil estar indiferente ao fenómeno Pokémon GO, um jogo de realidade aumentada para os smartphones criado pela Empresa Niantic, que foi buscar o conceito Pokémon iniciado em 1995 pela mente de Satoshi Tajiri.

É fácil lembrar as crianças na escola preocupadas em ver a série de anime, ter os tazos, cromos e staks do Pokémon, já para não falar nos videojogos de sucesso para Game Boy – onde tudo começou – Nintendo DS e todas os restantes portáteis da companhia. Este conceito sempre foi um sucesso para a comunidade, tendo-se tornado a segunda franquia de média de jogos mais lucrativa e bem sucedida do Mundo.

O novo jogo para smartphones Pokémon GO não poderia ser diferente, tendo conquistado em apenas 19 dias qualquer coisa como 50 milhões de downloads. Tornou-se assim, na semana lançamento, a app mais descarregada de sempre na App Store da Apple.

Mas o que torna o Pokémon GO tão apelativo?

Para responder a esta pergunta torna-se fundamental questionarmo-nos porque é que o Pokémon se tornou um conceito tão popular e como permaneceu ao longo do tempo.

Na Time afirmam que uma das respostas a esta questão se encontra, desde logo, no seu slogan de apresentação inicial “Apanhá-los todos” (“Gotta Catch’em all!”). Este slogan é um aliciante psicológico poderoso, que traz o desejo incessante de encontrar em cada Pokémon apanhado um êxtase de dopamina enorme. Traduzindo por miúdos, o ser humano move-se e motiva-se a partir do momento em que cria objetivos específicos de ação. Sendo assim, aquilo que, de modo inteligente, foi promovido pelo marketing de Pokémon, foi exatamente um objetivo simples e específico que motiva e direciona os jogadores a “apanhá-los todos”. Para os mais obsessivo-compulsivos este é também um fator determinante, já que estimula o possível desejo colecionador/organizador latente.

Um dos fatores motivacionais que, segundo investigadores da Universidade de Rochester, leva as pessoas a quererem jogar um videojogo é o quão esse jogo se interliga com o mundo real. Deste modo, quanto mais o jogo puder ser ligado ele, mais motivação irá trazer aos jogadores. Os jogos de Pokémon desde sempre trouxeram esta ligação ao mundo real, possibilitando desde o início a troca destas criaturas fictícias através das consolas e os combates de Pokémon entre jogadores. Sendo assim, tornava-se importante para as pessoas que jogavam terem “mais e melhores” Pokémon para poderem trocar e competir entre si.

O Pokémon sempre foi um conceito que agradou tanto a rapazes como raparigas, tendo criaturas e personagens principais com as quais todos os sexos, na generalidade, se poderiam identificar. Este facto tornava assim o conceito ainda mais apelativo e abrangente, criando um modelo temático no qual rapazes e raparigas poderiam ligar-se.

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O modelo de recompensa, base para todos os jogos de sucesso, é também aqui um fator importante e motivador, o qual se dá pela chegada a objetivos (a curto e longo prazo). A aquisição de itens úteis para a continuação do jogo, a aquisição de um novo Pokémon por meio de batalhas (como falado anteriormente), a evolução dos Pokémon para conseguir conquistar os ginásios e ganhar crachás, etc. são tudo objetivos e recompensas pelo trabalho do jogador, que o vão motivar a continuar a jogar.

Muitas mais serão com certeza as razões que levam os jogadores a ver no Pokémon um conceito apelativo, sendo muitas dessas razões subjetivas. Porém, Pokémon Go veio acrescentar a todas estas razões várias outras de extrema relevância: Pokémon GO intensificou a ligação do videojogo com o mundo real, trazendo os Pokémon para a rua! Tal possibilitou, por exemplo, a ida a uma zona da cidade que nunca se foi para se poder conquistar um ginásio poderoso, ou até mesmo para apanhar um Pokémon que ainda não se tinha. Este contacto entre realidade e videojogo de smartphone não é novo, porém foi um facto inovador na indústria do Pokémon.

Já existindo outros videojogos para smartphone do mesmo género de Pokémon GO, porque não tiveram esses videojogos sucesso e Pokémon GO teve? Apenas podemos especular, porém, é um facto que todo o background inerente ao conceito Pokémon teve e tem um grande peso. Tendo este conceito sido parte da vida de tantos jovens da década de 90, um dos fatores de maior relevância é a nostalgia existente.

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A nostalgia está ligada intimamente às memórias positivas que temos de determinada experiência no nosso passado. Se algo que passámos foi positivo, quando repetimos essa experiência, ou algo semelhante, tal irá trazer de volta emoções e sensações positivas. Deste modo, tendo o Pokémon feito parte do lazer e vida quotidiana de várias gerações, será natural que um reaparecimento inovador traga o desejo incessante de voltar a experienciar sensações e emoções do passado. Inclusive Clay Routledge, um especialista na área de Psicologia relativa à nostalgia, refere que não seria de surpreender que as pessoas estivessem a conseguir realizar novas amizades através do Pokémon GO, devido a terem memórias partilhadas e nostálgicas relativamente à vivência da “febre” Pokémon no seu passado.

A fácil acessibilidade ao jogo através dos dispositivos móveis é também um fator importante. O smartphone é um item essencial na vida diária de praticamente todas as pessoas do mundo ocidental. Deste modo, a facilidade de acesso ao jogo é algo aqui fundamental, para que exista também uma maior motivação para jogar.

Por último, e como corroborado por este artigo da NewStateman, o fator do desejo social é também determinante. Mesmo aqueles que não viveram a febre do Pokémon no passado, veem-se agora a querer compreender o que é afinal o Pokémon GO e como se joga, para poderem ir dar “uma volta” com os seus amigos, para estarem integrados. Já para não falar também dos pais que jogam com os filhos, arranjando motivos aliciantes para dar uns bons passeios.

Parece haver poucas dúvidas que este é um fenómeno que parece ter vindo para ficar, resta-nos apenas desejar que os consigam apanhá-los todos em segurança!

Maria João Andrade [Psicóloga Clínica], Rubber Chicken

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