O primeiro debate entre “os dois candidatos mais impopulares na história moderna”, como lhes chamou o The Wall Street Journal, foi marcado por acusações fortes tanto de Hillary Clinton como de Donald Trump. Não parece haver dúvidas de que foi a democrata quem levou a melhor, já que o republicano ficou várias vezes sem resposta e dependeu do improviso para tentar dar a volta a questões para as quais não se tinha preparado.

Três dos principais jornais dos Estados Unidos — The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal — dedicam os seus editoriais desta terça-feira à análise do debate. Os dois primeiros não têm dúvidas em atribuir a vitória a Hillary, acusando mesmo Trump de mentir durante a campanha. Já o The Wall Street Journal acusa o moderador, Lester Holt, da NBC, de ter sido mais duro com Trump do que com Hillary.

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The New York Times

“Noventa minutos nunca seriam suficientes para Trump redimir a sua candidatura, mesmo que, por algum milagre, ele o quisesse”, escreve o jornal nova-iorquino no editorial desta terça-feira. A posição do Times é a de que Trump “mentiu compulsivamente desde que entrou na corrida”, e voltou a fazê-lo esta segunda-feira, “repetindo, entre outras mentiras, a calúnia de que foi Clinton a inventar o movimento birther contra o Presidente Obama”.

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Já Hillary esteve melhor, defendendo-se bem dos ataques do republicano. “Fez as suas críticas, confiante, a partir de um terreno mais alto e mais seguro”. O jornal lamentou também alguma inércia do moderador, Lester Holt, que anunciou os temas predefinidos (…) e depois remeteu-se calmamente ao silêncio, enquanto Trump começou o ataque, culpando Clinton pelo Estado Islâmico, pela falta de empregos e pela globalização”.

O grande problema são mesmo os dois candidatos. “Um conjunto mais competente de candidatos às primárias talvez pudesse ter evitado isto. Um Partido Republicano responsável, consciente do interesse nacional, e não obcecado em ir contra o Presidente Obama, talvez o pudesse ter evitado”, escreve o jornal. “Numa era política melhor, ambos os partidos — e não apenas os democratas — teriam nomeado candidatos qualificados para responder às preocupações dos americanos”, remata o editorial.

The Washington Post

O jornal da capital americana segue na mesma linha do nova-iorquino, escrevendo, no editorial desta terça-feira, que “o processo das primárias republicanas falhou, produzindo um candidato que, de forma cínica ou ignorante, vende uma visão distorcida da realidade”. Para o The Washington Post, Donald Trump foi “incapaz de ir além dos seus slogans“.

O jornal acusa Trump de ter dado “desculpas falsas para recusar divulgar as suas declarações de impostos”. Já Clinton, por seu turno, “admitiu que errou ao usar um email privado, e não deu desculpas”, escreve o jornal, sublinhando a diferença na transparência entre o republicano e a democrata.

Mas Hillary também não esteve impecável, ao não ter chamado a atenção para todas as falhas do candidato republicano. “Podia, ao menos, ter apontado que os seus planos não iriam causar uma guerra comercial, ou uma recessão, como, acreditam os especialistas, os de Trump iriam”. Ainda assim, Trump não respondeu a Clinton quando esta lhe disse “que os seus planos iriam tornar a dívida federal muito maior”.

Em relação às tensões raciais, os dois candidatos tiveram (como ao longo de toda a campanha), posturas diferentes. “Trump fez um retrato negro de uma nação assustada”, e “Clinton ofereceu uma visão equilibrada”, considera o editorial do jornal de Washington.

The Wall Street Journal

O The Wall Street Journal escreve noutro sentido, deixando fortes críticas ao moderador do debate, Lester Holt. O jornalista da NBC “desafiou Trump em relação à sua afirmação dúbia de que se tinha oposto à guerra do Iraque antes da invasão, mas não confrontou Clinton em relação à sua afirmação falsa de que George W. Bush decidiu que os EUA deviam retirar do Iraque em 2011”, considera o editorial desta terça-feira do jornal económico, que chamou a Hillary e a Trump “os dois candidatos mais impopulares na história moderna”, e que estiveram “à altura dessas expectativas”.

Para o The Wall Street Journal, “Hillary Clinton fez um ataque implacável aos negócios de Donald Trump, e às suas qualificações para ser Presidente, mas ofereceu poucas razões para acreditar que ela seria capaz de tirar o país do medo económico e psicológico”.

Apesar de haver “poucas dúvidas de que Clinton venceu nos vários temas”, o jornal sublinha que Trump “esteve melhor nas questões raciais e de crime, mostrando afeto pela questão, e apelando à ‘lei e ordem'”, e ironiza ainda que Hillary “tem uma solução governativa para todos os problemas sociais e económicos”. “Se gosta da economia atual, ela é a sua candidata”.