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Dívida Pública

Professor de Harvard absolvido de manipulação da dívida portuguesa

Gestor formado em Harvard tinha sido acusado pelo MP de manipulação de mercado por artigos publicados em 2010 sobre dificuldades financeiras de Portugal. "Venceu a liberdade de expressão", diz defesa.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Peter Boone, o gestor licenciado em Harvard que há um ano foi acusado de ter ganhado 800 mil euros com títulos da dívida portuguesa depois de uma suposta manipulação do mercado, foi agora absolvido. Segundo se lê no comunicado da defesa, o tribunal de instrução criminal considerou não ter ficado provado que o economista pretendeu influenciar a cotação dos títulos da dívida portuguesa e com isso ganhar dinheiro quando publicou artigos de opinião no blogue Economix, do jornal norte-americano The New York Times.

Em causa está a acusação feita pelo Ministério Público em outubro do ano passado, com origem em artigos publicados naquele suplemento especializado do New York Times. O Ministério Público acusou na altura o economista canadiano, residente em Londres, de ter cometido um crime de manipulação do mercado através da escrita de artigos em jornais de referência e, com isso, ter ganhado 800 mil euros com os títulos da dívida pública portuguesa. Um dos artigos com maior impacto tinha como título “O próximo problema global: Portugal” e foi publicado a 15 de abril de 2010, ilustrado com uma fotografia do então primeiro-ministro, José Sócrates. Esta opinião, coassinada por Peter Boone e Simon Johnson, comparava Portugal à Grécia e defendia que os dois países estavam à “beira da bancarrota”, sobretudo por causa da dimensão da dívida pública e pelo facto de esta ser quase toda financiada por investidores estrangeiros. Portugal viria a pedir ajuda internacional um ano depois.

Este terá sido um dos artigos que colocou Portugal no foco dos mercados internacionais, marcando o período de escalada na subida das taxas de juros exigidas pelos investidores para comprarem a dívida pública nacional. No dia da publicação do artigo os juros da dívida pública portuguesa situavam-se em 4,4% e na semana seguinte já tinham subido para 5%.

“Esta decisão é uma vitória da liberdade de expressão em Portugal e dá a garantia a todos os especialistas do sctor financeiro que podem continuar a expressar as suas opiniões sobre a política económica e financeira do país de forma livre e sem receio de perseguição”, escreve a defesa em comunicado.

Em 2010, vários governos da periferia do euro, incluindo o português, acusaram publicamente especuladores de atacarem as dívidas soberanas com a finalidade de obter ganhos. Chegaram mesmo a ser feitas denúncias às autoridades judiciais para que houvesse investigação de eventuais crimes de mercado.

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