Cinema

Brasil, Stooges e Siza: dez filmes a não perder no Porto/Post/Doc

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O festival de cinema documental realiza-se entre 26 de novembro e 4 de dezembro mas a programação já está disponível. Sugerimos dez títulos, entre o cinema novo brasileiro, Iggy Pop e a arquitetura.

Autor
  • André Almeida Santos
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Há filmes na baixa do Porto. Essa é a ideia central do Porto/Post/Doc – Festival Internacional de Cinema, que entre 26 de Novembro a 4 de Dezembro quer encher as salas do Rivoli – Teatro Municipal, Passos Manuel e Maus Hábitos com uma programação com mais de cem atividades, composta por sessões de um cinema inovador e contemporâneo, por debates, oficinas, aulas de cinema e festa. Todo o festival quer festa. Na sua terceira edição, o Porto/Post/Doc concentra energias no cinema sensorial, um conceito que está presente em diversas secções no programa, mas que ganha forma na retrospetiva dedicada ao Sensory Ethnography Lab da Universidade de Harvard. Já olhámos para a programação e recomendamos dez filmes essenciais.

“Leviathan”, de Lucien Castaing-Taylor & Véréna Paravel

O que é isso do cinema sensorial? Não passa pela ideia do cinema em 4D com cartões para raspar e que largam cheiros, como aconteceu há uns anos com “Spy Kids — Todo o Tempo do Mundo”. É um conceito em volta da tecnologia digital e de novas abordagens estéticas e narrativas, num bom compromisso entre o tradicional e o cinema experimental. Uma boa introdução é este “Leviathan”, um dos melhores filmes do Sensory Ethnography Lab, em volta das atividades piscatórias em que os cineastas procuram documentar a ação a partir do ponto de vista dos peixes. (Dia 3, Rivoli Auditório MO, 19.00)

“Lean a Ladder Against Heaven”, de Jana Ševčíková

No Porto/Post/Doc será possível assistir a alguns filmes da cineasta checa Jana Ševčíková, naquela que será a primeira retropectiva do seu trabalho em Portugal. A realizadora tem investigado algumas comunidades esquecidas do Leste Europeu e neste filme viaja até às montanhas Tatra, concretamente Žakovce, uma pequena aldeia eslovaca, onde acompanha a vida de homens que procuram o caminho da redenção depois da vida lhes ter fracassado. (Dia 4, Rivoli Auditório IAC, 16.30)

“Cinema Novo”, de Eryk Rocha

Eryk Rocha é filho de Glauber Rocha, pilar do Cinema Novo Brasileiro. O documentário é um bom ponto de partida para conhecer a obra de Eryk, que é alvo de uma retrospetiva no festival. Cria uma boa relação entre a construção da identidade do Cinema Novo Brasileiro e da sociedade brasileira de então e os jovens que quiseram quebrar com a tradição nos anos 1960. É também o espelho do uso dessa mesma identidade para mostrar como se pode estimular e comunicar com o cinema nos dias de hoje, para os dias de hoje e sobre os dias de hoje. (Dia 26, Rivoli Auditório MO, 22.00)

“Gimme Danger”, de Jim Jarmusch

“Gimme Danger” vai estrear em sala, sim. Mas a probabilidade de apanhar uma sala cheia para ver o documentário de Jarmusch sobre os Stooges é diminuta. Por isso é bom ir com a onda de um festival, porque um filme sobre a melhor banda rock de sempre é para se celebrar com muita gente em volta e é importante partilhar-se no final todas as histórias que se sabem sobre Iggy Pop. Senão, vai sempre saber a pouco. E a música dos Stooges não foi feita para isso. (Dia 30, Rivoli Auditório MO, 22.00)

“Having a Cigarette with Álvaro Siza”, de Iain Dilthey

Já que se fala em Jim Jarmusch, “Cafés e Cigarros” são uma ótima companhia para uma conversa. Café de lado, mas cigarro no título, Iain Dilthey cria assim a sugestão de uma conversa harmoniosa com Álvaro Siza, no seu atelier do Porto, acerca da arquitetura e da sua arquitetura, à qual se junta mais tarde Eduardo Souto de Moura para falar dos aspetos fundamentais que estão nas mãos, no planeamento e na imaginação dos arquitetos. (Dia 28, Passos Manuel, 19.00)

“Oleg y las Raras Artes”, de Andrés Duque

Durante 30 anos o pianista e compositor russo Oleg Nikolayevich Karavaichuk foi proibido de tocar em público. Vicissitudes do regime soviético. Andrés Dique filma-o dentro do Hermitage, um sítio onde Oleg se refugiava antes de morrer no verão passado, e deixa-o falar sobre a arte, a sua vida, a Rússia, a genialidade e da rua em que moraram Tarkovski, Akhmátova e Shostakóvich. (Dia 26, Passos Manuel, 22.30)

“Casablancas, de l’Homme qui Aimait les Femmes”, Hubert Woroniecki

Filme biográfico sobre a vida de John Casablancas, criador da famosíssima Elite Model, um homem de quem se sabe que perdeu a virgindade aos 15 com uma sueca dez anos mais velha numa noite de verão na Riviera francesa. Um sonho para muitos, mas só ao alcance de alguns. E por isso que as histórias destas figuras fascinam, da mitologia à sua volta e da forma como por vezes conseguem tornar o ato mais banal no maior dos triunfos aos olhos do comum mortal. (Dia 2, Rivoli Auditório MO, 22.00)

“Ascent”, de Fiona Tan

O Monte Fuji é o mote para este ensaio visual de Fiona Tan. Ao longo de oitenta minutos utiliza mais de quatro mil fotografias desta montanha/vulcão para criar a sua própria dinâmica e poética visual acerca deste lugar do mundo que a fascina. A partir daí explora a cultura japonesa e essa loucura humana de subir montanhas e de nesse ato atingir ou justificar um ato maior, que tanto pode ser a essência da superação ou o desejo de no topo existir algo intangível. Fiona Tan conjuga bem essa visão da humanidade com a sua própria historia, principalmente a amorosa e a sua relação com o seu falecido amante japonês. (Dia 29, Rivoli Auditório IAC, 21:30 / Dia 2, Rivoli Auditório MO, 14.30)

“Under The Sun”, Vitaly Mansky

Vitaly Mansky utiliza as próprias regras do regime norte-coreano, deixando-se conduzir pelo próprio regime e pelas indicações ficcionais dos seus guiais, para criar um objeto que reflete a repressão e a ilusão criada do regime. À procura da realidade o realizador partilha a ficção que lhe foi entregue e é a partir dessa mesma ficção que o filme se torna um documentário em que mais um pouco da mitologia da Coreia do Norte entra nos olhos ocidentais. E quanto mais entra, mais fascínio provoca, sem se saber muito bem se isso é bom ou mau. (Dia 27, Rivoli Auditório IAC, 21.30 / Dia 30 Rivoli Auditório MO, 14.30)

“Good Times, Wonderful Times”, Lionel Rogosin

Em anteriores edições o Porto/Post/Doc já havia mostrado filmes de Lionel Rogosin, continua essa ação neste ano com a projeção de “Good Times, Wonderful Times” (1966), um curioso filme antiguerra, que descreve as atrocidades da guerra e o medo de uma guerra nuclear, enquanto intercala com imagens de pessoas alienadas, divertidas, a beberem cocktails numa festa. É no contraste que agita o espectador e cria o seu alerta para os horrores do passado não caírem no esquecimento. E bem precisamos agora. Um filme sempre presente. (Dia 3, Passos Manuel, 19.00)

Veja aqui a programação completa do Porto/Post/Doc

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