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Património da Humanidade

Centro Histórico do Porto e o turismo: “Isto não é uma discussão, é uma gritaria”

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Esta segunda-feira celebram-se os 20 anos da classificação do Centro Histórico do Porto pela UNESCO, com várias iniciativas públicas. Mas também com discussões sobre o momento que a cidade atravessa.

"Não podemos embarcar na sacralização do património nem nas teses neoliberais em que vale tudo"

Thousand Wonders

No dia 5 de dezembro de 1996, os sinos de várias igrejas e monumentos do Centro Histórico do Porto tocaram, celebrando a classificação de Património Mundial pela UNESCO. Esta segunda-feira, exatamente 20 anos depois, os sinos de locais como os Clérigos, Sé Catedral do Porto e igrejas de São Francisco, Misericórdia do Porto, São João Novo, São José das Taipas, São Nicolau e Nossa Senhora da Vitória tocaram durante 20 minutos. Há razões para celebrar. Mas é preciso estudar o momento atual do Porto a fundo para não se cometerem erros contra o património. E contra a cidade.

Há 20 anos, o Porto enfrentava um problema de desertificação, com as famílias a comprarem casa nos subúrbios, os negócios a encerrarem devido à proliferação dos centros comerciais, a degradação patrimonial e a insegurança. E se é verdade que hoje o Centro Histórico do Porto, Ponte Luís I e Mosteiro da Serra do Pilar (a designação oficial) vive dias mais felizes, há outros problemas a enfrentar, como a gentrificação ou a reabilitação dos edifícios sem a preocupação de se preservar o património.

“Costumo brincar com isto com duas metáforas: a da Arca de Noé e a da lâmpada do Aladino”, diz ao Observador Álvaro Domingues, geógrafo e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. A Arca de Noé representa as teses ultraconservadoras sobre o património, que defendem que se salve tudo da mesma maneira, sob a orientação do Estado. “São muito boas de enunciar, mas são impossíveis de pôr em prática quando falamos num conjunto de edificado com milhares de donos, possibilidades e orçamentos de intervenção. Aquilo que serve para a Sé não serve para um edifício da Rua das Flores”, defende.

Do outro lado está a lâmpada do Aladino: “Esfrega-se um edifício velho e sai de lá um génio, e o desejo é transformar aquilo num hostel“, diz o geógrafo. A lâmpada de Aladino representa “o capital super ativado dos negócios, do low cost ao ultra luxo, que faz do património um produto”, explica, preferindo que nenhuma das metáforas guiasse a forma de fazer cidade. “Não podemos embarcar na sacralização do património nem nas teses neoliberais em que vale tudo.”

A discussão é importante, mas só se for baseada em conhecimento

Para Álvaro Domingues, que esteve envolvido na candidatura à Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, o Porto passou por “uma fase de crise gravíssima e uma euforia total em meia dúzia de anos”. Ou seja, “ainda ontem se discutia que o Porto está podre e o comércio fecha e há insegurança, e hoje anda aí gente muito preocupada porque vêm aí as invasões dos vândalos [turistas] e que todo o prédio será um Airbnb“.

Na opinião do geógrafo, “embora a UNESCO hoje distinga tudo, do chocalho ao falcão”, no caso do Centro Histórico do Porto a classificação foi merecida. “É extraordinário, parece que o tempo passou pelo Centro Histórico sem grandes convulsões. Parece assim uma caixinha de segredos.

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© Miguel Nogueira / Câmara Municipal do Porto

No entanto, em 20 anos houve muita coisa a acontecer. “Sou do tempo do projeto da Ribeira / Barredo”, um plano de recuperação e revitalização da Ribeira do Porto, fundamental para o dossier de apresentação da candidatura do Centro Histórico do Porto à UNESCO, que se começou a preparar em 1991.

Em 1998, o Porto acolheu a Cimeira Ibero-Americana, onde esteve presente Fidel Castro. Para que tudo corresse bem, elaborou-se um projeto desde a Ponte Luiz I até à Alfandega. “Isso foi uma primeira obra de intervenção em profundidade”, destaca o docente. A seguir vieram as obras da Porto 2001, “importantíssimas porque recuperaram muitas ruas, praças, jardins, passeios”, recorda. “Puseram saneamento onde não havia, como era o caso da Rua 31 de Janeiro, e fizeram-se parques subterrâneos, que ajudaram à mobilidade da cidade.” Pouco tempo depois vieram as obra do Metro do Porto.

Há uma sequência de intervenções. O que entrou aqui foi o chamado acelerador de partículas [turismo], sobretudo em termos de obras particulares, até se atingir o disparate das Cardosas, em que se moeu um quarteirão inteiro de edifícios do século XVIII, XIX e XX e reduziu-se aquilo a uma fachada. Classificamos as coisas para depois moer e transformar num cenário? Não tem lógica.”

Álvaro Domingues é um dos intervenientes do livro Porto Património Mundial 20 anos | 20 imagens. O lançamento, às 18h30 na Biblioteca do Seminário Maior, é um dos eventos a ter lugar esta segunda-feira. Resultado de uma parceria entre o município e a Imprensa Nacional Casa da Moeda, a obra reúne um conjunto de fotografias alusivas ao Centro Histórico, captadas por 20 reputados fotógrafos nacionais, assim como textos de Gaspar Martins Pereira (historiador e professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto) e Manuel Carvalho (jornalista do jornal Público).

Vai ser apresentado por Rui Moreira e, de seguida, há um debate, com entrada livre, sobre o valor universal das cidades Património Mundial. O debate será moderado por Álvaro Domingues e terá como convidados a vice-presidente da Câmara de Marraquexe, Awatef Berdai, o vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, Manuel Correia Fernandes, e o arquiteto Rui Loza.

A nobilitação e a turistificação da cidade antiga – o Centro Histórico – constituem um verdadeiro código de reinvenção de valor associado a novos regimes de visibilidade (modos de dar a ver, de argumentar, de classificar, de distinguir e valorar o feio, o bonito, o vulgar, etc.), a novas funcionalidades, interesses e atores em presença. Aparentemente simples, esta questão torna-se muito complexa e contraditória em casos de espiral inflacionária descontrolada, implicando a expulsão de atividades e grupos sociais mais pobres e desprotegidos e, ao mesmo tempo, criando a noção clara de que a cidade se está a transformar numa coutada de interesses privados, o que em si mesmo é contrário à ideia coletiva, pública ou cultural do património (…). Ou seja, de coisa extraordinária e intocável, o centro histórico passa a coisa mercantilizada, objeto de consumo avaliado por uma única medida de valor que é o preço, a concorrência, ou o marketing das cidades.” Álvaro Domingues, no livro Porto Património Mundial 20 anos | 20 imagens.

Para Álvaro Domingues, o que faz mais falta neste momento é o conhecimento. “Tudo está a decorrer a uma velocidade incrível e, quando não temos conhecimento sobre as coisas, caímos em extremos. É paradoxal estarmos perante uma coisa que nunca tinha acontecido no Porto, que é passarem pelo aeroporto 8 milhões de passageiros, e não saibamos o que é que isto significa em termos de emprego, investimento, uso do espaço público, mobilidade, a pressão sobre as infraestruturas.”

Para se fazerem políticas de prevenção — por exemplo, taxar os negócios mais lucrativos para investir em problemas causados pelo turismo –, é preciso conhecer as dinâmicas económicas envolvidas, e os vários turismos. Uma discussão que, na sua opinião, deve ser liderada pela Câmara do Porto, mas que deve envolver diferentes agentes e sensibilidades. Como está neste momento, não pode continuar. “Como podemos organizar uma discussão sem informação? Isto não é uma discussão, é uma gritaria.”

Espetáculos, instalações luminosas, debates e filmes para celebrar o Centro Histórico

Depois de os sinos terem tocado durante 20 minutos às 12h00, a festa prossegue às 17h00, na Ponte Luiz I. É lá que, de acordo com a Porto Lazer, terá lugar uma performance área de dança acrobática, a partir de um trapézio suspenso no tabuleiro superior da ponte, também com a duração simbólica de 20 minutos. O espetáculo antecede a inauguração da instalação de luz “LUiZ”,inspirada no traçado arquitetónico da ponte, inaugurada há 186 anos. Patente de 5 até 11 de dezembro, pretende personificar o elo de ligação entre a cidade, o rio e os seus habitantes. As luzes vão acender-se diariamente a partir das 17h30.

É também às 17h30, quando a luz do sol já se foi, que serão inauguradas seis instalações de luz do programa “Alumia”. Idealizadas por seis artistas e coletivos da cidade, as instalações podem ser vistas até 8 de janeiro de 2017, no Jardim da Cordoaria (junto ao lago), Largo do Amor de Perdição (junto à Cadeia da Relação), Clérigos, Largo dos Lóios, Estação de São Bento (fachada) e Bairro da Sé. Esta segunda-feira há visitas guiadas pelo Serviço Educativo do projeto, sempre a partir do Jardim da Cordoaria, com partidas de hora a hora entre as 17h30 e as 21h30.

Maquete do “Alumia”.

Finalmente, pelas 22h00, o Salão Árabe do Palácio da Bolsa é palco de um concerto cinematográfico, intitulado “Al-Mu’tamid, Poeta Rei do Al Andaluz”. Trata-se de um projeto original que junta músicos portugueses, espanhóis e marroquinos, que compuseram temas originais a partir de poemas do poeta ibero-árabe do Séc. XI, Al-Mu’tamid. Os temas serão cantados em cada uma das línguas dos três países que hoje integram o território geográfico de maior influência do Al-Andalus – Portugal, Espanha e Marrocos. O concerto é gratuito, mas sujeito ao levantamento prévio do bilhete no Teatro Municipal do Porto – Rivoli (até às 22h00 do próximo domingo, 4 de dezembro), ou na Casa do Infante (até às 17h00 do dia 3).

Ao todo, Portugal tem quatro centros históricos classificados como Património da Humanidade: Porto, Guimarães, Évora e Angra do Heroísmo. Foram aprovados pela sua “importância cultural e/ou natural tão excecional que transcende as fronteiras nacionais e se reveste do mesmo caráter inestimável para as gerações atuais e futuras de toda a Humanidade”, pode ler-se nos estatutos da UNESCO.

Notícia corrigida às 15h25. Angra do Heroísmo também é Património da Humanidade.

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