Presidente Trump

Divulgação do relatório sobre Trump abre debate sobre ética jornalística

Um site de notícias publicou o relatório que supostamente compromete Trump sem confirmar a informação e abriu um debate sobre a ética jornalística. E, claro, algumas suposições políticas.

Mark Lyons/EPA

A informação sobre Donald Trump, que esta quarta-feira concentrou as atenções da imprensa mundial, consta de um relatório de 35 páginas há muito tempo conhecido no meio político norte-americano, entre agentes de informação e também entre jornalistas. Nunca foi noticiada. Porquê? Os “jornalistas não podiam verificar os factos [que estavam no relatório] de forma independente”, justifica o The New York Times. “Não havia forma de os verificar de forma independente”, argumenta, da mesma forma, o The Guardian. O site de notícias BuzzFeed acabou por publicar o relatório na íntegra esta quarta-feira e abriu o debate sobre a responsabilidade jornalística que, entretanto, já chegou a outro ponto, o das implicações políticas.

A CNN noticiou que os serviços secretos norte-americanos entregaram a Barack Obama e a Donald Trump, na semana passada, uma síntese a dar conta da existência deste relatório com informações financeiras e pessoais comprometedoras sobre o presidente eleito. Mas o canal televisivo americano não adiantou qualquer pormenor do relatório a que, tal como outros meios de comunicação, tinha tido acesso. O motivo foi o mesmo: falta de condições para verificar a veracidade das informações contidas no relatório.

O diretor do BuzzFeed, Ben Smith, justificou a decisão de publicar o famoso relatório numa nota interna à redação que, mais tarde, revelou no Twitter. No texto defende que o princípio do site é “ser transparente no jornalismo que pratica”. E que o divulgou o documento a que teve acesso precisamente por ter “sérias razões para duvidar das alegações” que ele continha. Aliás, quando publicou a notícia, o BuzzFeed explicou logo que o fazia para que os leitores pudessem fazer a sua própria interpretação sobre os fatos imputados ao presidente eleito.

A decisão centrou o debate em algumas das maiores redações do mundo — foi motivo de artigos a explicar posições individuais, pelo menos, por parte do The New York Times e do The Guardian. No NYT, o jornalista Adam Goldman recorreu à ironia para descrever no Twitter a “sequência de acontecimentos: a CNN encontra uma forma de falar do relatório e o buzzfeed usa essa razão para o publicar. Os críticos vão andar ocupados”. Já Brad Heath, jornalista do USA Today, traça a forma como o jornalismo “não deve atuar”: “Aqui está uma coisa que pode ou não ser verdade. Decide por ti mesmo se é legítimo”.

A questão também suscitou dúvidas ao jornalista Glenn Greenwald, que foi o primeiro a publicar as revelações de Edward Snowden, o antigo consultor da Agência de Segurança Norte-Americana que fez cópias e divulgou informação classificada sobre os programas de vigilância global. O jornalista do The Intercept descreve, assim, o que diz ver no caso do relatório sobre Trump: “Um anónimo, que reclama ser um ex-agente secreto britânico e que trabalha como um investigador democrata, diz que anónimos lhe contaram coisas”.

E o caso também já teve reações políticas, uma delas daquele que foi o porta-voz da campanha de Hillary Clinton, a adversária de Donald Trump na corrida presidencial. Brian Fallon escreveu no Twitter aquilo que os próprios órgãos de comunicação social admitem: já tinham a informação há algum tempo. Mas para fazer uma relação política: “a comunicação social conhecia o relatório antes de 8 de novembro”, a data das eleições.

Escusado será dizer que, a nove dias da sua tomada de posse como presidente, também Donald Trump já veio questionar o timing destas notícias, dizendo que ganhou as eleições “de forma fácil” e que os seus opositores estão a tentar minimizar” essa vitória com “notícias falsas”.

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