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Novo Banco

Lone Star disponível para compromisso sobre garantia pública no Novo Banco

Fundo escolhido pelo Banco de Portugal está disponível para negociar, na questão da garantia pública ao valor dos ativos do Novo Banco, uma solução de meio termo que permita fechar o negócio.

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

O fundo norte-americano Lone Star, que foi escolhido pelo Banco de Portugal como melhor oferta pelo Novo Banco, está disponível para chegar a um compromisso sobre a questão decisiva da garantia pública sobre o valor dos ativos do banco — a “linha vermelha” de Mário Centeno. A imprensa tem falado numa garantia de 2.500 milhões de euros para salvaguardar possíveis surpresas negativas no valor dos ativos (no total, avaliados em cerca de nove mil milhões de euros) mas o fundo norte-americano admite, apurou o Observador, que se possa chegar a soluções criativas que, na prática, representem um compromisso entre as partes.

A disponibilidade do Lone Star para encontrar formas alternativas para tentar fechar o negócio surge numa altura em que, como noticiou o Público esta quarta-feira, o Governo assumiu as rédeas desta negociação, depois de o Banco de Portugal ter liderado os trabalhos até ao momento. A questão é que tanto o Lone Star como o outro fundo norte-americano concorrente, o Apollo/Centerbridge, querem uma garantia pública para limitar o risco de ativos mal avaliados que podem tornar o negócio menos vantajoso para o comprador, mas também colocar em risco os rácios de capital da instituição junto dos reguladores.

Mas, segundo apurou o Observador junto de fonte próxima da negociação, existe abertura para que, introduzindo alguma complexidade na definição das eventuais garantias públicas, possa ser possível chegar a bom porto nesta negociação.

Quando o Banco de Portugal escolheu o Lone Star como candidato favorito, já indicava que na próxima fase da negociação se tentaria “remover” as “condicionantes com potencial impacto nas contas públicas” — mas já nessa altura o Banco de Portugal admitia, também, “minimizar” esse impacto, ou seja, não excluindo que possa ser difícil eliminar essas “condicionantes” por completo. O que faz com que esta questão, nesta fase, seja mais política do que financeira.

“Vamos continuar a trabalhar incansavelmente com o Banco de Portugal, o Fundo de Resolução e o governo português para assegurar um acordo final para apoiar a reestruturação do Novo Banco, para um benefício de longo prazo dos seus clientes, colaboradores, credores e da economia portuguesa em geral”, adiantou o fundo a 5 de janeiro, depois de ter sido escolhido pelo Banco de Portugal.

Garantias públicas, como nos bancos comprados na Alemanha

Apesar de estar há vários meses a analisar o balanço do Novo Banco, o fundo norte-americano quer ter esta garantia pública sobre o valor dos ativos à semelhança do que aconteceu, por exemplo, com dois bancos alemães que comprou (o AHBR/CorealCredit, em 2005, e o IKB, em 2008). Apesar de não estar presente no sistema financeiro português (como já está o Apollo, neste momento, com a seguradora Tranquilidade), a Lone Star tem procurado passar a mensagem de que não é um estranho ao setor bancário. Em primeiro, porque os seus fundadores vieram da banca e, depois, no contexto europeu, já foram feitos estes dois negócios importantes na Alemanha.

O banco comprado em 2005 já foi vendido, oito anos depois, a um banco alemão (Aareal Bank) depois de uma limpeza de balanço e reestruturação operacional — mas não houve o que se possa considerar um desmantelamento das operações. Já o IKB, que foi comprado ao estado alemão, entrou em dificuldades por ter uma exposição desmesurada à bolha do subprime norte-americano. O banco foi resgatado e vendido ao Lone Star, que ainda mantém a propriedade da instituição.

Descrito por alguns como um fundo abutre, o Lone Star tem procurado nas últimas semanas desfazer essa imagem e mostrar que as suas intenções com o Novo Banco não são a realização de um negócio rápido, eventualmente com um desmantelamento da instituição, como alguns têm afirmado. Com os exemplos alemães, de bancos também muito ligados ao crédito às pequenas e médias empresas, o Lone Star tem procurado mostrar que, no caso dos bancos, a sua gestão pode ser marcada por uma preservação das estruturas existentes e por uma dinamização das atividades em que o banco já está envolvido.

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