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Terrorismo

Computador portátil revela muitos detalhes dos ataques de Bruxelas e Paris

Horas após o atentado ao aeroporto de Bruxelas, a polícia conseguiu encontrar o portátil de um dos terroristas. Alguns dados do aparelho já tinham sido noticiados, porém, surgem novas atualizações.

Segundo os investigadores, a célula terrorista responsável pelos ataques comunicava com o Estado Islâmico, na Síria, através de aplicações encriptadas que serviam como uma espécie de "cordão umbilical"

Getty Images

O dia 22 de março de 2016 ficou marcado na história de Bruxelas. Três explosões, duas no aeroporto e uma no metro, reivindicadas pelo Estado Islâmico, fizeram 34 mortos e mais de 200 feridos. Graças ao testemunho do taxista que levou os homens-bomba ao aeroporto, poucas horas depois do atentado a polícia conseguiu encontrar o prédio onde os terroristas estavam a viver. Nas redondezas, a polícia encontrou um computador, dentro de um caixote do lixo, que agora se verificou ser também de um terrorista – um belga chamado Najim Laachraoui, que se acredita ser o homem por detrás da construção das bombas utilizadas nos atentados de Bruxelas, mas também nos de Paris, relata a CNN. E é este portátil, agora completamente investigado, que revela novos dados sobre os dois ataques.

22 de março, dia negro em Bruxelas

Ainda que grande parte do disco rígido tenha sido apagado, uma investigação meticulosa ao aparelho, pela Computer Crime Unit de Bruxelas, revelou novas informações sobre a rede que esteva por detrás dos atentados quer de dia 22 de março de 2016, Bruxelas, quer de dia 13 de Novembro de 2015, em Paris.

Alguns dados do computador já tinham sido revelados pela CNN. Mas as novas descobertas permitem saber mais dados sobre a construção das bombas utilizadas nos atentados. Assim, sabe-se que depois dos ataques a Paris o terrorista que também esteve atentado de Bruxelas, Laachraoiu, consultou um fabricante de bombas do Estado Islâmico de forma a conseguir melhorar “a sua receita” para o colete suicida que tinha sido utilizado na capital francesa. Mais: foram recuperadas algumas gravações de áudio que mostram conversas entre o terrorista e membros do Daesh sobre o plano a ser executado nos ataques e, Bruxelas.

Segundo os investigadores, a célula terrorista responsável pelos ataques comunicava com o Estado Islâmico, na Síria, através de aplicações encriptadas que serviam como uma espécie de “cordão umbilical”, como lhe chama a CNN, entre a organização e os atacantes. Através destas comunicações foi possível perceber que as bombas que tinham sido utilizadas no Stade de France, em Paris (que produziram pequenas explosões, fazendo apenas uma vítima, uma taxista de origem portuguesa) foram aperfeiçoadas para que no atentado a Bruxelas fossem mais poderosas.

Recuperação de provas, depois dos obstáculos

Ao início, os técnicos informáticos responsáveis pela análise do computador depararam-se com vários obstáculos, relata a CNN. O primeiro, foi que grande parte da informação tinha sido permanentemente apagada. O segundo, foi a encriptação das mensagens e do próprio programa. E, por fim, o terceiro grande obstáculo foi que os terroristas utilizavam software que os tornavam anónimos e que limpava o histórico da Internet.

Ainda assim, os investigadores foram capazes de recuperar várias informações importantes, como os nomes de alguns arquivos apagados; há quanto tempo é que esses arquivos tinham sido abertos ou, até, durante quanto tempo estiveram guardados no disco. Estas informações, mesmo que ‘mínimas’, permitiram que fossem elaborados planos críticos sobre os ataques. Das várias informações encontradas, podemos destacar as seguintes:

  1. O computador foi utilizado pela primeira vez a 9 de outubro de 2015 – mais de um mês antes dos ataques de Paris
  2. Foi utilizado pela última vez um dia antes dos atentados em Bruxelas
  3. O computador pertencia a Laachraoui, mas vários membros da célula terrorista tiveram acesso ao aparelho
  4. No início de 2016 foi encontrado um documento escrito pelo segundo terrorista de Bruxelas, Mohamed Abrini (que está a aguardar julgamento)
  5. O computador terá “viajado” para a Síria, no início de 2016
  6. Foram investigadas também as conexões Wifi, que mostraram que o computador tinha sido ligado noutros sítios considerados “seguros” pelo Estado Islâmico, nomeadamente num outro apartamento que terá sido utilizado para fazer as bombas dos ataques a Paris
  7. Foi ainda encontrada muita informação de propaganda terrorista, que mostrou o interesse em armas, falsificação de documentos, explosivos, e vigilância e contra-vigilância

O intrigante ficheiro de 13 de novembro

Mas um dos ficheiros mais intrigantes de todos ficou por desvendar. Segundo conta a CNN, os investigadores conseguiram recuperar o nome de três ficheiros que haviam sido eliminados permanentemente, e que apenas o título poderá contar a história. Estes ficheiros estavam dentro de uma pasta com o título “estudo“. Dentro dela, mais três nomes: “13Novembro“; “Alvo” e “Explosivos“. Acredita-se que este último ficheiro tinha as informações sobre os explosivos utilizados nos ataques.

Sabe-se, no entanto, que o ficheiro com o nome “13Novembro” foi acessado entre 7 de novembro e 11 de novembro, revelando que a data do ataque já tinha sido pensada e que a divisão dos “trabalhos” também já tinha sido feita. Dentro do arquivo “13Novembro”, havia vários “sub-arquivos” que tinham os seguintes nomes: “Grupo Omar“; “Grupo Francês“; “Grupo iraquiano“; “Grupo metro” e, por fim, “Grupo Schiphol“. Ainda que os conteúdos tenham sido permanentemente eliminados, os investigadores chegaram às seguintes conclusões prováveis, segundo a CNN:

  1. A pasta intitulada “Grupo Omar” referia-se à equipa de ataque ao café de Paris, liderada por Abdelhamid Abaaoud, também conhecido como Abu Omar
  2. A pasta “Grupo Francês” referia-se, provavelmente, aos três agentes franceses que pertenciam ao Estado Islâmico e que foram encarregues de atacar o Bataclan. (O arquivo foi acessado a 7 de novembro de 2015, tendo sido nomeado 13Novembre / Images / bataclan.jpg).
  3. O “Grupo iraquiano” referia-se à equipa de ataques suicidada em restaurantes e cafés de Paris (3 homens posteriormente identificados como sendo iraquianos)
  4. O “Grupo metro” causa dúvidas aos investigadores, uma vez que a 13 de novembro não houve ataques subterrâneos
  5. O “Grupo Schiphol“, que é uma referência ao nome do aeroporto internacional de Amesterdão, provocou também algumas dúvidas. Seria este um local de ataque ou um ponto de fuga para alguns membros da célula? Segundo a CNN já tinha noticiado, os investigadores acreditam que a célula teria sida encarregue de atingir também os Países Baixos na mesma altura dos atentados do Paris.

Passando para o segundo arquivo, que tinha como título “Alvos“, também este estava dividido em vários “sub-arquivos”, um deles chamado de “Defesa” e outro “Civitas“. Segundo os investigadores belgas, o último ficheiro refere-se a uma associação católica francesa conservadora e, o primeiro, refere-se ao bairro comercial La Defénse, Paris, que o atacante Abdelhamid Abaaoud planeava atacar antes de ser morto pela polícia, logo após os ataques a Paris.

As vozes por detrás do terror

No que diz respeito aos áudios, foram encontrados sete arquivos, alguns dos quais tinham sido apagados mas que conseguiram ser recuperados. Dois desses áudios falavam sobre o progresso que a célula terrorista já tinha feito, tendo decorrido de conversas entre Laachraoui e Abu Ahmad (membro sénior do Estado Islâmico na Síria). Ocasionalmente, conta a CNN, também se ouve a voz de Ibrahim el Bakraoui, um dos bombistas-suicida do aeroporto de Bruxelas.

Num outro áudio encontrado, Laachraoui falava com um fabricante de bombas e sugeria que queria melhorar a “receita” da bomba que tinha sido utilizada em Paris, pedido dicas ao outro interveniente.

O portátil continua a ser analisado, para que se tentem encontrar mais conexões entre os atentados, bem como para tentar perceber como é que se processa a comunicação entre as várias células, distribuídas pelo mundo, com a “célula mãe”, na Síria.

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