Fernando Pessoa

Heterónimos e o cabelo dos Beatles: começou o congresso dedicado a Pessoa

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Até domingo, cerca de 40 investigadores vão reunir-se na Gulbenkian para falar sobre o maior dos poetas portugueses. Durante a manhã, discutiu-se heteronímia, política e outros temas cabeludos.

O congresso foi inaugurado por Richard Zenith e António Feijó, que falaram sobre a questão do "eu"

Começou esta quinta-feira a quarta edição do Congresso Internacional Fernando Pessoa, que este ano se realiza na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Durante três dias, mais de 40 investigadores de diferentes nacionalidades irão apresentar comunicações, lançar questões e responder a dúvidas do público, num encontro aberto a todos os interessados, estudantes, investigadores ou simplesmente curiosos.

Na sessão de abertura, Clara Riso, diretora da Casa Fernando Pessoa, organismo responsável pela organização do congresso, admitiu ter “muito gosto em concretizar mais uma edição” do evento, que, este ano, “atingiu um número muito significativo de inscritos”. Prova disso, foi a sala constantemente cheia durante toda a manhã, que obrigou algumas pessoas a sentarem-se na escadaria ou no chão junto à entrada do Anfiteatro 2.

“Serão três dias de debate, descoberta, convívio, reencontro e discussão da mais recente investigação”, salientou Clara Riso, aproveitando a oportunidade para falar de algumas das novidades da edição deste ano do congresso, que terá pela primeira vez mesas de discussão, “para as quais foram determinados tópicos que serão debatidos em tempo real”. “É uma tentativa de pontuar o ritmo destes dias com sessões de diferentes dinâmicas”, disse a diretora da Casa Fernando Pessoa, referindo ainda a reunião de “especialistas que há muito tempo desenvolvem trabalhos sobre Pessoa e de doutorandos que começaram há pouco tempo a assumir a personalidade científica de pessoanos”.

Clara Riso, diretora da Casa Fernando Pessoa, esteve presente na abertura do congresso

Salientando a importância da “investigação no campo do estudos pessoanos, uma das principais linhas da Casa Fernando Pessoa”, Clara Riso convidou todos os investigadores, “de todas as partes do mundo”, a conhecerem a instituição sediada na Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, que tem sempre “as portas abertas”. “Que este congresso seja realmente um contributo novo e efetivo para o desenvolvimento dos estudos pessoanos”, desejou no fim do seu pequeno discurso de boas-vindas.

Guilherme d’Oliveira Martins usou a exposição José de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno, patente até 5 de junho na Gulbenkian, como ponto de partida para falar do Modernismo português e da sua importância. “Orpheu, a galáxia de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, têm constituído — e constituem — referências cruciais na cultura portuguesa mas também europeia e mundial. O Modernismo português singulariza-se pela sua grande densidade, prolongamento no tempo e por ser um dos mais importantes no conjunto dos movimentos que tiveram lugar contemporaneamente“, disse o administrador da Fundação Calouste Gulbenkian na sessão de abertura.

Catarina Vaz Pinto, vereadora de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, frisou a importância da obra pessoana, repleta de “temas cruciais para o mundo contemporâneo”. A presidente do conselho de administração da Fundação Gulbenkian, Joana Gomes Cardoso, admitiu, por sua vez, ser “gratificante sentir que continua a existir tanto interesse por Fernando Pessoa em tantos locais e em tantos idiomas” e apelou a “que este local se torne num local de encontros, e que se encontrem com Pessoa para que possamos continuar a aprofundar a sua obra e a dá-la a conhecer mais ainda”.

Clara Riso, Joana Gomes Cardoso, Catarina Vaz Pinto e Guilherme d’Oliveira Martins fizeram as honras da casa

“Os heterónimos são o cabelo comprido de Fernando Pessoa”

Feitas as apresentações (e respetivos agradecimentos), o Congresso Fernando Pessoa arrancou com uma primeira mesa de discussão, intitulada “Eu, Fernando Pessoa”, que contou a participação de Richard Zenith e António Feijó, dois dos críticos que mais têm contribuído para clarificar a chamada “questão do eu” em Pessoa, como referiu Pedro Sepúlveda, que moderou a conversa. Fernando Cabral Martins, cujo nome também figurava do programa, não compareceu por motivos de doença.

Numa primeira apresentação, Richard Zenith, que está há dez anos a trabalhar numa biografia do poeta, falou dos primeiros textos críticos publicados sobre a obra de Pessoa: o de José Rebelo de Bettencourt (que tinha sido amigo próximo de Santa-Rita Pintor), publicado em agosto de 1928 no livro O Mundo das Imagens, e o de João Gaspar Simões, do ano seguinte. Para Zenith, foi Rebelo de Bettencourt o primeiro a identificar “o poder de sedução de Pessoa para com os leitores”, ou seja, a sua capacidade de sair do seu “eu” criando outros.

“Quando Fernando Pessoa diz ‘eu’ está a dizer todos nós, potencialmente. Este primeiro crítico de Pessoa viu o seu potencial, sobretudo o seu espírito original e criador”, disse o investigador. “Foi Álvaro de Campos, o grande viajante, que esteve em muitos lugares diferentes do mundo, que disse ‘estar é ser’. Fernando Pessoa, que escreveu sobre muitos temas, poderia ter dito ‘escrever é ser’. O sentido seria o mesmo“, concluiu, já no final da sua primeira intervenção. António Feijó, por sua vez, falou da natureza dramática de uma personagem que absorve o autor.

Richard Zenith e António Feijó abriram o congresso, numa conversa moderada por Pedro Sepúlveda

Questionado pelo moderador Pedro Sepúlveda sobre o processo de criação dos heterónimos — sobre se este implicou uma “certa negação de si mesmo” por parte de Pessoa e “algo como um sujeito sem substância, personalidade” ou, se por outro, lado “esta imersão” estava relacionada com a identidade do próprio poeta –, Richard Zenith defendeu que Pessoa “não se anulou em proveito da sua obra para criar esses outros”. “Penso que não é bem assim. Pessoa, a meu ver, percebeu que não há um ‘eu’ prévio. O ‘ser’ significa transformação contínua, que vamos criando de nós mesmos. Para mim, os heterónimos não são uma anulação, mas uma continua criação de si próprio, em expansão.”

Sobre a mesma questão, Feijó explicou que “a devastação interna da consciência de si”, que é “algo doloroso”, é um “tópico obsessivo” na obra de Fernando Pessoa, mas que não é exclusivo do poeta português. Outros autores, desde o século XIX, tiveram a mesma preocupação. Desmistificando a ideia de que a vida de Pessoa foi a sua obra, o vice-reitor da Universidade de Lisboa afirmou que “se há vida rica no século XX é a de Fernando Pessoa, porque foi em Pessoa que tudo isto se passou“.

Referindo-se à diferença entre o ortónimo e os heterónimos, Zenith admitiu não concordar totalmente que a obra assinada com o nome do poeta é tão ficcional quanto a outra, assinada por Reis ou Caeiro. “Não sei se era bem assim… Por exemplo, quando fala de política é quase sempre como Fernando Pessoa. Ou nos interesses esotéricos.” Sobre a mesma questão, António Feijó preferiu defender que “tudo o que ele escreveu está no plano da obra”.

António Feijó, vice-reitor da Universidade de Lisboa, defendeu que a obra de Pessoa encontra-se toda no mesmo plano

“Não há propriamente autoridade de segunda em relação a certos enunciados. Tudo aquilo é Pessoa”, disse, acrescentando que “os heterónimos são um embaraço como foi o cabelo dos Beatles”, impedindo que se veja a obra pessoana com clareza. “Os Beatles têm alguma da produção musical mais genial do século XX e, no início foram tomados pelo cabelo comprido. Os heterónimos são o cabelo comprido de Fernando Pessoa.”

Antes do intervalo para o almoço, Manuela Parreira da Silva, Madalena Lobo Antunes e Anna Klobucka falaram do “Pessoa político”, seguindo diferentes abordagens que passaram por diferentes aspetos da obra pessoana. Manuela Parreira da Silva, que desde 1988 se dedica ao estudo do espólio de Fernando Pessoa, tendo sido responsável por várias edições da obra do autor, focadas sobretudo na sua correspondência falou das referências à Primeira Guerra Mundial na obra do ortónimo e do heterónimo Antóno Mora, o “continuador filosófico e teorizador do paganismo de Alberto Caeiro”.

Madalena Lobo Antunes, doutoranda na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, procurou fazer uma aproximação entre o Livro de Desassossego e a filosofia de Marx, apresentado Bernardo Soares como um trabalhador subalterno. A polaca Anna Klobucka, residente nos Estados Unidos da América, onde é professora universitária, foi a última a falar, apresentado uma comunicação sobre a polémica da chamada “Literatura de Sodoma” e o poeta Antóno Botto, que Pessoa defendeu publicamente.

O IV Congresso Internacional Fernando Pessoa decorre até sábado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa (a entrada é livre para estudantes e desempregados). Os que não conseguirem deslocar-se até à Avenida de Berna durante os próximos três dias, poderão sempre assistir posteriormente ao congresso através do Portal Educast, onde será disponibilizada uma gravação do mesmo.

Texto de Rita Cipriano, fotografia de Hugo Amaral.
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