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Perks. As vantagens de uma marca mudar de nome

A Cohibas levou uma volta e agora chama-se Perks. Os sapatos continuam a ser feitos na mesma fábrica familiar de São João da Madeira, a Evereste, mas querem conquistar o mundo.

André Fernandes ainda se lembra do tempo em que as marcas portuguesas tinham sotaque italiano. “Era a Manelli, a Muratti, Florentino, Gino Bianchi… Havia a ideia de que o que estava lá fora é que era bom”, diz. Por acaso a marca que o seu pai e o tio fundaram em São João da Madeira, há 18 anos, não acaba em “i” nem nasceu com apelido transalpino, mas também ninguém diria que podia estar num soneto de Camões.

“Eles acharam que Cohibas era um nome sonante, que puxava a Cuba e a um estilo de vida boémio e masculino, e por isso registaram essa marca”, conta o gestor de marketing. Os sapatos com nome de charuto iriam sair da fábrica da família, a Evereste, que até essa altura só fazia modelos clássicos de couro para homem, e daí a associação. O problema veio depois, quando o charuto se revelou demasiado curto.

“Queríamos ser um marca internacional mas havia muitos mercados onde não não conseguíamos entrar com a Cohibas”, diz André Fernandes. E o problema nem era a Havana SA, detentora do famoso tabaco cubano, era a batalha litigiosa que envolvia a empresa e um outro nome conhecido que já tinha registado a marca em diversos países da Europa, só para poder vender a chamada “propriedade industrial”. “Nós íamos ser o terceiro vértice numa guerra entre dois gigantes”, continua o gestor. Solução temporária seguida há alguns anos: comer uma parte da palavra e lançar a Chibs a nível internacional, dividindo os esforços promocionais, os logótipos e até as palmilhas. Solução permanente apresentada agora: deixar cair a Chibs e a Cohibas e concentrar tudo numa nova marca — a Perks.

Não, o nome não é português, e sim, vem de uma palavra inglesa que significa “valor extra”, “regalia” ou “mais-valia”. “Para nós é um nome que faz sentido porque queríamos dar esse valor extra àquilo que já fazíamos”, diz André Fernandes, sendo que por “nós” refere-se à terceira geração da família que fundou a fábrica Evereste, à qual pertence. “Se por um lado estávamos muito bem com a Cohibas e com a maturidade que já tínhamos atingido, por outro lado percebemos que a marca estava aquém das nossas expectativas e das nossas possibilidades, e que estávamos a dispersar energias. A Cohibas nunca ia ser internacional e a Chibs nunca ia ser nacional, porque também não estávamos contentes com o nome. As coisas mudaram e estarmos associados a uma marca de charutos já não nos agradava.”

A nova Perks está registada a nível internacional, e embora só esteja agora a chegar às lojas portuguesas, em setembro de 2016 já esteve a preparar terreno na MICAM, a importante feira de calçado de Milão, e também em Paris. Itália e França são apenas dois dos países onde a marca já tem agentes ou apresentações marcadas, numa lista que passa também pela Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Angola, Moçambique e, em breve, China. “A Perks vai ser uma marca nacional com projeção internacional”, diz o gestor de marketing. Ou seja, esfumaram-se os dias em que havia uma marca dentro e outra fora de portas.

Os sapatos da Perks chegam dia 15 de fevereiro às lojas.

De São João da Madeira para o mundo, a nova cara da Cohibas continua a ser feita na fábrica da família, a chegar agora ao cume dos 75 anos de existência. E à semelhança da sua história, tem duas linhas: a Perks 1942, que recupera os clássicos masculinos com que a Evereste começou, e a Perks Today, que vai buscar os cortes mais desportivos e urbanos da Cohibas.

Se na segunda linha há ténis com aplicações ou sapatos com solas de borracha e pormenores em ráfia a preços que começam nos 120€, na primeira moram os clássicos intemporais que podem chegar aos 220€, os oxford, os derby, os monk ou os loafers em pele. Ambas têm modelos para homem e mulher, embora essa divisão nem sempre faça sentido. “Como nós somos maioritariamente uma fábrica de homem e não temos grandes saltos nem plataformas, atrevo-me quase a dizer que não temos género”, afirma André Fernandes. O mesmo é apontar que há uma certa androginia a atravessar a primeira coleção da marca, sublinhada na campanha “The lady and the stylish man” e onde a modelo Margarita Pugovka ora surge de vestido comprido ora de fato, sempre com os seus Perks 1942 calçados.

A campanha da Perks 1942 foi inspirada nas Teddy Girls dos anos 50 e nos Dandys dos anos 60 porque toda a linha propõe uma reinterpretação dos clássicos masculinos. Ⓒ Joel Bessa

Com o novo nome chega também um novo logótipo: um cavalo-marinho, símbolo de tenacidade, lealdade e até de cavalheirismo. “O cavalo-marinho é o único ser que mantém o seu exoesqueleto há três milhões de anos. Só tem uma parceira a vida inteira, é ele que transporta os ovos da fêmea durante a gestação, e mesmo sendo pequeno e frágil consegue-se agarrar às rochas com a cauda e aguentar tudo”, diz André Fernandes. Agora, por exemplo, está agarrado a estas solas e preparado para ir a todo o lado.

Nome: Perks
Data: 2017
Pontos de venda: The Feeting Room (Largo dos Lóios, 86, Porto e Calçada do Sacramento, 26, Lisboa), sapatarias Prof (Lisboa e Porto), Prassa (R. de Sá da Bandeira, 592, Porto), Gardénia (R. Garrett 54, Lisboa)
Preços: 120€ a 220€

100% português é uma rubrica dedicada a marcas nacionais que achamos que tem de conhecer.

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