Pessoas

Porque uns fazem tanto ao mesmo tempo e outros não? Um teste explica

270

Apenas uma pequena percentagem de pessoas consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo, e fazê-las bem. Agora existe um teste que prova se as pessoas são, ou não, multitasking - quer saber se também é?

Quantas vezes não deu por si com dez janelas abertas no computador, o telemóvel a tocar, os emails a precisarem de resposta, a comida no fogão e a criança aos gritos do outro lado da casa, tudo ao mesmo tempo? Esta é uma realidade cada vez mais evidente. Há quem acredite que realizar três tarefas ao mesmo tempo não influencia a qualidade do trabalho. Mas, provavelmente, esse não é o caso. Como dá conta a BBC, existe agora um novo teste que permite saber se a pessoa consegue, ou não, ser multitarefa – ou multitasking -, mas apenas poucos passam no teste. Quer experimentar?

Se acha que é, não o é

A primeira verdade: se pensa que é bom a realizar várias tarefas ao mesmo tempo, é porque muito provavelmente não o é. As pessoas que têm por hábito realizar várias tarefas ao mesmo tempo não se saíram assim tão bem no teste realizado como as que não o fazem de uma forma tão regular. Por outras palavras, esqueça que a prática faz a perfeição, porque neste caso isso é mentira.

Mas, calma, não desanime já. Existem algumas exceções. Os psicólogos têm investigado e investigado e, ao acaso, descobriram que existe um pequeno grupo de pessoas que, efetivamente, consegue não só realizar várias tarefas ao mesmo tempo, como também fazê-las melhor quanto mais dividida estiver a sua atenção. São os chamados ‘super atarefados‘.

David Strayer e Jason Watson são dois neurocientistas da parte cognitiva humana, das Universidades de Utah e do Colorado, que conduziram os estudos e testes sobre estas pessoas ‘super atarefadas’. Os dois cientistas andavam a testar o que acontecia quando as pessoas se sentavam num simulador de condução e, ao mesmo tempo, conversavam num telemóvel de mãos livres. Para tornar o teste mais difícil, as pessoas tinham que não só conduzir e falar ao telemóvel como também manter-se a uma dada distância do carro da frente [dada pelos cientistas] e também memorizar uma certa lista de palavras, intercaladas com a resolução de problemas mentais de aritmética.

Tal como não surpreendeu aos cientistas, a maioria não se saiu assim tão bem no teste. As várias tarefas criaram várias distrações que, por sua vez, diminuíram o tempo de reação e a qualidade da condução das pessoas. Mas… houve uma pessoa que superou todas as outras. Seja qual fosse a distração introduzida, essa pessoa conseguia lidar com ela. Os psicólogos analisaram os dados recolhidos e não havia erros.

Intrigados, questionaram se esta pessoa tinha passado no teste apenas por mera sorte. Ou não. Então, decidiram testar em mais 200 pessoas. Resultado: 97% das pessoas falharam. A restante percentagem não diminuiu o seu desempenho consoante as distrações que iam sendo introduzidas. No total, os investigadores descobriram cinco pessoas especiais – três homens e duas mulheres. Em suma, apenas 2,5% da população é um verdadeiro “super atarefado”.

Há várias décadas que se estuda a atividade cognitiva humana. E há muito que já se havia confirmado que a nossa atenção é limitada. É verdade que conseguimos fazer algumas coisas diferente ao mesmo tempo, no entanto, uma nova distração pode alterar por completo a qualidade do trabalho desenvolvido. Ainda que exista uma pequena percentagem que parece não ser afetada por qualquer distração.

Poucos foram aqueles que passaram no teste e que conseguiram falar ao telemóvel ao mesmo tempo que conduziam, sem que isso influenciasse a sua atenção, reflexos e desempenho

Como é que os ‘super atarefados’ o conseguem ser?

A grande questão é tentar perceber o que se passa dentro do cérebro dos ‘super atarefados’ que os torna tão especiais ao ponto de serem capazes de dividirem a sua atenção em vários pontos, sem que por isso prejudiquem o seu resultado final. O que se esperava era que houvessem certas partes do cérebro, dedicadas à atenção, que estivessem mais ativas durante os testes e as várias tarefas. Porém, tal não foi o resultado.

Quando as cinco ‘pessoas especiais’ foram levadas para máquinas específicas que analisam a atividade do cérebro, os resultados foram surpreendentes. Afinal, havia ainda menos atividade no cérebro, em vez de mais áreas em atividade. Ainda que pareça um resultado surpreendente e, até, sem sentido, existem duas explicações para isto.

  1. Quando praticamos uma atividade na qual somos hábeis, o nosso cérebro mostra-se mais eficiente e, por isso, tem menos atividade. Por exemplo, um piloto profissional não apresenta muita atividade no seu cérebro quando está a pilotar porque é algo que é hábil a fazer. Se for outra pessoa que não seja especialista no automobilismo, o seu cérebro apresentará mais atividade.
  2. Mas eis que surge a principal novidade. Ainda que o nosso cérebro apresente menos atividade em situações nas quais somos hábeis e que estão associadas à atenção, existe num entanto uma atividade maior nas zonas que estão ligadas às memórias ou à imaginação, como é o caso dos sonhos ou de quando imaginados situações futuras.

Ora, descodificando um pouco este padrão, os ‘super atarefados’ conseguem, por exemplo, fazer malabarismo e outras tarefas, porque o seu cérebro está conectado de forma a que várias atividades resultem numa forma mais eficiente. Nestes casos, quantas mais atividades as pessoas tiverem, mais eficientes eles se tornam na sua realização. Ainda assim, a maioria nem sequer tinha a noção de que tinha esta capacidade.

Apenas 2,5% das pessoas consegue ser bem sucedido no multitasking

E desvantagens, existem?

Segundo os especialistas, ainda não existe nenhuma resposta à questão das desvantagens dos ‘super atarefados’. A questão que se tem colocado é se a capacidade de se concentrar em várias tarefas pode vir à custa de alguma outra atividade cognitiva, ou não. Questiona-se também porque é que esta é uma habilidade tão rara. Watson, um dos cientistas, sugere que talvez, a razão pela qual algumas pessoas tenham evoluído para se tornaram multifacetadas nas tarefas que executam, é que o cérebro de algumas pessoas se conseguiu adaptar de uma forma útil, tendo em conta a emergência e avanço das tecnologias modernas.

Este novo teste comprova, portanto, que a probabilidade de, simplesmente, se aprender ou treinar para se ser um ‘super atarefado’ é provavelmente improvável. Ainda que possa ser possível melhorar o nosso desempenho em algumas tarefas, isso não quer dizer que possamos melhorar a forma como realizamos várias tarefas, ao mesmo tempo.

Para responder à questão que, ao chegar ao fim deste artigo, deverá estar a questionar-se, a Universidade da Tasmânia e a Universidade da Utah desenvolveram um teste para a BBC, que pode fazer aqui e saber se é ou não uma das poucas pessoas capazes de executar corretamente várias tarefas em simultâneo. Basta aceder ao link através de um computador, tablet ou smartphone.

Alerta: não é um teste fácil e demora cerca de 40 minutos a chegar ao fim. Para o realizar, tem que conciliar o som e a visão e ser capaz de memorizar várias informações ao mesmo tempo.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Eutanásia

Eutanásia: uma falsa compaixão

João Muñoz de Oliveira

Todos sabemos que a vida não nos pertence por completo: foi-nos dada pelos nossos pais como um dom, pelo que não temos domínio absoluto sobre ela. E este ponto reforça os argumentos contra a eutanásia

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site