“Era na semana antes do Natal, um meio-dia de segunda-feira, ameno e pegajoso, e os muezins de West London proclamavam na sua melopeia que Alá é o único Deus:

‘La ilaha illa’lah. La ilaha illa’lah’.”

Assim começa a réplica de Anthony Burgess ao 1984 de Orwell – uma ficção intitulada 1985. A “ascensão do islamismo” na Grã-Bretanha do próximo futuro que serve de cenário a esta novela é provavelmente o que nela parece de mais candente actualidade. A obrigação de inserir imagens de pulmões roídos pelo cancro nos maços de cigarros é outra previsão, mais comezinha, que já faz parte do nosso dia-a-dia. Ou o policiamento da linguagem. Ou tudo aquilo que o Estado quer e pode saber sobre nós.

A distopia de Burgess, publicada em 1978, é apenas uma das partes desse livro um tanto caótico em que o autor inclui, primeiro, uma série de reflexões, sob a forma de ensaio ou entrevistas fictícias, sobre variados temas sociais e políticos, a que deu o título de 1985 (Estado e super-Estado ou Os filhos de Bakunine); em segundo lugar, vem a narrativa que dá o nome à obra e, por fim, uma nova “entrevista” que serve de “Epílogo” e uma nota sobre o “Inglês dos Trabalhadores” (uma versão imbecil mas relativamente mais benigna da “novilíngua”, o newspeak de Orwell). O Worker’s English é uma gramática simplificada e “racionalizada”; uma antecipação radical de coisas como o nosso Acordo Ortográfico.

[a primeira emissão do Dick Cavett Show com a presença de Burgess:]

Foi congeminada pelos linguistas oficiais dessa imaginária Inglaterra do futuro próximo presente e imposta pelas autoridades do regime então em vigor, uma tirania burocrática de sindicatos todo-poderosos, em que o ensino da história nas escolas está reduzido à história do sindicalismo), campeiam infrenes os gangs juvenis (cuja revolta se exprime também em saber latim e grego), inflação astronómica e islamização, reinando Carlos III. Burgess sempre se interessou pelos estudos fonológicos e linguísticos e a invenção do WE (acrónimo que tem a vantagem simbólica adicional de ser “nós” em inglês) é um exercício que muito o deve ter divertido. Não podemos esquecer – sobretudo porque não é muito lembrada – que uma das colaborações cinematográficas de Burgess consistiu na construção da linguagem pré-histórica imaginada por ele para uma das tribos da Idade da Pedra no filme de Jean-Jacques Annaud, “A Guerra do Fogo”.

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John Anthony Burgess Wilson nasceu há cem anos, a 25 de Fevereiro de 1917. Formou-se na Universidade de Manchester, sua cidade natal. Especializou-se em Fonética e estudos semânticos. Até fins dos anos 50 o seu ganha-pão teve sempre a ver com a educação. Ensinou no Exército (durante a guerra), foi funcionário do Ministério da Educação britânico, ensinou na Universidade de Birmingham, em Inglaterra, na Malásia e na Ilha de Bornéu coloniais – e, já autor consagrado, nos Estado Unidos. Para a literatura, Anthony Burgess nasceu muito depois do pedagogo John Wilson. A publicação dos seus primeiros romances como escritor profissional data dos primeiros anos 60 do século passado.

O seu livro mais conhecido, A Laranja Mecânica, é de 1962. Foi um dos primeiros romances que escreveu (o nono); escreveu mais de trinta. Entre eles, uma biografia romanceada de Shakespeare, Nothing but the Sun. (Vale a pena ver a já vetusta participação do autor no programa de televisão de Dick Cavett, disponível no Youtube, sobre a discussão a respeito da verdadeira autoria das obras do Bardo: se não são dele são de alguém com o nome dele …). Ou Napoleon Symphony, um “romance em quatro movimentos”, que nasceu de um projecto de filme com Stanley Kubrick que não chegou a materializar-se e no qual Burgess homenageia a Eroica de Beethoven cuja estrutura procura traduzir literariamente.

[o trailer da adaptação de Stanley Kubrick:]

Teve tempo ainda para exercer com distinção a crítica literária. Quando morreu, tinha escrito também, além de várias traduções (incluindo o Cyrano de Bergerac, de Edmond de Rostand, para uma versão musical de que foi também compositor, libretos de várias óperas e – até — Les nouveaux aristocrates, de Michel de Saint-Pierre – um escritor francês católico e conservador que teve nos anos 60 um longo e efémero “momento de evidência” e escreveu, por exemplo, um livro sobre Fátima: J’étais à Fátima), composições musicais, dezenas de introduções a livros de outros autores, alguns contos, ensaios, etc. Uma das suas grandes admirações literárias foi James Joyce, sobre cuja obra escreveu dois livros notáveis. Acreditava mais na disciplina do trabalho do que na pura inspiração. Foi quase uma literatura inteira.

Cedeu muitas vezes à tendência para uma prolixidade rebarbativa e para se deixar levar por jogos de linguagem, curiosidades e interesses culturais particulares, recreando-se numa intrincada pirotecnia literária que o torna hermético para muitos leitores e torna épica a tarefa de traduzir alguns dos seus livros (em Portugal, que eu saiba, além de A Laranja Mecânica, na esteira do filme de Stanley Kubrick, só foi publicado outro romance seu, Ferro-velho, Any Old Iron, “ficção especulativa”, nenhum dos quatro Enderby ou da trilogia malaia.). O seu toque nem sempre é seguro, embora tenha sido um escritor muitas vezes brilhante, sempre espirituoso e provocador. Mas é uma ingratidão queixarmo-nos da generosidade de uma imaginação e de uma prolificidade que nos deu tantos momentos memoráveis.

A capa da edição original de “Laranja Mecânica”, 1962

Numa nota necrológica que escreveu para o Independent, Roger Lewis considera que os seus livros de memórias Little Wilson and Big God (1987) e You’ve Had Your Time (1990) são talvez dois dos seus melhores “romances”. Talvez tenha razão. Em muitos casos da sua “ficção” – não romanceia, arenga. Mas Earthly Powers, de 1982, merece certamente ser considerado, como diz Lewis, um dos grandes romances do século XX. Samuel Johnson, uma das grandes figuras da cultura do século XVIII britânico, disse uma vez que “só um cretino escreve a não ser por dinheiro”. E foi impelido pela necessidade que Anthony Burgess enveredou pela carreira de escritor. Aos quarenta anos, diagnosticaram-lhe um tumor cerebral e deram-lhe um ano de vida. Burgess contou mais uma vez essa história numa entrevista à Paris Review realizada em várias etapas ao longo de 1971 e 72: “Não tinha economias. A minha mulher e eu tínhamos de comer. Ela ia ficar viúva. Eu não tinha perspectivas de emprego. Pus-me a escrever”.

No centro da sua obra está sempre a ineludível presença do Mal – “inextinguível, indestrutível, original e final” – como condição do livre arbítrio. É a moral de A Laranja Mecânica, cuja exploração em imagens na versão cinematográfica pode ser – e foi – vista como um reclame da “ultra-violência”. Na edição original do romance, o capítulo 21 (ano da maioridade) era a reconciliação do protagonista com a vida adulta, deixadas para trás as verduras da juventude. A sua eliminação na edição americana (como no filme) dá-lhe, talvez, uma concisão brutal, que o próprio autor não tem a certeza que seja um erro), embora lhe estrague a simbologia numérica e transforme, segundo Burgess, “um romance numa parábola”.

Burgess era um pessimista com muito boa disposição; um iconoclasta sem respeito pelas piedades socialistas contemporâneas, o igualitarismo, a incultura atrevida, a ditadura dos grupos de pressão culturais e sociais a que se chama de forma abreviada o “politicamente correcto”. Era um anarquista? Um “conservador”? Na entrevista da Paris Review respondeu: “Dado que o meu ideal de uma monarquia imperial católica jacobita não é praticável, suponho que o meu conservadorismo é realmente uma forma de anarquismo.” Falou.