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Cinema

Olivier Assayas: “Com a Kristen sinto que é sempre possível ir mais longe”

Eurico de Barros conversou com o realizador Olivier Assayas a propósito do seu novo filme, "Personal Shopper", interpretado por Kristen Stewart e premiado em Cannes. Estreia-se esta semana em Portugal

Autor
  • Eurico de Barros

Em “Personal Shopper”, o novo filme do francês Olivier Assayas, prémio de Melhor Realizador em Cannes, Kristen Stewart interpreta Maureen Cartwright, uma rapariga americana que trabalha em Paris como assistente pessoal de uma célebre e temperamental “top model”, comprando-lhe a roupa e o calçado. Maureen está de luto pela morte recente de Lewis, o seu irmão gémeo. Lewis e ela combinaram que o primeiro a morrer daria um sinal do Além ao outro. Maureen, que tem qualidades mediúnicas, está obcecada por receber esse sinal e protagoniza uma assustadora experiência sobrenatural na casa no campo onde Lewis vivia com a mulher.

O Observador entrevistou Olivier Assayas pelo telefone e o realizador contou como se serviu da linguagem, de situações e de tipos do cinema de género, como o policial e o filme de terror, para narrar esta história de uma mulher emocionalmente vulnerável e em crise de identidade, que tem uma profissão ligada a um meio dominado pelo materialismo e pela superficialidade, e vive assombrada pela possível existência de uma realidade sobrenatural. “Personal Shopper” é o segundo filme em que Assayas dirige Kristen Stewart após “As Nuvens de Sils Maria” (2014), e o autor de “Irma Vep”, “Demonlover” e “Tempo de Verão” fala também da sua relação de trabalho com a actriz americana.

Conheço uma pessoa que perdeu a irmã gémea há alguns anos num desastre de automóvel. Ela viu o seu filme e disse-me que a tocou muito, porque se sente como a personagem de Maureen: como se tivesse perdido metade de si, parte da sua identidade. É esse o tema do filme?
Sim. Aliás, é dessa forma que costumo resumir o filme. Há uma pessoa que vive em luto, que perdeu parte de si e anda à procura dela, que tem voltar a ser una. E para isso, precisa de cumprir um trabalho de luto que implica também reconstruir-se a si mesma e reconstituir a sua identidade.

“Personal Shopper” não é um filme de género, mas existe cinema de género no filme: o “thriller” – há um crime e um mistério – e o terror –, há uma casa assombrada, um fantasma, ou mais. Eu chamar-lhe-ia uma “fantasmagoria realista”. Está de acordo?
Sim, estou. Não costumo utilizar categorias, mas acho que é exacto. Vejo o filme como o retrato de uma mulher que a determinado momento tem necessidade de se reconstruir, porque vive em luto, e tento mostrar essa reconstrução não através de estereótipos, mas como que estando dentro dela. E tenho necessidade de mostrar as emoções da maneira mais forte e verídica possível. E para evocar certas emoções, incluindo o articular das emoções físicas – o medo, a angústia, por exemplo –, existe a linguagem do cinema de género, que as restitui muito bem. Para exprimir o que ela estava a sentir, o que estava a viver, precisei dessa linguagem, dessa sintaxe. Evidentemente que isso não faz de “Personal Shopper” um filme de género, é apenas algo que eu utilizo. Quando imagino um filme, faço-o como um pintor. Se preciso da cor vermelha para exprimir algo, utilizo-a. Isso não quer dizer que vá pintar um quadro todo vermelho.

Mas é um grande apreciador de cinema de género.
Sou, sempre me interessei muito por filmes de género. E fui muito influenciado por eles, pela sua sintaxe, por cineastas como John Carpenter ou David Cronenberg. E também porque o cinema de género tem um diálogo físico com o espectador. O cinema de hoje, o cinema moderno, o cinema independente, muitas vezes não se dá conta dessa dimensão, e é algo que eu sempre achei apaixonante. É um cinema a que reagimos com o nosso corpo.

Esta história passa-se sob o signo da dualidade, da polaridade? É que temos, por um lado, o híper-materialismo do mundo da moda onde Maureen trabvalha e, pelo outro, o mundo do espiritualismo, o sobrenatural e a tecnologia, o realismo e o irreal.
Digamos que é um filme onde há dois mundos que se articulam com a nossa própria experiência. De um lado, um mundo onde temos nos empenhar para assegurar a nossa vida quotidiana, o nosso trabalho, com o que isso possa ter por vezes de alienante; e do outro lado, um mundo interior que é ao mesmo tempo o do íntimo e o da imaginação. Este mundo é onde, de uma certa maneira, existe o desconhecido, o invisível, algo que ignoramos. E no filme, a questão da espiritualidade, ou do espiritismo, que no caso vertente são a mesma coisa, é a maneira como comunicamos fora destes dois mundos. E também joguei com a ideia que podia haver essa dimensão nos meios de comunicação modernos. Eu utilizo-os como traço de união, como ponte entre esses dois mundos.

Achei muito interessante a menção que faz às sessões de espiritismo que o Victor Hugo fazia quando esteve exilado em Guernsey e Jersey.
Quando estava a preparar o filme interessei-me muito pela forma como a espiritualidade é uma forma de inspiração e como o espiritualismo do século XIX foi a fonte da invenção da arte moderna. Por isso, menciono também a Hilma af Klint, uma grande artista que contribuiu para a invenção da arte abstracta e que era “médium”, e o Hugo, que era um romancista realista, com livros como Os Miseráveis ou Nossa Senhora de Paris, mas que acreditava que a sua inspiração provinha de um mundo invisível. Eu reconstituí no filme com toda a exactidão uma dessas sessões que ele fazia, tal como as descreveu no Livre des Tables. Este livro é um documento extraordinário, porque é o registo de uma espécie de escrita automática. Evidentemente que Victor Hugo não comunicava com os espíritos de grandes figuras do passado, mas penso que ele certamente comunicava com o seu próprio inconsciente, e prefigura nestes textos uma forma de modernidade da escrita, de liberdade da escrita que não existia na sua época.

Falou de meios de comunicação, e o filme tem aquela extraordinária sequência de diálogo via “chat” entre a personagem de Kristen Stewart e um desconhecido inquietante, durante uma viagem de comboio entre Paris e Londres, ida e volta. Durante algum tempo, pensamos que ela está em comunicação com o Além através do seu iPhone, não é?
No começo sucede isso. O que me interessava mostrar aí era a vulnerabilidade da personagem. Recorde-se que a Maureen está à espera de um sinal do irmão gémeo morto, mas ignora qual será, que forma terá. Logo, tudo se torna um sinal para ela, tudo tem uma dimensão irracional e no princípio da conversa, ela pensa que essas mensagens vêm do Além, até compreender que não é o caso e que se trata de alguém que está a tentar seduzi-la. Mas há essa ambiguidade, que tem muito a ver com os meios de comunicação modernos, onde há gente que tem pseudónimos, falsas identidades, que circula com eles pela Internet, um fenómeno que pode tomar dimensões ameaçadoras.

Existem afinidades, contiguidades, entre “Personal Shopper” e o seu filme anterior, “As Nuvens de Sils Maria”, e entre a personagem de Kristen Stewart em ambos os filmes?
A escrita do filme foi muito influenciada pelo meu trabalho e pela minha relação com a Kristen, mas não tinha a certeza, quando o estava a escrever, se ela iria querer interpretá-lo. Podia achá-lo estranho, de estilo bizarro, logo não estava muito claro no meu espírito se ela iria participar nele. A partir do momento em que dei o argumento a ler à Kristen e que nos demos conta que sim, compreendi que a Maureen era uma espécie de prolongamento da Valentine de “As Nuvens de Sils Maria”. Quando escrevi este filme, ainda não conhecia a Kristen, Valentine podia ter sido interpretada por qualquer actriz. Descobri a Kristen ao rodar “As Nuvens de Sils Maria” e tenho a impressão de ter ficado frustrado por lhe ter dado uma personagem que era algo unidimensional. Terá sido isso que me deu vontade de prolongar a nossa colaboração, dando-lhe uma personagem mais consistente, mais complexa e misteriosa.

Já falou em ambiguidade, uma característica de “Personal Shopper”, nomeadamente porque tudo aquilo por que Maureen passa de aparentemente sobrenatural, pode estar dentro dela, ser imaginado por ela, provir do seu inconsciente.
Sim, pode, e pode ter um duplo significado, no sentido de que seja qual for a questão que ela se põe, em especial a sua identidade, da reconciliação com ela mesma, a resposta está nela. A questão não é tanto a da comunicação com o Além onde pode estar o seu irmão gémeo, mas com o seu próprio inconsciente, que lhe fala e lhe diz para se libertar do seu luto.

Mesmo que haja aquela sequência onde nós vemos o que parece ser o fantasma do irmão gémeo na cozinha, mas ela não, porque está no jardim, de costas?
Ela não o vê porque isso passa-se atrás dela. Quer dizer, porque ela perdeu a confiança, ela já não acredita. É como se lhe tivesse vindo um sinal, mas ela tivesse perdido a fé e tivesse ficado incapaz de o ver. Mas vai ter uma segunda oportunidade.

Pensa voltar a filmar com Kristen Stewart? Seria a terceira vez.
Gostava muito, mas ainda não escrevi nada que lhe pudesse convir. Nunca me sucedeu fazer três filmes com a mesma actriz, porque fico com a impressão que no cinema, uma colaboração acaba sempre por se queimar, por se consumir. Mas a Kristen é a primeira actriz com a qual sinto isto, que é possível ir mais longe, de fazer outras coisas. Gostava muito de voltar a filmar com ela e espero que a ocasião se apresente.

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