Cinema

“Personal Shopper”: os fantasmas de Kristen Stewart

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Olivier Assayas filma uma Kristen Stewart assombrada por fantasmas que poderão ou não ser reais, nesta fita que recorre aos códigos do "thriller" e do terror. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Há profissões que vistas de fora podem parecer glamorosas, mas por vezes são uma corveia para quem as exerce. Em “Personal Shopper”, de Olivier Assayas, Kristen Stewart interpreta Maureen Cartwright, uma americana que vive em Paris e é a “personal shopper” de Vicky, uma “top model” intratável e que anda sempre em viagem. Maureen escolhe-lhe as roupas, os sapatos e as jóias, das marcas mais luxuosas e nas lojas mais caras, e praticamente nunca a vê, comunicando só por telefone. E trabalha quase só pelo dinheiro, porque a sua fixação não tem nada a ver com as coisas do mundo materialista e superficial por onde circula. É que Maureen tinha um irmão gémeo, Lewis, que morreu, e com o qual compartilhava uma malformação cardíaca. Por isso, combinaram que quem morresse primeiro, daria um sinal do Além ao outro.

[Veja o “trailer” de “Personal Shopper”]

Maureen, que é “médium”, está obcecada por esse sinal, e com a forma que ele poderá tomar, o que lhe pôs todas as defesas emocionais em baixo. Uma noite na casa onde Lewis e a mulher moravam ainda a deixou mais vulnerável e assustada, devido à manifestação do espectro de uma mulher. O seu quotidiano é assim passado entre dois mundos antípodas: o concreto, da moda, das compras e dos gestos quotidianos, e o imaterial, dos espíritos, das manifestações sobrenaturais, dos acontecimentos insólitos. E a vulnerabilidade de Maureen vai ser testada, primeiro por um estranho que a contacta e assedia por telemóvel, durante uma viagem de ida e volta de comboio entre Paris e Londres, e depois por um sangrento assassínio. Serão os responsáveis forças do Além, ou pessoas de carne e osso?

[Veja Kristen Stewart e Olivier Assayas entrevistados no Festival de Cannes]

Assim contado, “Personal Shopper” parece um filme de género, uma mescla de filme de terror e de policial psicológico. Mas não se esgota aqui, longe disso. Olivier Assayas, antigo crítico dos “Cahiers du Cinéma” que deu o salto para a realização nos anos 80, e autor de obras como “Irma Vep”, “Clean”, “Tempos de Verão” ou “Carlos”, serve-se do arsenal temático, narrativo e estilístico do “thriller” e do terror para filmar o retrato de uma mulher que, ao perder o seu irmão gémeo, se viu como que roubada de metade de si e privada de outro tanto da sua identidade, está de luto profundo e procura recompor-se e ficar em paz. Mas para isso acontecer, está dependente de uma manifestação exterior ao mundo tangível e sensorial onde habita.

Olivier Assayas: “Com a Kristen sinto que é sempre possível ir mais longe”

Meticulosa e ousadamente postado a meio caminho entre o cinema de género e o cinema de autor, “Personal Shopper” é um filme onde Assayas cultiva uma modalidade muito própria de fantasia realista, onde faz coabitar atmosferas, efeitos e registos normalmente opostos, o que nos dá direito a uma noite numa casa assombrada digna de um John Carpenter, e especialmente a uma sequência hitchcockiana de “stalking” mediada por iPhone, com a personagem principal sempre em movimento. É um “tour de force” visual e emocional, onde o realizador explora as potencialidades das novas tecnologias de comunicação e dos espaços virtuais que geraram, para criar “suspense” e angústia, deixando-nos, e a Maureen, durante parte do tempo, na dúvida sobre se o seu interlocutor invisível será uma entidade sobrenatural ou uma pessoa.

[Veja imagens da rodagem do filme em Paris]

Este “será-não será?” que domina a história, aflige a personagem e confronta o espectador, traduz a ambiguidade que Olivier Assayas quis que marcasse “Personal Shopper” e a história de Maureen. Tal como o filme circula entre real e irreal, materialidade e sobrenatural, também Maureen sente enfado e desdém pelo que faz e pelo meio onde ganha a vida, mas ao mesmo tempo é atraída pelos artigos caríssimos e exclusivos que escolhe para Vicky, e não resiste a usá-los, contra o que está acordado com aquela, nem a dormir na cama do seu sofisticado apartamento; e também as experiências sobrenaturais da personagem podem ser uma auto-ilusão, uma perturbação mental passageira ou uma expressão do seu inconsciente, como fica sugerido na sequência final.

Assayas, que ganhou o Prémio de Melhor Realizador em Cannes, trabalha aqui pela segunda vez com Kristen Stewart após “As Nuvens de Sils Maria” (2014), onde ela fazia também o papel de uma anónima assistente pessoal de uma figura pública (a actriz interpretada por Juliette Binoche). A sua Maureen é um prolongamento mais complexo dessa personagem e agora está sozinha em cena. Stewart sai-se mais que airosamente, transmitindo com a modulação dramática exacta, quer a eficiência desprendida e despachada com que ela cumpre as funções de “personal shopper”, quer a inquietação emocional e a insegurança psicológica que a assolam por baixo dessa capa profissional, filmada por Olivier Assayas com uma atenção devotada e hipnótica. Se há alguém realmente assombrado em “Personal Shopper”, é o realizador pela sua intérprete.

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