Caixa Geral de Depósitos

Com aumento de capital de 2012, pôr a Caixa dar lucro era uma “missão impossível”

Com aumento de capital da Caixa, decidido por Governo PSD/CDS, voltar aos lucros era "missão impossível", diz Nogueira Leite. E defende que plano de Domingues podia ter sido antecipado vários anos.

António Nogueira Leite foi vice-presidente da Caixa entre julho de 2011 e dezembro de 2012. Saiu em divergência com planos do Governo PSD/CDS

TIAGO PETINGA/LUSA

O aumento de capital de 1.650 milhões de euros, decidido pelo anterior Governo em 2012, com Vítor Gaspar nas Finanças, não era o adequado às necessidades de reestruturação da Caixa ao contexto económico, defendeu o antigo vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, na comissão parlamentar de inquérito ao banco. Nogueira Leite explica que se demitiu no final de 2012 porque considerou que o aumento de capital inviabilizava que qualquer equipa de gestão conseguisse realizar, nos anos seguintes, resultados positivos.

Como gestor, precisava de mais capital, mas a decisão era do acionista. E quando o acionista decide uma coisa de que não gosto ou me acomodo ou saio e decidi sair.”

O ex-administrador, que desempenhou funções durante pouco mais de um ano, explica que como profissional, que tinha cortado todas as ligações com o grupo privado de onde veio (o grupo Mello), “não era interessante, nem adequado enfrentar uma situação tão difícil sem os instrumentos adequados. E esse instrumento era mais capital”. Nogueira Leite assinala que não sabe o que se passou acima, ao nível do acionista Estado e reconhece que havia uma “grande dificuldade” em fazer entender às autoridades europeias os problemas da banca portuguesa.

O antigo vice-presidente deixa também críticas ao então presidente da Caixa Geral de Depósitos, José de Matos, por uma “política de não comunicação”. Ou seja, “íamos ficar com o ónus” dos maus resultados, mas não podiam explicar. Sublinhando que a administração da qual fez parte estava consciente das grandes dificuldades que a Caixa ia enfrentar, pela recessão económica e pela baixa das taxas de juro, que ultrapassou as previsões .

Era muito difícil a achei que não poderia correr o risco de estar a fazer um trabalho extraordinariamente difícil e que não teria oportunidade de justificar. Isso levou-me a dar um salto escuro”.

O gestor refere ainda que estratégia que era comunicada pelo Estado era a de estabilizar a liquidez da Caixa e aguentar o crédito à economia.

“Não havia um grande plano para a Caixa que não fosse aguentar o barco e manter a economia a funcionar”. O gestor recorda contudo que o país e a banca enfrentavam uma situação muito difícil com Portugal a sofrer um programa de ajustamento que era muito exigente para a Caixa Geral de Depósitos. A troika tinha muito pouco abertura em relação ao sistema financeiro português. “Havia muito pouca boa vontade para com os bancos portugueses”. Não conhece as negociações com o Governo, mas assinala a recapitalização de 1.650 milhões de euros foi considerado uma ajuda de Estado.

.Apesar deste quadro e da circunstância de os mercados estarem fechados para Portugal em 2011, a Caixa, recorda foi o primeiro banco a fazer uma operação no mercado, “antes de bancos geridos por pessoas muito melhores do que nós, como o BPI”, numa bicada ao banco do qual veio António Domingues, o gestor que desenhou e negociou o plano de recapitalização da Caixa em 2016.

Gaspar justificou aumento de capital: “Não tive oportunidade de fazer diferente”

Nogueira Leite admite que o desvio de três mil milhões face ao plano de negócios negociado em 2012 se deve sobretudo à descida das taxas de juro que prejudicou muito a Caixa por causa da exposição ao crédito imobiliário.” Revimos 15 vezes a linha do indexante (das taxas de juro)”. A Caixa ficou debaixo de um grande stress e se tivesse mais capital “teria resistido melhor”.

Quando é questionado sobre a dimensão do aumento de capital, Nogueira Leite remete as respostas para o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e para a então secretária de Estado. Revela que confrontou Gaspar com a insuficiência do aumento de capital: “Isto vai ser muito complicado”. E recebeu a resposta: “Não tive oportunidade de fazer diferente”. O gestor concluiu que face à postura da troika não havia capacidade para negociar algo diferente.

Mas assim, “tínhamos uma missão impossível“, num contexto muito difícil e em que a realidade foi ainda pior do que a previsão mais negativa. E três meses depois “já sabíamos que a realidade era pior do que nos dizia o regulador. Precisávamos mais capital para muitas coisas (reestruturar, limpar o balanço de imparidades). O plano de capital do Sr. Domingues (5.160 milhões de euros) podia ter sido antecipado vários anos. Precisávamos de ter tido muito mais capital. E nunca ninguém disse (na Caixa) que isto (1.560 milhões de euros) chega”. Reconhece contudo que os colegas que ficaram no banco, foram “mais estoicos. Estiveram disponíveis para subscrever durante anos os resultados que conhecemos”.

Como Gaspar, via António Borges, forçou a Caixa a vender a Cimpor

Nogueira Leite confirmou ainda uma história que foi polémica em 2012 e que resultou na venda imediata da participação da Caixa na oferta pública de aquisição (OPA) da Cimpor. O gestor conta que o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, informou a administração da Caixa que a decisão seria tomada pelo seu conselheiro para as privatizações (António Borges). Nogueira Leite assume a sua grande divergência com o conselheiro e diz que o banco traçou linhas vermelhas, recusando-se a vender a participação com prejuízo, o que não aconteceu. Mas gostaria de ter tido mais tempo antes de anunciar a venda, menos de uma hora depois de anunciada a OPA. Nessa operação houve uma intervenção do Governo que ficou registada em ata, diz.

De resto, Nogueira Leite assinala que Vítor Gaspar “era muito cioso do seu poder”. E decretou que a Caixa era da sua tutela. “Quando alguns ministros nos ligavam perguntávamos: já falou com o ministro?” As conversas sobre a Caixa eram através de Vítor Gaspar.

Nogueira Leite também realça que a Caixa gostaria de ter ficado com os seguros — a Fidelidade — mas reconhece que foi o resultado de um tradeoff quando foi negociado o memorando com a troika em 2011, para evitar o cenário de privatização da Caixa que era desejada pelos credores internacionais.

E como chegamos aqui?

O ex antigo vice-presidente da Caixa realça que os problemas do banco público também aconteceram com os privados. E justifica que os “banqueiros ganharam muito dinheiro no passado e não perderam tempo a criar instrumentos de controlo da atividade”. Mas o gestor defende que a situação não era muito diferente do que enfrentavam na mesma altura os bancos portugueses.

Quando chegou à Caixa estavam em pré-execução alguns devedores famosos que depois foram executados. E lembra que a Caixa teve de ir explicar ao Parlamento porque executou um empresário (será Manuel Fino, então acionista da Cimpor). “Fomos extraordinariamente rigorosos e tivemos pressões permanentes e desabafos na imprensa” de pessoas que se queixavam de não conseguirem crédito do banco público. Um desses empresários terá sido José Roquette a quem a Caixa suspendeu o financiamento a um projeto turístico no Alqueva.

O gestor aproveitou a sua intervenção inicial para assegurar aos deputados que cortou todas as suas relações com o grupo Mello onde trabalhou vários anos antes de entrar para a administração da Caixa. Não tem planos de reforma, nem de saúde. E diz que não participou em nenhuma decisão tomada naquele período relacionada com o Grupo José de Mello, que era em conjunto com a Brisa, um dos grandes maiores clientes de crédito da banca nacional.

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