Crítica de Livros

Como Aaron Schuman fez um livro que é um museu

Ao mesmo tempo que enaltece o papel decisivo da fotografia na construção de qualquer colecção etnográfica, "Folk" é uma homenagem à camaradagem incansável das gerações que fazem a "gente de um museu".

Autor
  • Humberto Brito

Título: “Folk”
Autor: Aaron Schuman
Editora: NB Books

Nenhum país deve prescindir da noção de que pode estar temporariamente enganado em relação a si mesmo. Para isso, existem alguns instrumentos. Um desses instrumentos são os museus. De entre os tipos de museus, os mais directamente responsáveis por salvaguardar uma sanidade a longo prazo são, decerto, os museus de etnografia, etnologia, arte popular, etc. A sua tarefa não é fácil e é ingrata.

Quando prescindem da noção de poderem estar errados a seu próprio respeito, os países tendem a transformar tais museus em capas de jornais desportivos: tristes paradas estáticas, habitualmente foleiras, glorificando o inglorificável. Quando não — partindo do princípio, provavelmente falso, de os países terem alguma vez uma visão clara de si mesmos —, a tutela distrai-se da sua (desses museus) existência e importância. Não se dá o devido valor à incumbência de quem os comanda, a de preservar uma memória colectiva sem todavia a embelezar; e quase nunca nos ocorre que este tem de ser um longo trabalho de equipa.

Por isso, quando o fotógrafo americano Aaron Schuman propôs ao Museu Etnográfico Seweryn Udziela, em Cracóvia, um projecto em torno da sua colecção intitulado Folk (projecto na origem do livro epónimo publicado pela NB Books há alguns meses, com o dedo delicado da designer portuguesa Ana Teodoro), a resposta não foi calorosa. “Aaron” — escreveu Ewelina Lasota em Fevereiro de 2014, em nome do director do Museu — “desculpe a nossa hipersensibilidade. Queremos apenas assegurarmo-nos de que compreendemos a mensagem do projecto, já que faremos parte dele”.

Descendente de imigrantes polacos nos Estados Unidos, a proposta de Schuman tinha motivos pessoais e precedentes familiares. Em 1900, o seu bisavô partira da antiga Galícia para os Estados Unidos e, já em 2011, a sua mãe visitara pela primeira a região de Cracóvia para investigar a história da família, tendo, entre outras tarefas, visitado de passagem o Museu Etnográfico. (“Muito bom”, anotou ela num diário, aliás notável, de que o filho publica excertos: “trajes, utensílios agrícolas, ovos pintados, interiores domésticos, modelo de um moinho. Táxi de volta para o hotel para descansar…”)

Dois anos depois, Aaron Schuman seria convidado a visitar Cracóvia como curador de um festival fotográfico (o Krakow Photomonth), no âmbito do qual aquele Museu fora escolhido como um dos espaços expositivos. Schuman ficou fascinado com o que ali encontrou. “Foi uma experiência muito estranha”, confessa num e-mail ao então director do Festival, Karol Hordziej, a quem apresentou originalmente a ideia:

Achei os conteúdos do museu fascinantes e super exóticos (…) mas também senti uma vaga familiaridade com eles — muitas das relíquias da minha família eram polacas e eram parecidas com objectos que vi no museu (….) do ponto de vista cultural, tudo me pareceu novo e fascinante e remoto, mas ao mesmo tempo tudo me era muito próximo de maneiras que não conseguia realmente entender.”

Deste estranhamento surgiu o interesse por usar a fotografia como instrumento para uma investigação, em parte, a respeito da sua ascendência polaca, tendo como referência a colecção do Museu Etnográfico; e em parte a respeito da própria concepção de ‘Museu Etnográfico’ “e de como a investigação etnográfica, ela mesma, procede, é preservada, e é representada, pelo museu”.

Folk é um daqueles casos em que a história da construção do livro, documentada no final do volume por um caderno que inclui toda a correspondência relevante, parece ser tão digna de acompanhar quanto a obra em si, a que já irei. Voltando atrás, o entusiasmo da proposta de Schuman começou por contrastar com o cepticismo (ou pelo menos a reacção cautelosa) da direcção do Museu a respeito da visão dele para este livro, nomeadamente, a impressão de deslumbramento pelo exotismo das duas explicações — o que, até certo ponto, talvez fosse um problema de tradução. “Enquanto equipa do museu,” esclareceu Ewelina Lasota no mesmo e-mail de Fevereiro de 2014, “temos trabalhado muito para nos separarmos de um entendimento estreito da etnografia como folk [arte popular] — processo de mudança que aqui teve começo há vários anos.”

A longa resposta de Aaron Schuman a este cepticismo foi uma boa ocasião de clarificação a respeito de todo o projecto. O seu e-mail debruça-se extensa e diplomaticamente nos múltiplos significados da palavra “folk” em inglês, todos eles relacionados de alguma maneira com o espírito do seu fascínio pelo Museu Etnográfico de Cracóvia. Abreviadamente, Schuman encontrou no Museu não apenas uma colecção de explicações inesperadas para muitos dos objectos da sua vida, nem somente uma imagem possível da Polónia (dos seus modos e costumes, do aparato material da sua memória colectiva), mas também um testemunho eloquente de o que significa fazer um Museu. A saber, um testemunho de como se cataloga, arquiva, protege e preserva todo este conjunto de coisas ao longo de décadas; mas também da obsolescência e do lado improvisado e mesmo artesanal de todos estes recursos — um monumento ignorado da história humana por detrás da constituição qualquer museu.

O livro que daqui resultou combina o trabalho fotográfico propriamente dito (isto é, imagens de objectos da colecção, de algum modo ligados à herança polaca de Schuman) com imagens dos arquivos do museu (isto é, fotografias, desenhos, documentos). Ao mesmo tempo que enaltece o papel decisivo da fotografia na construção de qualquer colecção etnográfica, Folk é ainda uma homenagem bela e desafectada à camaradagem incansável de muitas gerações de pessoas, a que Schuman dá o nome de “gente do museu” (“museum folk”), aqui mostrada como uma espécie de família a remar para o mesmo lado. Um cínico poderá escarnecer desta visão de camaradagem. Em todo o caso, há qualquer coisa de profundo e tocante na maneira como os museus sobrevivem às pessoas que por eles passaram. Este livro de Schuman captura-o sem alarde; nisso reside o seu tom e a sua elegância.

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