“Há cada vez mais bancos em África, e principalmente há bancos que estão em vários países, criando uma verdadeira rede bancária africana, mas enquanto empreendedora, sinto que África foi excluída das instituições financeiras, do setor bancário, do acesso ao financiamento”, disse a empresária na Conferência sobre África 2017, organizada pela London School of Economics, em Londres.

“Fomos deixados de fora; há muita discriminação, e sinto-me feliz por ver que tomámos para nós o trabalho de criar bancos na Nigéria, no Gana, em Angola, e todos modernizámos os serviços bancários nos últimos dez anos” acrescentou.

Isabel dos Santos falou durante quase trinta minutos sobre a sua experiência enquanto empreendedora africana, passando em revista o seu investimento na rede de hipermercados Candando, “que significa abraço”, e na ideia de transformar mercados de rua em retalho moderno.

“Devemos pensar em como dar melhores empregos e oportunidades a todas as pessoas que lá trabalham, e dar oportunidades, que são empregos, carreiras, novas profissões, formação e educação”, disse a diretora executiva da companhia petrolífera angolana, a Sonangol.

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Além da já conhecida história de sucesso das telecomunicações, que levou Isabel dos Santos a ironizar para a plateia de estudantes que “é muito bom, todos, toda a gente tem um telemóvel em África”, a empresária destacou a energia e a agricultura como as áreas onde é necessária e desejável uma aposta dos investidores com consequências para os africanos.

“Temos um grande défice energético no continente, é um grande ‘input’ para a indústria, mas se for demasiado cara não somos competitivos”, vincou, acrescentando: “Dizem que não somos competitivos porque não somos eficientes ou somos preguiçosos ou não sabemos fazer as coisas, mas não é verdade; precisamos é de investimentos enormes e pessoas para fazerem as coisas”.

As declarações de Isabel dos Santos, feitas este sábado ao princípio da tarde, e divulgadas domingo pelo gabinete da líder da Sonangol, surgem na mesma altura em que a agência de notação financeira Standard & Poor’s estima que o nível de endividamento dos países africanos vá cair 19%, para 43 mil milhões de dólares por causa das desvalorizações cambiais e das dificuldades económicas destes países.

“A S&P Global Ratings prevê que os 17 países da África subsariana cujo crédito soberano avaliamos vá pedir emprestado o equivalente a 43 mil milhões de dólares de fontes comerciais de longo prazo, o que representa uma queda de 19% face à emissão de dívida no ano passado”, diz o relatório enviado aos investidores.

No documento, a que a Lusa teve acesso, a S&P atribui esta descida “à forte depreciação das moedas nacionais e às dificuldades económicas, que obrigaram os países a abrandar o ritmo” de pedido de empréstimos ou de emissões de dívida pública.

“Até países que historicamente têm um nível de pedido de endividamento alto, como a África do Sul ou Angola, vão reduzir as emissões de dívida planeadas para este devido às pressões para consolidar as suas necessidades”, escrevem os analistas da S&P, que sublinham que este ano “47% do endividamento bruto, cerca de 20 mil milhões de dólares, vai ser usado para refinanciar a dívida de longo prazo, o que compara com 38% (cerca de 20 mil milhões de dólares) em 2016”.

Assim, continuam, o volume de dívida comercial dos países da África subsariana seguidos pela agência de ‘rating’ vai chegar aos 323 mil milhões de dólares no final deste ano, o que eleva o total da dívida (comercial e concessional) para 446 mil milhões de dólares.

“O segundo semestre do ano passado foi difícil para a maioria destes países; África sofreu muito com a descida do preço do petróleo, porque muitas economias estavam bem num ambiente de preços elevado, e foram bastante atingidas pela queda”, comentou o analista Ravi Bhatia, responsável pelo departamento de análise dos países africanos.