Teatro

Durante três dias, estar em Lisboa é como estar em Kinshasa

Monika Gintersdorfer regressa ao Teatro Maria Matos. Outra vez com a companhia Klassen, outra vez disposta a transformar preconceitos e interpretações. Agora numa estreia absoluta

"Com as suas manifestações criativas, os artistas transformam-se em narradores", explica Monika Gintersdorfer

Knut Klassen

Em 2013, Monika Gintersdorfer ocupou o Teatro Maria Matos durante dois dias de confronto. Quem assistia a “The End of The Western” e a “Breaking Performance: Gbagbo at the ICC / La Jet Set” encontrava uma outra forma de lidar com a ideia de “interculturalidade”, de identificar preconceitos e de lhes dar a volta. Monika e a companhia Klassen regressam agora ao mesmo palco para apresentar “Diálogo Direto Kinshasa Lisboa”. Trata-se de uma proposta do teatro lisboeta que depois passa por Bruxelas e Berlim. Um coprodução que quer questionar a ideia que temos de desenvolvimento e de cooperação.

Artistas do Congo, da Alemanha e da Costa do Marfim juntam teatro e dança, palavra e música, diálogo e silêncio. Tudo para, a partir de Kinshasa, lançar a questão: o que temos como objetivo de desenvolvimento, a ideia de sustentabilidade que as Nações Unidas procuram levar até aos países africanos é a que cada universo concreto e particular exige e procura? Na verdade, Monika Gintersdorfer diz-nos que é possível traçar um paralelismo com algo de uma diferente dimensão mas com semelhanças inevitáveis: a forma como “as receitas de austeridade euro-alemãs afetaram diferentes países”, afirma.

[Um excerto dos ensaios da residência em Kinshasa]

Como surgiu este “Diálogo Direto Kinshasa Lisboa”?
O Marc Deputter [diretor artístico do Teatro Maria Matos] lançou-nos a proposta de fazer algo sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas. Ele queria saber se poderia existir uma abordagem pós-colonial sobre a forma como os países são classificados e se há uma agenda capitalista acerca da concretização de determinados objetivos que garantem essas mesmas classificações. Mas a verdade é que enquanto grupo artístico não conseguimos fazer uma pesquisa exaustiva sobre esse tema.

O que fizeram então?
Escolhemos critérios que a ONU não considera e tentamos caracterizar o progresso da sociedade congolesa, particularmente a partir de Kinshasa. Juntámos artistas de diferentes origens, do Congo, da Costa do Marfim e da Alemanha para o fazer. O que é o progresso? Depende de quê? Como pode ser avaliado?

E que critérios acrescentaram?
Os Objetivos de Desenvolvimento analisam a educação, a saúde, o vencimento, o equilibro de géneros. Nós usámos também os setores político, religioso e cultural. Porque a verdade é que tudo isto está ligado. E depois partimos das experiências pessoais de cada artista, que com as suas manifestações criativas se transformam em narradores.

De alguma maneira, este é um epectáculo que confronta o público com preconceitos.
Sim, claro, mas não quero reproduzi-los, não vou reproduzi-los.

O teatro e a dança podem ultrapassar esta realidade?
No nosso trabalho combinamos movimento e texto para que diferentes fenómenos possam ser trabalhados com o corpo ou com a linguagem. Ou até com os dois. No meio disto, é preciso traduzir, porque muitas vezes os artistas não falam a mesma língua que o público, como vai acontecer em Lisboa. Mas a vantagem está na pouca estrutura do espectáculo, dá-nos a oportunidade de contextualizar melhor, de explicar, de adaptar as mensagens aos diferentes públicos – que podem ter maneiras diferentes de as interpretar. Até porque seria impossível uniformizar o que apresentamos. As ideias e as opiniões dos artistas são diferentes, a harmonia não é possível mas a transparência é. Na verdade, procuramos fazer o nosso trabalho de forma transnacional exatamente para procurar esse confronto.

Klassen, a companhia de Monika Gintersdorfer, teve em Kinshasa um cenário de residência onde a linguagem criativa serviu de tradutora natural

E também há política.
Há. Às vezes de forma explícita, como nos casos em que falamos dos processos do ex-presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, ou do ex-ministro Blé Goudé. Mas por norma, política no palco quer dizer outra coisa. Quer dizer ouvir e comentar, perguntar e responder, traduzir coisas que por norma são mal interpretadas. Evitar a indignação, a polémica.

Ainda sobre traduções e interpretações, como é trabalhar em Kinshasa? Basta a linguagem criativa para o entendimento seja perfeito?
Completamente. Já é a nossa quarta vez em Kinshasa, ainda que nunca tenhamos ficado muito tempo. Desta vez concentrámo-nos em ter artistas a visitar outros artistas por exemplo, Dada Kahindo e Roch Bodo levaram-nos até aos pintores Cherin Cherin e Ministre des Pubelles, conhecidos pelas abordagens políticas, pela referência explícita à realidade social congolesa dos anos 90. Ou músicos da cena afrobeat do Congo, também. O entendimento acontecia, tornava-se fácil. E, claro, íamos tentando falar francês, mais ou menos…

Como é que tudo isto se pode relacionar com Lisboa?
Queremos partilhar o que aprendemos em Kinshasa, mesmo que não conheçamos muito bem a cidade, estamos à espera de encontrar pontos de ligação, pormenores em comum. Durante os anos de crise financeira, Portugal passou por alguns destes desentendimentos, percebeu como as classificações e os critérios impostos por outros podem ser negativos para a autonomia. Vimos de Berlim, sabemos bem como as receitas de austeridade euro-alemãs afetaram diferentes países.

“Diálogo Direto Kinshasa Lisboa” está no Teatro Maria Matos entre quinta, 20 de abril, e sábado, 22 de abril, às 21h30. Bilhetes entre 7 e 14 euros.

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